Topo

Reprovado por meio ponto na escola, Choice se tornou nome em ascensão no rap

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

10/01/2019 04h00

O plano de João Marcelo era o padrão de muitos jovens da periferia: estudar, prestar vestibular, arrumar um estágio e posteriormente um emprego. Tudo para ajudar a família. Até que foi reprovado na escola por causa de meio ponto. O baque de perder um ano o desmotivou e foi aí que o plano A virou plano B. Ajudou o pai como vendedor e virou flanelinha.

Mas até então mal sabia que o plano B viraria C. O motivo? O futuro lhe esperava como Choice, um dos rappers de maior ascensão nos últimos tempos no segmento.

Eu sou o favelado que vive pela favela / A escola me reprovou de série, mas a rua me aprovou pra ser representante dela

Quando a atende a ligação do UOL, Choice é incisivo, de fala firme e certeira. Aos 20 anos de idade, o rapper já participou de projetos que são referência no Brasil, como Favela Vive e Poesia Acústica. Agora, se prepara para lançar em 2019 "O Alpinista do Século 21", álbum de estúdio com 14 faixas.

Nesta entrevista, ele falou sobre seus primeiros passos no rap, o crescimento do gênero e como quer tomar os espaços na mídia.

UOL - Como foi seu começo no rap?

Choice - Eu sempre ouvi rock, tá ligado? É uma cultura diferente do que eu vi a minha vida inteira. Eu não percebia isso quando era mais novo. Só entendia como músico. Quando comecei a ter uma consciência social maior e mais politizada também, logo percebi que o rap era o que mostrava a minha vida inteira. Era o lugar onde podia representar minha favela de algum modo. Eu pensava em ser lutador, tá ligado? Só que quando comecei a fazer rap por meio das batalhas... eu tinha um sonho de pequeno disso. Era muito importante para mim. Eu passei por umas paradas na adolescência que dificultaram meu entendimento de condição racial. O rap me fez entender e visualizar isso de uma maneira muito mais clara. Eu sabia por que estava na favela e por que minhas condições eram diferentes das outras pessoas. Entendi isso a partir do rap. Comecei a fazer rap por volta de 2013.

O que você curtia ouvir antes do rap?

Curto rock até hoje. Pearl Jam, Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones, Metallica, Iron Maiden.

Seu jeito de rimar é bem agressivo.

Bem heavy metal.

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

Você vê alguma influência do rock no seu rap?

Eu não acredito em propriedade intelectual, mano. Acho que tudo vem de tudo e todo mundo tem que ser grato pelo que já ouviu e não pode ficar desmerecendo. Até hoje o rock influencia meu rap tanto na agressividade quanto na melodia. As letras não muito. As letras do rap merecem muito mais comigo do que do rock. Achava as letras do rock vazias, mas gostava muito da musicalidade. E é algo que consegui trazer pro rap na minha postura e imposição de voz.

E esse lance de que você queria ser lutador?

Eu sou instrutor de muay thai. Eu sou lutador, mas eu queria seguir carreira. Poderia até ser professor em alguma academia ou cair em algum evento grande. Nunca acostumei em limitar meus sonhos.

Você só trocou a luta pela batalha de rimas?

Exatamente. Pela minha condição de vida, queria fazer escola, passar pra faculdade e ter um bom emprego. Cresci na favela e era muito difícil ter oportunidade e fazer sucesso como eu faço hoje. Hoje vivo totalmente do rap. Eu tinha essa perspectiva, mas minha família não. Eu precisava contribuir dentro da minha casa.

E depois?

O que aconteceu é que uma professora me repetiu. Me reprovou por causa de meio ponto em uma matéria optativa. Eu não tive aula no quarto bimestre e não consegui chegar na nota que precisava. Ela me reprovou sem mais nem menos e passou outros alunos que precisavam de mais nota. E aquilo me atrapalhou muito na minha carreira acadêmica. 

Um ano perdido.

Mercado de trabalho é foda. Um cara que não repetiu teria muito mais facilidade que eu pra conseguir um emprego. Por exemplo, eu falo inglês. Desenvolvi essa parada com meu irmão e a gente nunca fez curso nem nada. E isso pesa demais no currículo. Mas mesmo assim eu ia ficar muito atrasado. E isso me desanimou totalmente. No ano seguinte eu já comecei o ano desanimado, parei pela metade. E aí no final do ano comecei a trabalhar com meu pai na rua vendendo umas paradas, cerveja, Coca-Cola e o caralho.

Que ano foi isso?

Foi em 2017 mesmo. Saí da escola em 2016.

Por causa de meio ponto você foi parar no rap?

Eu já estava querendo. Ela me reprovou e eu comecei a coçar. Na metade do ano parei de ir pra escola e comecei a fazer as correrias na rua. Trampei de flanelinha. Vendia umas paradas na rua. Fazia as correrias que dava pra levantar um dinheiro, mas nem de perto era suficiente pra suprir a necessidade da família. Enquanto isso eu frequentava as batalhas. Eu tinha que fazer sucesso. Não tinha outra alternativa.

