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Sob vigia da PM, ato censurado no Rio acontece e atriz se apresenta vestida

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

14/01/2019 20h12

Em clima tenso e sob a vigia de pelo menos 20 policiais militares, o grupo És uma Maluca realizou parte de uma performance que deveria ter ocorrido no domingo (13) e que foi cancelada pelo governo estadual, que administra a Casa França-Brasil, sob alegação de "descumprimento de contrato". A encenação teria duas mulheres nuas com 6 mil baratas de plástico sobre suas virilhas. No ato desta segunda-feira apenas uma atriz, vestida, encenou a performance.

A encenação faz parte da obra "A Voz do Ralo É a Voz de Deus", crítica à tortura durante a Ditadura Militar, e fazia parte da programação da mostra "Literatura Exposta".

"Nosso corpo é maior do que a gente pensa", disse emocionada a atriz Juliana Warner, em discurso após o ato, que durou aproximadamente 30 minutos - ela ficou deitada e com as pernas abertas simulando que as baratas entravam em sua vagina.

A decisão de vestir a atriz na performance não foi explicada pelo grupo, que informou que se manifestaria mais tarde. 

Antes do início do ato, marcado para as 18h e que começou com meia hora de atraso, o clima ficou tenso por conta da presença dos PMs. Um dos policiais, que eram do 5 batalhão, informava que se o ato não tivesse autorização da prefeitura não iria acontecer. Eles tentariam impedir usando a "diplomacia", como informou o PM.

O público, de cerca de 200 pessoas, hostilizou os policiais com frases como "tortura nunca mais", "fascistas não passaram" e até gritos de "quem matou Marielle", em referência aos 10 meses da morte da vereadora, e "Cadê o Queiroz", lembrando do assessor da família Bolsonaro investigado pelo Ministério Público. 

Quando a performance começou, os gritos continuaram. Parte do público chegou a fazer uma corrente para impedir os policiais de atrapalharem os artistas, mas a PM não interferiu. Ao final do ato, o comandante do 5º batalhão, André Caetano, disse que a performance não teve "ato obsceno" e por isso ocorreu. Questionado se a determinação para impedir a encenação foi mudada, ele disse que a PM tem missão de garantir a ordem e segurança.

Censura 

Em dezembro a obra já havia sofrido censura. As baratas de plástico saem de um bueiro de onde saíam áudios com trechos de discursos do presidente Jair Bolsonaro, então deputado federal. Os áudios foram substituídos por uma receita de bolo, recurso utilizado por jornais que eram censurados durante a Ditadura.

Na performance desta segunda, os áudios originais com a voz do presidente voltaram. As frases são do discurso de Bolsonaro na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff onde ele exaltava o coronel Brilhante Ulstra, torturador da ex-presidente.

A obra foi inspirada no livro "Luta", que trouxe o depoimento da cineasta Lucia Murat à Comissão da Verdade onde ela relatou que na tortura sofrida seus algozes colocaram baratas sobre seu corpo e introduziram um dos insetos em sua vacina.

"Eu vim na inauguração quando já havia ocorrido a censura a essa obra. Vim hoje porque não pode haver censura. Não podemos deixar acontecer. Vem quem quer a uma exposição", disse a aposentada Odette Reis.

"Eu nem viria a essa exposição, essa performance. Vim porque foi proibida. É importante agora marcarmos posição. É um ato político. Estou aqui por isso", afirmou a servidora municipal Andrea Melo.

A Casa França-Brasil é administrada pelo Estado. Por meio de nota, no domingo, o secretário Ruan Lira afirmou que o encerramento antecipado da mostra ocorreu porque a programação do domingo não estaria incluída no contrato firmado.

"A decisão foi tomada devido ao descumprimento do contrato assinado entre as partes em 3 de julho de 2018 e que prevê o cancelamento unilateral em caso de descumprimento das obrigações estabelecidas. O referido contrato não inclui em seu objeto a programação informada para o último dia do evento. Também exige que as atividades sejam autorizadas pelo Iphan, com pedido feito com 45 dias de antecedência, o que não ocorreu - impedindo, portanto, a realização do programa agendado para este domingo", informou a nota.

Em sua conta no Twitter, Witzel comentou a antecipação do fechamento da mostra. "Temos que saber previamente o conteúdo a ser exibido em um local administrado pelo Governo, como está previsto em contrato", escreveu.

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