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Primeiras impressões de "Ladrão", terceiro disco de Djonga

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

Ronald Rios

Especial para o UOL

2019-03-17T04:00:00

17/03/2019 04h00

Sou fã do Djonga. Acho moleque brabo. Crânio nas linhas. Não sei da onde vem tanta criatividade. Gosto do estilo gritado - que ele usou até menos no disco. Ele lembra uns funk carioca roots, às vezes dando até uma entortada aqui e ali, não saindo tão limpo tudinho. É numa sujeira que eu acho muito a versão nossa do punk rock. Eu ouço ele e na hora penso que é um rapper filho da sagacidade do funk carioca com o grito ensurdecedor do Kurt Cobain. Ele tem um volume distorcido que vira veículo para sua mensagem chegar a algum lugar; como tinha o último grande vocalista do rock americano.

Lembro do primeiro disco que Djonga que ouvi. Eu tava, se não me engano, no estúdio do Rodrigo Ogi e ele botou pra tocar. Foda. Lembro que na época do segundo disco, eu entrei em contato com o Djonga para chamar ele pruma entrevista. Minha surpresa é que ele assistia o Badalhoca, programa meu na MTV uns 9 anos atrás. Esse maluco tão bolado que havia me chacoalhado a cabeça com uma impressão tão samurai... gostava de ouvir minhas groselhas noturnas. Achei engraçado. Fiquei com vergonha.

O tempo passou, a admiração só cresceu e agora tô vendo ele lançando seu terceiro disco, "Ladrão". Escrevo enquanto ponho pra tocar pela primeira vez, na hora em que ele só está disponível no YouTube - é bem provável que ao você ler isso na sexta ele já esteja disponível em outras plataformas, mas a princípio Djonga quis focar o público na plataforma de vídeos do Google.

Dito isso, vamos a um faixa a faixa com minha primeira impressão sobre esse novo míssil do moleque brabo:

1. "Hat-Trick"

Mano. Abram alas pro rei. Ele tá errado em chamar a música assim? Três discos e três gols. Difícil argumentar contra fatos - e rap bom é fato. Eu adoro o flow nele nessa, variando demais. É uma celebração mas cheia de raiva. E tem como ser de outro jeito?

2. "Bené"

"Dizem que meu papo é muito profundo", ele canta. Tenho um pouco de medo duma geração tão preguiçosa pra pensar que não abrace pra valer um MC desse calibre. Eu gosto que em meio a tantas referências de cultura pop, ele repete "pega a visão, não vai se perder" como quem diz: "bora, tô tentando abrir o caminho, mas cê tem que se esforçar um pouco aí pra me acompanhar". Os trechos cantados são bem legais. O beat é simples e ganha musicalidade é na voz dele mesmo, do jeito que tem que ser.

3. "Leal"

Love song maneira, sem ser piegas. Possível single. Letra muito boa. Os trechos cantados devem ajudar a ganhar um público novo. Gostei.

4. "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Eu adoro o tanto de aliteração que tem no verso do Djonga, mais variações de flow - algo que ele melhorou muito em relação aos trabalhos anteriores. E ele tá tirando onda: ele pega o momento hypado (seus últimos três anos?) e joga na cara dos detratores. Você não precisa gostar do Djonga. Mas vai ter que engolir. E o Ret vem vem vilão e "versático" no feat. Excelente forma de ambos.

5. "Tipo"

"A cobra deixa a onça mansa" - safadão esse maluco! Gostei! Djonga fala de putaria dum jeito que dá saudade de se apaixonar. E o refrão do MC Kaio dentro dum compasso meio reggaeton sugere outro possível hit mais acessível.

6. "Ladrão"

Sem palavras. Punchlines caindo dos bolsos, tá maluco. "Um salve pra quem não desacreditou." Um salve pro Djonga que nunca desacreditou nele mesmo. Só isso mesmo e já era.

7. "Bença"

Emocionante. Não tem como não pensar na minha coroa. Na minha bisa (vó não tive). Grandes mulheres negras que sofreram coisas na vida que me cortam o coração só de ouvir. Eu nunca vou entender. E a melhor parte: nunca deixaram de ser mulheres boas demais pro mundo. Nunca deixaram de ter a mesma bondade no fundo dos olhos que o Djonga canta.

E sim, que "lindo serviço o Gustavo tá prestando pra todos nós."

8. "Voz"

Ótima performance de Doug Now e Chris MC. Agora, o Djonga veio com as linhas mais cabreiras do mundo nessa! Cé loko. Pode fechar o disco aqui já mano. "Cês nos trouxeram do Oceano / Mas me dão tanta preguiça que as vezes penso em voltar pra lá nadando!"

Essa é só uma. A capacidade do Djonga de criar cenários, quadros visuais com palavras para expressar seu descontentamento - e com tanto sarcasmo - é uma joia rara no rap nacional.

9. "Mlk 4tr3v1d0"

Tirou onda. É quase uma vinheta, meio que uma paródia do clássico do Jorge Aragão, servindo pra preparar cenário pra faixa final.

10. "Falcão"

Trilha sonora do filme de vencedor. Minha favorita do disco. Tem tanta dor na caminhada desse maluco. Contrasta tanto com a grana que ele canta, o ouro que ele veste. Ele conquistou muita coisa com seu talento. Ele é irônico pra caralho. Ele celebra mas é ciente de cada passo da caminhada. Você ouve as dores dele. É sempre entre um bravado e outro. Ele tira onda - mas é porque nadou um bocado até pegá-la.

Conclusão:

Vou falar o quê? Brabo. É meu favorito dos três discos. Sem dúvida. Eu gostava mais do primeiro que do segundo. Mas esse, wow! Fi. Tá maluco...

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