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Laís Bodanzky: "Cidadão tem de entender a importância do cinema para economia"

A cineasta e diretora da Spcine Lais Bodanzky - Marcus Leoni/Folhapress
A cineasta e diretora da Spcine Lais Bodanzky Imagem: Marcus Leoni/Folhapress

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

30/03/2019 04h00

Primeira mulher a comandar a Spcine, empresa que cuida do fomento e desenvolvimento do cinema da capital paulista, a cineasta paulistana Laís Bodanzky ("Bicho de Sete Cabeças", "Como Nossos Pais") tem um cenário delicado pela frente.

Indicada por Alê Youssef, secretário de Cultura da gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), ela terá de enfrentar o enxugamento de patrocínios públicos, de empresas como Petrobras, a Caixa e o BNDES, e o rebaixamento da área da cultura na esfera federal.

Demonstrando otimismo, Laís diz que há muito o que se feito, a começar por um trabalho de conscientização: o setor precisa comunicar melhor entre si, com empresas privadas e sociedade, que necessita compreender melhor a importância da economia criativa.

Outras de suas metas: expandir o circuito Spcine, que leva o cinema a populações periféricas, para além das 20 salas espalhadas pela cidade --15 delas em CEUs (Centros Educacionais Unificados)--, além de criar um observatório que reunirá dados sobre o setor e servirá de base para políticas públicas, nos moldes do que já existe na Ancine.

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Imagem: Gabriel Cabral/Folhapress)

UOL - Quais serão as prioridades da nova gestão da Spcine?

Laís Bodanzky - O principal é a comunicação. Há muitos projetos bacanas na Spcine que as pessoas desconhecem. Temos a Film Comission, que facilita filmagens na cidade, temos o Circuito, temos o Spcine Play, plataforma de streaming. Outra coisa que precisamos fazer é retomar o conselho consultivo, que foi se perdendo na rotina das reuniões. Temos que ouvir o setor audiovisual e fazer com que o setor escute a Spcine.

Muitas vezes, determinadas áreas do setor chegam para falar com a Spcine, cada um com sua demanda, sem entender uma demanda tem a ver com a outra. Temos que pensar junto e propor política públicas mapeando o todo. Também queremos desenvolver uma área com um observatório de dados, para que as políticas públicas consigam do papel e funcionar.

A indústria do game dentro da SPcine também é muito tímida ainda, e hoje existe um mercado muito grande, com um festival como o Big. Temos grandes artistas do mundo do game, desconhecidos, querendo trabalhar e não têm espaço para mostrar seus projetos. Queremos ser um facilitador para eles e para a cadeia que já existe.

Como incentivar o cinema e o audiovisual em um cenário de cortes de patrocínio, com o rebaixamento do Ministério da Cultura?

Primeiro temos que dialogar com as outras instâncias de poder. Mostrar a força do setor, a importância que ele tem. Hoje o setor do audiovisual é responsável por 2% do PIB. Essa é uma conversa que todo mundo entende, que é apartidária. Todo mundo quer que o Brasil dê certo, que a economia funcione.

Temos a necessidade do diálogo, de mostrar números, a importância, a quantidade de trabalhadores direitos e indiretos envolvidos, além dos serviços do setor. E não é só o governo que precisa saber disso. O cidadão comum precisa entender a importância do setor audiovisual, do cinema para a economia. O que é economia criativa? O que é fazer um filme? Um game? Como isso gera empregos e recolhe impostos. Essa conversa é necessária.

O circuito Spcine foi lançado com 20 salas e ainda não se expandiu. Como planeja fazer isso?

Uma das formas é a parceria com a educação. Cinema e educação caminham muito bem juntos. Vivemos em uma sociedade audiovisual. Levar o audiovisual à escola torna a escola contemporânea. Depois, você pode misturar o entretenimento com o aprendizado crítico do audiovisual. É uma forma interessante de formar o cidadão mais bem preparado para qualquer profissão. Esse é um lado do circuito Spcine que eu acho ainda tímido. Ele já tem parcerias com os CEUs, mas há espaço para crescer.

Mas a parceria do cinema com educação não acontece só dessa forma. Temos um trabalho grande com professores e também com o nosso serviço de streaming, o Spcine Play, que também pode contribuir para esse projeto. Uma das ideias é cada vez mais afinar o streaming com o circuito, como é na vida real. Sala de cinema, TV e streaming. Pensar na cadeia.

Você é a primeira mulher assumir a Spcine. Como pretende ampliar o número de diretoras e mulheres em cargos diretivos?

Primeiro é preciso tomar consciência, e isso a Spcine já tem. Já tivemos edital de 2017 com esse foco. De novo: temos que ouvir mais o setor. Ouvir as minorias e entendê-las. Vamos botar essa interrogação e partir para ações efetivas. Entenderemos melhor essa lacuna com os dados do observatório e depois procuraremos mudar com regras de edital, com mudanças na escolha de júris, por exemplo. Se você se preocupa com a diversidade do júri, isso se reflete no resultado do edital naturalmente. Com essa ideia, você começa a mudar a realidade aos poucos.

A Caixa rompeu parceria com o Cine Belas Artes, que corre o risco de fechar novamente. Como a Spcine avalia essa questão?

Como cineasta, fico muito preocupada. Mas estar na SPcine nesse momento é interessante, podemos pensar de forma global. Essa não é uma situação exclusiva do Belas Artes, mas do cinema de rua de São Paulo, que são poucos. Eles não podem fechar as portas, porque fazem parte da história da cidade. A prefeitura precisa ter essa compreensão, da importância deles, que é preciso agir.

Acho que a solução passa por encontrar novos patrocinadores. Algumas empresas ligam na Spcine e a gente repassa o contato. A cidade precisa abraçar essas salas com carinho. Fazer com que elas se tornem ponto turístico, taguear no mapa. Cinema de rua é memória afetiva e um espaço muito importante para qualquer cidade. É uma delícia um cinema poder estar na sua calçada.