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Como as rádios de batidas lo-fi se tornaram febre no YouTube

Ilustração de Juan Pablo Machado, que está no canal Chilled Cow - Divulgação
Ilustração de Juan Pablo Machado, que está no canal Chilled Cow
Imagem: Divulgação

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

04/02/2019 04h00

Um pouco cansada, mas bem concentrada em suas anotações, a garota escreve e ocasionalmente se distrai com seu gato na janela. Ela está em um quarto atolado por livros, uma planta, seu laptop e algumas miudezas. Do lado do vídeo, a caixa do bate-papo dividida entre as 12 mil pessoas que assistem ao canal ChilledCow dão amostras do alcance do vídeo com os assuntos mais aleatórios possíveis (desde um brasileiro falando sobre o Carnaval até uma jovem russa falando que precisa estudar para uma prova de matemática).

Em uma era onde a música foi dominada pelas plataformas digitais de streaming, o YouTube revitaliza o formato de rádio e playlists em um modelo inusitado. Com transmissões ao vivo que chegam a durar meses, o ChilledCow já chegou ao número de 2,4 milhões de inscritos com uma chamada básica: "lofi hip hop radio - batidas para relaxar ou estudar".

O canal é seguido de perto pelo Chillhop Music, hoje com 2 milhões de seguidores. Baseado em Roterdã, na Holanda, o selo musical surgiu em 2013 em um blog e hoje também coleciona números impressionantes, como os 167 milhões de visualizações que tem no YouTube. A premissa é parecida. Batidas simples que vão do jazz ao hip-hop, mas desta vez a ilustração dá lugar para um guaxinim em um cenário típico millennial: cama, café, computador e celular carregando.

Agnis Leznins, gerente do Chillhop, contou ao UOL por e-mail que o início do selo se deu em sessões de skate entre o criador da plataforma, Bas van Leeuwen, e seus amigos, que na época ouviam muito Nujabes e J Dilla, produtores que trabalham justamente nesse segmento de produzir batidas instrumentais. "Ele quis montar um canal no YouTube simplesmente onde pudesse reunir esse tipo de música. Hoje, a maior parte das músicas são recomendadas por nossos amigos, mas também pela nossa equipe que busca talentos", afirmou.

O sucesso no YouTube

Há uma explicação rasa, mas pertinente pelo sucesso das batidas lo-fi. São canções empolgantes e que não demandam de muita atenção por seu espectador. Especialmente pelos millennials, uma geração de jovens hiperconectada onde sua rotina é ditada por realizar inúmeras tarefas simultaneamente. As batidas lo-fi automaticamente preenchem um vazio sonoro, mas por não terem grande complexidade instrumental ou vozes não interferem em outras atividades, como leitura, estudo ou simplesmente rodar pelas redes sociais.

"É um bom tipo de música para se ouvir quando está estudando. Você pode deixar rolando no fundo e nem perceber", explicou Leznins, do Chillhop. "Quando estamos ativamente ouvindo e prestando atenção, estes instrumentais lo-fi também têm um certo tipo de melancolia. Eu acho que boa parte das pessoas se identifica com isso também".

Basicamente, as estações lo-fi se relacionam muito como uma boa curadoria de playlist, algo bem distante dos complexos algoritmos do Spotify, Apple e similares. A estética do gênero lo-fi se baseia principalmente em um tipo de produção quase caseira, no qual as imperfeições de gravação podem ser ouvidas em um estilo próximo da mentalidade "faça você mesmo".

A playlist virou negócio

A história da Chillhop Music, um hobby que se tornou uma empresa, se repete algumas vezes. No Reino Unido, o canal College Music segue todo o formato das estações anteriores: batidas instrumentais lo-fi, transmissões ao vivo e uma animação cativante no vídeo. Com mais de 500 mil inscritos, o canal foi fundado pelos britânicos Jonny Laxton e e Luke Pritchard, ambos na casa dos 20 e poucos anos. Para eles, um tópico vital para fidelizar seus ouvintes é se fazer presente na rotina das pessoas, como disse em artigo da revista "Vice". "Nós não queremos que encontre a estação e no próximo dia não saiba onde ouviu aquilo", disse Pritchard.

Hoje, a dupla recebe propostas de artistas que se mostram dispostos a pagar para que suas músicas entrem em sua programação. Uma espécie de jabá atualizado para este novo formato de rádio.

Sempre quisemos compartilhar músicas de artistas que amamos. Fazer dinheiro nunca foi a intenção do College Music quando o fundamos. Por isso não queremos de certa maneira lucrar às custas de nossa integridade e qualidade da música que tocamos.

Contramão

Spotify, iTunes, Google Music, Deezer e todas as plataformas de streaming apostam em seus complexos algoritmos para fazerem uma leitura do seu comportamento para criar um perfil e apostar em artistas que você pode gostar na próxima vez que apertar play na ferramenta. A aposta do ChilledCow, Chillhop e College Music parece ter encontrado uma audiência disposta a consumir novidades e ser surpreendida dentro apenas de um estilo, uma espécie de zona de conforto musical.

"As plataformas populares, mesmo com boas intenções, acabam por colocar grupos de pessoas em uma câmara a vácuo. Estes streams dão para as pessoas algumas opções de músicas que elas não saberiam que iriam gostar", definiu Ryan Celsius, dono do canal Celsius, no artigo da "Vice".

Hoje, o DJ gasta cerca de US$ 200 por mês para manter servidores em nuvens onde guarda as faixas que toca em sua estação. Sua renda vem da monetização do YouTube e cerca de US$ 1.500 que recebe do Patreon, plataforma onde seus seguidores contribuem com doações mensais.

"Para mim é menos uma questão de negócio, e sim algo pessoal".