"Mogli": As muitas versões da história do menino lobo no cinema
A Netflix estreia nesta sexta-feira (7) o filme "Mogli: Entre Dois Mundos", mais uma versão da clássica história do garoto humano que é criado por lobos e outros animais da selva após se separar dos pais quando bebê.
O longa usa a técnica de captura de performance, na qual o diretor Andy Serkis é considerado pioneiro e especialista. O processo transporta expressões e movimentos dos atores para personagens criados digitalmente.
Com este diferencial, "Mogli: Entre Dois Mundos" promete trazer uma versão mais expressiva de personagens já conhecidos do público, como o relaxado urso Balu (interpretado pelo próprio Serkis), a sábia pantera Baguera (Christian Bale) e o terrível tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch).
A origem
Mogli surgiu pela primeira vez na obra "O Livro da Selva", publicada por Rudyard Kipling em 1894. O volume, inspirado por histórias sobre a selva indiana que o britânico Kipling contava para seus filhos, é uma coleção de contos, nem todos estrelados por Mogli. O personagem, no entanto, foi o que mais ressoou com o público.
É fácil entender por que: no mundo selvagem, mas estruturado, de "O Livro da Selva", ele é um desajustado. Kipling inclui os ensinamentos da Lei da Selva em seus contos, uma abstração das hierarquias e regras através das quais a natureza opera -- Mogli, por ser homem e não bicho, é o único recompensado, e não punido, por quebrá-las.
Lido com olhos contemporâneos, "O Livro da Selva" é uma alegoria racial perigosa, é claro. O livro não só endorsa a dominação do homem sobre a natureza, como usa Mogli e os animais da selva (e a superioridade de um sobre o outro) como metáfora para a relação entre colonizadores e colonizados.
Mogli em carne e osso
No auge da Segunda Guerra Mundial, os irmãos cineastas Zoltan e Alexander Korda, escaparam da Hungria para Hollywood, onde encontraram na história de Mogli a válvula de escape perfeita.
Com produção de Alexander e direção de Zoltan, "Mogli: O Menino Lobo" (1942) trazia o jovem ator indiano Sabu na pele do personagem-título, transformando-o em um astro improvável para a Hollywood clássica, completamente dominada por rostos brancos.
Filmado inteiramente na Califórnia, ao invés de na Índia, o filme usava animais reais para representar Balu, Baguera e cia. Graças às dificuldades de produção que isso acarretava, a história foi alterada para dar mais destaque aos personagens humanos.
O resultado é um suntuoso épico sobre a ganância humana, A moralidade de Kipling se inverte: a humanidade, que quebra as regras da natureza, se torna a vilã da história -- como era de se esperar do filme criado por dois refugiados da Segunda Guerra, o colonizador ou invasor não é retratado sob uma boa luz.
A "Disneyficação"
Desde que "colocou as garras" na história de "Mogli", nos anos 60, a Disney produziu nada menos que cinco longas-metragens inspirados nela. O primeiro, é claro, foi a animação de 1967, o último filme diretamente supervisionado por Walt Disney -- o lendário fundador da companhia morreu antes do longa ser concluído e lançado.
Nas mãos da Disney, "Mogli, o Menino Lobo" se transformou em uma aventura aprovada para todas as idades, sem nem sombra do aspecto sombrio e selvagem do original de Kipling, ou da sua espinhosa mensagem política. Ao invés disso, o que vemos é uma doce história sobre família e pertencimento, temperada por canções inesquecíveis.
"Mogli" foi, também, um gigantesco sucesso. O filme arrecadou mais de US$ 205 milhões nas bilheterias ao redor do mundo -- ajustando-se pela inflação, o valor equivale a US$ 1,5 bilhão. Frente ao êxito comercial, é fácil perceber porque esta versão da história é a mais conhecida hoje em dia.
A Disney, é claro, só fez alimentar o fenômeno. Em 1994, produziram uma segunda versão com atores e animais de carne e osso, intitulada "O Livro da Selva".
Com um Mogli já adulto, interpretado por Jason Scott Lee (na época um grande astro, graças ao sucesso de "Dragão: A História de Bruce Lee"), o longa tinha cenas mais violentas e trazia de volta a noção de que a selva de Kipling era um lugar perigoso. Elogiado pela crítica, ele ganhou continuação direto para vídeo em 1998.
Já em 2003, apostando na nostalgia, a Disney produziu uma continuação direta do clássico de 1967. Ao contrário de outras sequências de desenhos animados do estúdio, "Mogli, o Menino Lobo 2" foi parar nos cinemas, e não no mercado de home vídeo.
Produzido quase quarenta anos depois, o filme desconsidera o lapso temporal e continua as aventuras de Mogli de onde paramos, quando ele deixou a selva para voltar a viver com os homens. Em meio à nova trama, ele reencontra Balu e cia, permitindo que o filme volte a analisar o tema da paternidade.
O melhor de dois mundos
Na última década, a Disney redescobriu a potência dos seus clássicos animados ao produzir refilmagens em live-action (ou baseadas em CGI). Em 2016, foi a vez de "Mogli: O Menino Lobo" ganhar as telas mais uma vez, com um visual estonteante concebido pelo diretor Jon Favreau ("Homem de Ferro").
No filme, o único ator de carne e osso é Neel Sethi, intérprete de Mogli. Os personagens animais são criados por efeitos digitais, e ganham dubladores marcantes, que refrescam as suas personalidades na memória do espectador: Balu tem a voz de Bill Murray, enquanto Ben Kingsley vive Baguera, e Scarlett Johansson é Kaa.
O "Mogli: O Menino Lobo" de 2016 é esperto o bastante para emprestar elementos que funcionam tanto na animação de 1967 quanto no clássico literário de Kipling. A história, aqui, volta a ser sobre as diferenças fundamentais entre humanos e animais -- mas, ao invés da dominação de um sobre o outro, o filme advoga união e trabalho em equipe.
No novo "Mogli: Entre Dois Mundos", Andy Serkis e seus colaboradores buscam seguir mais de perto o tom da obra original. Resta esperar para ver quais lados desta lenda, que tem fascinado o público há mais de 120 anos, a versão vai abraçar.
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