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Teatro e musicais


Atriz e cantora Bibi Ferreira morre aos 96 anos

Ana Cora Lima e Carolina Farias

Do UOL, no Rio

13/02/2019 14h48

Resumo da notícia

  • Bibi sofreu uma parada cardíaca em sua casa, no Rio
  • Ela se aposentou dos palcos em 2018, após 77 anos
  • É filha do ator Procópio Ferreira
  • Bibi interpretou Edith Piaf nos palcos por 30 anos

Bibi Ferreira, grande diva do teatro brasileiro, morreu no início da tarde de hoje, aos 96 anos, após sofrer uma parada cardíaca. A notícia foi confirmada ao UOL pelo empresário dela, Nilson Raman. Ainda não há informações sobre o velório, apenas que ela gostaria de ser cremada.

Atriz, cantora, compositora e diretora, ela estava em sua casa, no Flamengo, quando passou mal. "Foi um infarto fulminante. Ela estava muito idosa, foi muito rápido. Foi sem sofrimento, graças a Deus. Ela tinha uma saúde de ferro, chegou a hora dela", disse ao UOL a neta Claudia Ferreira Gonzalez Lima.

No ano passado, Bibi enfrentou uma série de problemas de saúde. Ela chegou a ser internada com quadro de desidratação.

Mãe de Tina Ferreira, filha única de sua união com Armando Carlos Magno, Bibi ainda foi casada com Carlos Martins Lage, Herval Rossano, Édson França, Paulo Porto e Paulo Pontes.

Aposentadoria

Em setembro de 2018, Bibi anunciou sua aposentadoria dos palcos, após 77 anos de carreira. Sempre ativa, com espetáculos diferentes na estrada, ela estava na época ensaiando um novo show dedicado ao cancioneiro de Dorival Caymmi. O repertório estava quase escolhido e a banda começava a ensaiar quando ela decidiu não mais se apresentar ao vivo.

Em uma nota oficial, Bibi disse que seguiria "uma vida mais reclusa, com a família e seus amigos mais íntimos, não estando mais disponível para entrevistas, mesmo por e-mail". 

"Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada", disse ela no comunicado.

"Primeira-dama" do teatro

Abigail Izquierdo Ferreira nasceu em 1º de junho de 1922 no Rio de Janeiro. Filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi é considerada a primeira-dama do teatro brasileiro, tendo estreado nos palcos com apenas 20 dias de idade, na peça "Manhãs de Sol", substituindo uma boneca que havia desaparecido horas antes do espetáculo. 

Passou pelo colo de Carmem Miranda, tomou dicas de canto com Noel Rosa e estudou teatro em Londres em 1942. Até hoje, era uma das artistas brasileiras com uma das carreiras mais longevas.

"O que eu gosto muito num palco é que eu estou inatingível. Quando estou num palco ninguém me toca. É um momento só meu. Um momento em que não vou ser interrompida. Estou ali só para dar. O que eu puder dar, eu dou. É o momento da criação. Da comunhão. É muito bonita esta comunhão palco e plateia. É o momento em que, através de vocês, eu me encontro com Deus."
Bibi Ferreira

Estrela de musicais

Como atriz e cantora, Bibi teve grande sucesso nos musicais "Gota d'Água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, "Minha Querida Dama" (versão brasileira do clássico "My Fair Lady", que fez com Paulo Autran), "O Homem da La Mancha", "Alô Dolly" e "Piaf, a Vida de uma Estrela da Canção", em 1983. Com este espetáculo, Bibi percorreu o Brasil inteiro e vários países, encerrando a turnê em Portugal.

Cantando e contando a vida de Piaf nos palcos, Bibi Ferreira foi premiada em 1985 e 2009 com a Comenda do Ordem e das Letras da República Francesa, o prêmio máximo da cultura na França.

Bibi também foi diretora de concertos, óperas e peças de teatro. Entre os nomes que dirigiu estão Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, Clara Nunes e Roberta Miranda, entre outros.

Pioneira na TV

Em 1960, ela participou da inauguração da TV Excelsior com o programa "Brasil 60", no qual usava o recurso do videotape para transmitir reportagens das capitais brasileiras, aposentando o programa ao vivo, o que, até então, era comum na TV brasileira. O sucesso foi tanto que se desdobrou em "Brasil 61", "Brasil 62" e assim por diante nos anos seguintes.

Na Excelsior, fez também "Bibi Sempre aos Domingos". Em 1968, ela comandou na TV Tupi carioca o musical "Bibi ao Vivo", com direção de Eduardo Sidney. No programa, Bibi apresentava, cantava e dançava com a orquestra do Maestro Cipó e as coreografias de Nino Giovanetti no histórico auditório da Urca.

"Não" para as novelas

Bibi Ferreira nunca aceitou papéis em novelas --dizia que não se sentia à vontade vivendo personagens na telinha. Acreditava que seu temperamento histriônico de apresentadora, um estilo único que criou, se adequava melhor do que a interpretação em um folhetim.

Além de ser poliglota, sempre transmitiu credibilidade, que vinha de sua ampla cultura, e fazia isso com charme imbatível. Na transmissão que fez para a TV Tupi, em 1972, da entrega do Oscar, maior prêmio do cinema mundial, mostrou todo esse potencial.

"In Concert"

Nos anos 90, Bibi Ferreira completou 50 anos de trajetória artística com o espetáculo "Bibi in Concert". Em 2009, em homenagem ao Ano da França no Brasil, ela retornou ao Teatro Maison de France para reviver o musical "Bibi Canta e Conta Piaf".

Em 2013, ela levou o "Bibi in Concert para Nova York e se apresentou na Broadway pela primeira vez. Bibi foi comparada com Ella Fitzgerald pelo jornal "New York Post" e ganhou um dueto com Liza Minelli, filha de Judy Garland, cantando "New York, New York".

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