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"The Americans" terminou, em 2018, mais atual do que poderia imaginar

Matthew Rhys e Keri Russell nas cenas finais de "The Americans" - Divulgação/FX
Matthew Rhys e Keri Russell nas cenas finais de "The Americans" Imagem: Divulgação/FX

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

17/12/2018 04h00

ATENÇÃO: SPOILERS DE "THE AMERICANS" A SEGUIR

"Eu me sinto estranho", diz Philip Jennings (Matthew Rhys), em inglês. "Nós vamos nos acostumar", responde sua mulher, Elizabeth (Keri Russell), em russo. A câmera se levanta para revelar a vastidão de uma metrópole soviética que se expande à frente deles, e "The Americans" chega ao fim.

O final sóbrio, elegante e de quebrar o coração da série da FX, exibido em maio, se sustenta como um dos momentos indeléveis da TV em 2018. A fórmula mágica, neste caso, é misturar ressonância política inesperada com apelo emocional cuidadosamente construído com o passar dos anos e temporadas.

"The Americans" começou como um estoico drama familiar, que fazia paralelos entre a vida doméstica dos Jennings e o confronto ideológico de EUA e União Soviética, durante a Guerra Fria. Na trama, Philip e Elizabeth são espiões soviéticos posando como uma família americana média no coração do país inimigo.

A série ganhou força presciente nos anos após sua estreia, em 2013, quando a Rússia voltou a dominar as manchetes, seja com a anexação da Crimeia ou os rumores de que o presidente Vladimir Putin ajudou a eleger Donald Trump. De repente, uma série sobre agentes da KGB interferindo na política americana começou a parecer menos exercício histórico, e mais comentário político contemporâneo.

Parte da genialidade de "The Americans" foi ter-se aproveitado desta relevância, mas não deixado que ela subisse à cabeça. Seu foco sempre esteve em contar a mesma história simbólica: a de um grupo de personagens comprometidos com diferentes causas, que tinham em comum a angústia e a devastação que este comprometimento causou em suas vidas.

Por isso o foco íntimo na cena final da série, que mostra Philip e Elizabeth voltando à União Soviética após décadas vivendo nos EUA, onde construíram uma família e deixaram seus dois filhos, Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellatti).

No casal principal, no agente do FBI Stan Beeman (Noah Emmerich), e em vários coadjuvantes que passaram pela série durante as suas seis temporadas, "The Americans" mostra que, quando nos entregamos de corpo e alma, sem restrições, à defesa de uma ideia, pouco ou nada nos resta além dela -- e nem só de ideias vive o homem.

Crescendo e aprendendo

"The Americans" nunca foi uma série bombástica. Embora ela eventualmente irrompesse em violência chocante, os baques emocionais da série sempre foram entregues em forma de diálogo, ou na sutileza da expressão dos atores. Muito do que foi dito por "The Americans", foi dito nas entrelinhas.

Por exemplo: naquela cena final, Philip conta que o coronel que primeiro o recrutou para a KGB havia avisado que a vida de espião não seria fácil, e não era uma grande aventura em que ele deveria estar ansioso para embarcar. "Eu disse que não tinha medo disso", completa o personagem -- o espectador lê, nas entrelinhas, o arrependimento de Philip por sua coragem jovem e tola.

"The Americans" é também sobre crescer, e envelhecer. Na terceira temporada, Philip e Elizabeth revelam para a filha mais velha, Paige, a verdade sobre suas origens e suas atividades de espionagem nos EUA. Daí até a dilacerante última cena que os três dividem, embalada por "With or Without You", do U2, é possível desenhar uma linha clara de amadurecimento.

Em Paige, o espectador encontrou os elementos mais familiares que "The Americans" pode oferecer. A história dela, apesar das circunstâncias únicas, era a de uma jovem descobrindo a tragédia e o triunfo de seus pais como seres humanos, esbarrando em moralidades e sistemas de crença diferentes até conseguir fazer as pazes com o caos do mundo adulto.

"Às vezes, você não deseja poder voltar a ser só uma criança?", pergunta ela a um namoradinho no final da quarta temporada. A expressão deste sentimento identificável, de forma brutalmente honesta, não é do feitio de "The Americans" -- e serve para comunicar que Paige não é como os seus pais ou Stan, calejados pela dissimulação adulta. Isso muda, de forma inescapável, no episódio final.

Embora se passe lá pelos idos dos anos 1980, "The Americans" diz muito sobre o mundo cada vez mais complexo no qual, cada vez mais jovens, temos que mergulhar. A história que a série contou é política e íntima, e não tenta separar as duas coisas. Para muitos, essa junção pode ser desconfortável, mas não fugir dela pode ser a chave para que pesemos e entendamos melhor nossas escolhas.

Não houve mensagem mais urgente, ou série melhor, na TV em 2018.