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João Cláudio, o padre fã de Star Wars e faixa roxa de jiu-jitsu que atrai milhares para missa

Rodrigo Campanário/Divulgação
Missas do Padre João Claudio estão atraindo milhares de pessoas em Niterói Imagem: Rodrigo Campanário/Divulgação

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

05/12/2018 04h00

Ele é fã de "Star Wars" e de histórias em quadrinhos, faixa roxa de jiu-jitsu, botafoguense, passista da Viradouro, apreciador de charutos, dono de mais de 20 tatuagens (uma delas do Wolverine e outra do Superman), além de estudioso de exorcismo. Com esse perfil, muita gente não imagina que João Cláudio Loureiro do Nascimento, 44, é um padre que reúne mais de 4.000 pessoas nas missas que celebra em homenagem a São Miguel Arcanjo na pequena igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Bairro de Fátima, em Niterói (RJ).

 

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Padre João Cláudio é lutador de jiu-jitsu e devoto de São Miguel Imagem: Rodrigo Campanário/Divulgação
A história incomum desse padre despertou o interesse do jornalista carioca Leonardo Bruno, que lançou neste mês a biografia "Uma Vida de Luta - A Incrível História do Padre que Resgatou a Devoção a São Miguel" (R$ 39,39. Ed. Máquina de Livros).

No livro, ele conta que boa parte da personalidade peculiar do padre desabrochou em 2016 após ele ter recebido um falso diagnóstico de câncer terminal. "Achei que morreria em menos de cinco meses. Viajei para o Vaticano para conhecer o Papa Francisco e também fiz várias tatuagens. Depois, descobri que o exame estava errado e minha saúde era excelente. O susto fez com que eu enxergasse o mundo de outra forma", contou o padre ao UOL.

O padre é pop

As missas do padre atraem até pessoas de outras religiões, mas o sucesso não o isenta de críticas e preconceitos de fiéis. "Entre os padres, não há críticas por causa das minhas tatuagens. Sou estudioso do Evangelho e não há nada que proíba tatuagens. O problema está entre os leigos. Já sofri bullying de fiéis dizendo que eu sou maluco, que eu sou bêbado, mas meu bispo foi muito maneiro comigo e sempre me apoiou".

As tatuagens ajudam também a entender os interesses do padre. Ele tem o braço esquerdo inteiro fechado com uma imagem de São Miguel Arcanjo. Espalhadas pelo corpo, ainda há um desenho do Wolverine, porque "assim como eu, o personagem já tomou muito 'tiro, porrada e bomba', e se regenerou".

Divulgação
Capa de "Uma Vida de Luta" sobre o padre João Cláudio Imagem: Divulgação
Do Superman, ele tem tatuada a frase dita por Jor-El ao filho Kal-El: "Você será diferente. Algumas vezes se sentirá como um excluído, mas nunca estará sozinho. Fará de minha força, a sua. Verá a minha vida através de seus olhos, assim como a sua vida será vista através dos meus. O filho se torna o pai e o pai se torna o filho". "Essa frase poderia estar na Bíblia", disse o padre. "Mas eu a tatuei porque ela tem muito a ver comigo e com meu pai", contou.

A paixão por "Star Wars" também é grande. Quando novos filmes são lançados, ele se veste com as roupas de Luke Skywalker e vai para a fila dos cinemas fazendo cosplay com outros padres também fãs da saga. "Na minha biografia tem um capítulo sobre exorcismo e a foto que usamos para ilustrar me mostra vestido com a roupa de Jedi", se diverte o padre.

O jiu-jitsu entrou na vida do religioso ainda na infância. O pai, que era PM e faixa preta, morreu em serviço. Atrás da igreja, onde mora com a mãe, ele mantém um tatame onde treina com um professor particular. Em campeonatos, João não conta para os adversários que é padre porque quer ser tratado de igual para igual. "Mas eu só posso competir no sábado, porque domingo tem missa", disse. "Teve um campeonato que eu só não fiquei em primeiro lugar porque eu estava cansado, tinha celebrado duas missas e batizado quatro crianças".

Sobre o Carnaval, padre João não vê pecado em desfilar nem cantar sambas de enredo com analogias as religiões africanas. "A Viradouro chegou na minha vida por causa de São Miguel", lembra. "Me chamaram para benzer a escola. Hoje, eu fico na esquina da Marquês de Sapucaí abençoando todas as alas. Depois, eu desfilo junto com o ala da velha guarda".

Mas a grande felicidade da vida do padre João foi o encontro que teve com o papa Francisco no Vaticano. "Eu achava que iria morrer [depois do diagnóstico]. Consegui chegar perto do Papa e disse em português que ele tinha salvado a minha fé. Ele me respondeu, também em português: 'Obrigado, eu precisava ouvir isso hoje. Reze por mim'. Aí eu chorei e ficamos abraçados por um longo tempo até alguém nos separar. Foi inesquecível".

Rodrigo Campanário/Divulgação
Padre João Claudio é lutador de jiu-jitsu Imagem: Rodrigo Campanário/Divulgação

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