Eu assisti a um vídeo no YouTube de uma batalha em que você aparece, mas não batalhando. Você está só assistindo. Como se aproximou desse mundo?

Comecei assistindo pelo YouTube, a Batalha do Tanque, que uma amiga tinha me recomendado. Também tinham amigos da minha sala que rimavam. Isso começou a me inspirar porque já gostava de poesia. Primeiro ficava só observando, mas eu fiquei treinando em casa sem parar no freestyle mesmo durante uns seis meses. A primeira roda que eu colei foi a Roda Cultural de Maria Paula e eu ganhei. Tenho até tatuado na mão. Primeira roda que eu colei fui campeão. Depois fui numa roda que rolava em São Gonçalo e depois fui pra Batalha do Tanque. Essa custou um bom tempo pra eu ganhar. Mas sempre tava lá, independente de vencer ou não. Em 2017, eu participei do Duelo Nacional de MCs, a maior batalha de MCs, e eu representei o Rio de Janeiro.

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

Em 2018 você participou do Favela Vive #3 que te deu grande exposição. Como é a comunidade do rap hoje? Rola uma irmandade?

Rola. E tem rolado muito mais, tá ligado? Coerência. Quem realmente faz parte da cena gosta de ajudar. Tá muito grande e tem que passar credibilidade. Tem que ajudar o mano que tá chegando agora a crescer. Tem que abraçar esse cara.

Pergunto isso porque muita gente só acha que sertanejo e funk conseguem chegar em públicos expressivos, mas quando você vê números do "Favela Vive" ou "Poesia Acústica", são enormes.

Quem fala isso é uma galera acostumada a produtos vendidos há muito tempo na indústria musical brasileira. São produtos. Artistas prontos. Rostinho bonito, uma bunda grande. Alguém escreve, outro monta a melodia e a pessoa só interpreta. É muito diferente no rap. Somos artistas independentes, não temos empresários, patrocinador, não temos facilidade para chegar na TV, nos jornais. É muito pouco ainda. Em programa de fofoca o cara fala de uma porra do tênis da Bruna Marquezine e poderia falar de qualquer excesso de um trapper aqui do Brasil. Isso vai acontecer porque o rap vai se consolidar mais. Infelizmente tudo gira em torno do dinheiro. Se você não tem dinheiro, não tem credibilidade. As mídias estão se vendo na obrigação de colaborar com o rap.

E o que você está planejando para 2019?

Cara, muito trabalho. Vou lançar agora um álbum de 14 faixas, meu primeiro de estúdio. O nome vai ser "O Alpinista do Século 21".

Já tem data?

Provavelmente vem esse mês, mas não tem nada certo. Participações boladas, tá ligado? Djonga, BK, Dk do ADL, Sandrão do RZO.

E como está o processo? Tudo gravado?

Está finalizando no processo de mixagem e masterização. Estamos fazendo as vozes da última faixa que é com BK e Dk. Deve vir pra pista no final desse mês ou no começo do ano. Não vou adiar muito, não. 

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

E qual é sua impressão do disco?

Mano, esse álbum vai ser muito importante pra mim. Estou há muito tempo pra lançar ele desde a época que tava na Pineapple e agora virei um artista independente. Comecei a produzir o álbum inteiro pagando tudo do meu bolso. Então demorou um pouco mais do que deveria.

Você falou sobre como é difícil chegar na grande mídia. Recentemente você apareceu no "Fantástico", da Globo, ao lado do Gabriel, O Pensador. Nas redes sociais muita gente curtiu, mas outros também te atacaram. Como você fica no meio disso?

Muito simples. Todo mundo tem medo do que é novo. Todo mundo quer ver o rap crescer, mas fica com medo de perder o estilo, que é o que mais acontece. Um rapper entrando num padrão, fazendo rap bobo sem falar da realidade. Tem batida de rap, mas o papo é pobre. Então a galera fica com medo de ver um cara que nem eu, que veio da favela, das batalhas, me tornar um vendido. Acho isso normal, mas enquanto for um de nós, um cara que representa, que não passa pano e que merece, tá ligado? É muito melhor do que uma Claudia Leitte mais uma vez, uma Ivete Sangalo mais uma vez. Repetindo essa galera que sempre repete.

Vejo o Brasil como um país muito brega ainda. Muito limitado. Tá feio. A indústria musical é feia, mano. Musiquinha clichê. O bagulho tá ultrapassado. Acabou essa porcaria até porque tá na era da internet. É questão apenas de tempo até a galera do rap entender que a gente tem que tomar os espaços da televisão, dos jornais, dar entrevista, mostrando música e sem perder nossa essência.

Mais Rap nacional