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"Coisa Mais Linda": Série da Netflix volta ao Rio de 1959 para falar de machismo

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

22/03/2019 04h00

Quando se fala de bossa nova, são os nomes de dois homens que vêm à mente: Tom e Vinícius. Mas em "Coisa Mais Linda", série brasileira da Netflix que traz o gênero como pano de fundo, são quatro mulheres que estão à frente da história, usando o Rio de Janeiro de 1959 para discutir temas como violência doméstica, preconceito no mercado de trabalho e racismo.

É Malu (Maria Casadevall) o ponto de partida da trama de sete episódios, que estreia hoje. Ela viaja ao Rio para encontrar o marido e começar uma vida nova na cidade, mas descobre que ele fugiu com todo o seu dinheiro. Ela decide dar início a sua nova fase sozinha, abrindo um clube dedicado à música no local em que ela e o marido iriam abrir um restaurante.

No processo, sua história se liga com a de outras três mulheres: Lígia (Fernanda Vasconcellos), que abriu mão de seu sonho de ser cantora para se casar; Thereza (Mel Lisboa), uma jornalista à frente de sua época; e Adélia (Pathy Dejesus), que vive em um morro e trabalha como doméstica para se sustentar.

Em comum, todas sofrem com o fato de não terem suas vontades e desejos levados a sério pelas pessoas a sua volta e com as limitações impostas pelo machismo da época, que é mais atual do que parece.

Pathy Dejesus e Maria Casadevall em cena de "Coisa Mais Linda", série brasileira da Netflix - Netflix/Divulgação - Netflix/Divulgação
Pathy Dejesus e Maria Casadevall em cena de "Coisa Mais Linda"
Imagem: Netflix/Divulgação

"A gente vive muitos desses problemas hoje", diz ao UOL Mel Lisboa. "Quando você tem uma série de época, você vai no conforto do espectador, que vai assistir como esse distanciamento e depois se dá conta de que muita coisa permanece igual. Embora tenha havido conquistas que devem ser celebradas, tem muita coisa que permanece a mesma".

A opinião é compartilhada por suas colegas. "A série apresenta também o quanto o que não parece ser violência é de uma violência brutal, que é quando você não deixa o outro se expressar, quando você não dá a oportunidade de ele desistir, de ter o seu direito garantido como ser humano", analisa Fernanda Vasconcellos. "Quando você abafa a voz dessas mulheres, quando você não dá a oportunidade para essas pessoas, você as destitui de seus direitos humanos".

Maria Casadevall acredita que "Coisa Mais Linda" pode inclusive ajudar mulheres a perceberem o machismo que as cerca. "É um ponto de partida para muitas mulheres que não começaram sua caminhada na direção dessa tomada de consciência. A partir do momento que elas se identificarem com aquelas situações, elas podem começar a se questionar se aquilo é pessoal ou se é algo estrutural que as está colocando nesse lugar de desconforto".

Mel Lisboa é Thereza em "Coisa Mais Linda", série brasileira da Netflix - Aline Arruda/Netflix - Aline Arruda/Netflix
Mel Lisboa é Thereza em "Coisa Mais Linda", série brasileira da Netflix
Imagem: Aline Arruda/Netflix

Na pele de dois dos principais personagens masculinos da série --Capitão e Chico--, os atores Ícaro Silva e Leandro Lima também reconhecem a importância de se falar do machismo e suas implicações. "A gente só trata isso como questões femininas porque vivemos em um mundo que subjuga o feminino, mas as questões delas são questões humanas", diz Ícaro. "Tenho muito prazer em dizer que me identifico com as personagens, com a luta delas. Acho que elas transcendem o gênero dentro das suas relações humanas".

Apoio e união

Em meio a uma charmosa reconstituição de época e aos belos figurinos, chamam a atenção os relacionamentos entre as quatro protagonistas. Nem todas têm entre si uma relação de amizade, mas elas se apoiam mutuamente --é a tal da sororidade, palavra que representa a união entre mulheres e vem se tornando cada vez mais frequente nas redes sociais.

"Não se trata de uma série sobre quatro amigas", explica Mel Lisboa. "A partir do encontro delas, elas se fortalecem, elas se dão as mãos, elas transformam e se ajudam. Isso é sororidade. Não necessariamente você precisa ser amiga de uma mulher para ajudá-la".

Para Pathy Dejesus, é exatamente esse um dos trunfos da série. "É surpreendente, porque a gente conseguiu contar uma história de época que é contemporânea, e conseguimos colocar quatro mulheres protagonistas que não rivalizam e que não são super amiguinhas", diz. "Acho que as nossas mulheres conseguem fazer uma coisa meio mágica, de tirar a mulher desse lugar que o machismo adora, para que a gente possa se erguer e evoluir juntas".