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Presa e torturada na ditadura chilena se recusou a cantar música de Roberto Carlos

Ana María Jiménez foi presa durante regime de Augusto Pinochet no Chile - Associated Press
Ana María Jiménez foi presa durante regime de Augusto Pinochet no Chile Imagem: Associated Press

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

10/02/2019 04h00

É comum relacionarmos a música com momentos marcantes da nossa vida. Seja com uma relação amorosa, um parente querido ou simplesmente a lembrança de um momento especial. Ana María Jiménez, no entanto, tem memórias terríveis de algumas músicas, em especial a faixa "Um Milhão de Amigos", de Roberto Carlos. A cantora chilena estava presa no centro de detenção Villa Grimaldi durante o regime autoritário de Augusto Pinochet, em 1975, e sua história foi descrita em um artigo da pesquisadora Katia Chornik e reproduzida pela CNN.

Na época, Jiménez estava com 24 anos de idade e foi detida sem nenhuma acusação formal e levada para uma das 1.168 cadeias com presos políticos do país. Em uma das noites enquanto estava encarcerada, ela foi obrigada a cantar "Um Milhão de Amigos", de Roberto Carlos. Naquele ano, o cantor brasileiro se apresentou no tradicional festival de Viña del Mar e fez um agradecimento ao então presidente do país. 

Quando se recusou a cantar a música, Jiménez foi obrigada a passar a noite na chuva.

De acordo com um estudo de 2004 da Valech, uma comissão especializada em investigar os abusos cometidos durante o regime militar chileno, cerca de 94% dos prisioneiros detidos durante a era Pinochet foram torturados com agressões, choques ou presenciando outras pessoas apanhando.

No caso de Ana María, que justamente era uma musicista, a música era usada como ferramenta de tortura.

Segundo o levantamento do Valech, há relatos de que os militares usavam músicas em suas sessões de tortura em oito centros de detenção. A pesquisa de Chornik vai além, e cita a prática em 30 unidades.

Roberto Carlos em retrato de 1971; cantor se apresentou em festival chileno em 1975 - Mondadori Portfolio via Getty Images
Roberto Carlos em retrato de 1971; cantor se apresentou em festival chileno em 1975
Imagem: Mondadori Portfolio via Getty Images

Além do episódio com a música de Roberto Carlos, a pesquisadora aponta também para o uso da canção "Gigi l'amoroso", que ficou famosa na voz da cantora Dalida, que era tocada em volume máximo enquanto os torturadores cometiam as agressões, principalmente às mulheres. O termo "Gigi" ainda era usado para descrever o aparato elétrico usado para dar choques nas pessoas.

"Fisicamente, eu acabei com muitos problemas cardiovasculares, respiratórios, insuficiência renal, problemas nos dentes e alopecia pós-traumática", disse Jiménez. "É um sentimento terrível que nunca deixa você por completo. Você sempre pensa que pode ser atacada. É uma angústia".

Dor e humilhação com música

O uso da música em sessões de tortura é historicamente comprovado, como aponta a musicóloga Morag Josephine Grant, da Universidade de Edimburgo. Segundo ela, existe a capacidade de causar danos nas funções psicológicas e emocionais.

"A música tem um tipo de ressonância em questões culturais e políticas. O tipo de música usada pode determinar componentes para degradar ou humilhar as pessoas", explicou, citando as mulheres judias em campos de concentração forçadas a tocar obras de compositores nazistas.

Estes tipos de emoções podem despertar novas reações e mudar o relacionamento das pessoas com a música, explica um estudo de Juliane Brauer, pesquisadora do Instituto Max Planck. O estudo mostra que nosso corpo tem a tendência de conectar a música com emoções, lembranças e significado.

Excesso de música

Há também diversos relatos do uso de música em sessões exaustivas onde os torturados são privados de sono e colocados sob uma quantidade absurda de volume. Suzanne Cusick, da Universidade de Nova York, fez um estudo sobre o tema, que define como uma sobrecarga sensorial, causando grande estresse no ouvinte, fazendo-o até perder a capacidade de distinguir o que é a realidade.

"E não tem nada a ver com lavagem cerebral. Era algo que estava danificando o psicológico das pessoas. Era algo humilhante e degradante. Um dano físico muito grave", explicou Grant.

Em alguns casos, a música era usada como um fator extra em técnicas que causavam muito estresse, como ficar preso em uma posição desconfortável, privação de comida ou ficar exposto ao frio ou calor.

Em sua pesquisa, a musicóloga afirma que cruzou com muitas pessoas que duvidaram das capacidades de tortura da música. Ela acredita que as leis internacionais contra tortura ainda são rasas quando se trata dessa questão.

"Tortura através da música ainda acontece em vários lugares", disse Grant. "É uma tática que tem sido usada como punição e humilhação muito mais antiga do que você imagina", completou.

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