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"Pedro de Lara lá-lálálálálálá": A história da música do Show de Calouros

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

04/12/2018 04h00

"Pedro de Lara lá-lálálálálálá-lálálálá-lálálálálá..."

Quem nunca cantou junto "Aqueles Tempos", tema de abertura do quadro Show de Calouros, que atire o primeiro aviãozinho de dinheiro. Mas não se acanhe: a marchinha em que Silvio Santos apresentava jurados e a si mesmo em seu programa nas décadas de 1980 e 1990 é uma das trilhas mais icônicas da TV brasileira, sinônimo de animação e da era de ouro dos programas de auditório. Mas a história desse hit é muito mais antiga que a do dono do Baú da Felicidade.

A melodia chiclete que eternizou Pedro de Lara, Aracy de Almeida, Sergio Malandro, Sonia Lima, entre tantos outros, foi criada há quase um século na extinta União Soviética, voltando ao sucesso no final dos anos 1960, repaginada, com a britânica Mary Hopkin. Sucesso nos Estados Unidos e Europa, a música ganhou versão brasileira na voz de Joelma (mas não é a do Calypso), que ganhou rotatividade nas rádios brasileiras e, anos depois, serviu de inspiração para o Silvio.

Reprodução
O compositor russo Boris Fomin Imagem: Reprodução

Origem

A versão original de "Aqueles Tempos" leva o nome de "Dorogoj Dlinnoju" (traduzida como "Pela Longa Estrada"). Com inspirações folclóricas, foi composta no início dos anos 1920 pelo russo Boris Fomin (1900-1948), com letra escrita pelo poeta Konstantin Podrevsky (1888-1930) abordando o idealismo romântico da juventude.

A faixa fez sucesso na então recém-criada União Soviética, cuja sociedade ainda vivia os ecos da Revolução Russa. A partir de 1929, ela acabou banida do país, assim como outros sucessos de Fomin, por ser considerada antirrevolucionária. Músicas folclóricas e/ou de influência cigana não eram muito bem vistas pelas autoridades, que queriam romper com todos os valores do czarismo.

Primeiras versões

As primeiras gravações de "Dorogoj Dlinnoju" conhecidas foram registradas em 1925, pela cantora georgiana Tamara Tsereteli (1900-1968), e em 1926, pelo cantor e ator Alexander Vertinsky (1889-1957), que está disponível na internet.

A história de Vertinsky é curiosa. Assim como outros artistas russos, ele serviu o Exército durante a Primeira Guerra Mundial e, em 1920, deixou a Rússia fugindo do novo governo. Apresentou-se em vários países da Europa até fixar-se em Paris, onde cantou por anos em cabarés. Somente em 1943, o governou soviético permitiu seu retorno ao país.

Ressurgimento

Após décadas de ostracismo, "Dorogoj Dlinnoju" foi redescoberta nos anos 1960, em plena Guerra Fria, pela cena folk de Nova York. Mais precisamente pelo músico e autor Gene Raskin, que adaptou a música para o inglês com a mulher Francesca.

Ilegalmente, Raskin registrou a faixa como sua, dando o nome de "Those Were the Days" e a apresentando ao vivo em shows. Em 1962, a música foi gravada em estúdio pelo grupo The Limeliters, lançada no álbum "Folk Matinee". Mas o grande sucesso ainda estava por vir.

Hit produzido por Paul McCartney

No fim dos anos 1960, a melodia forte e marcada de "Those Were the Days" acabou parando nos ouvidos de Paul McCartney, que era frequentador do club londrino Blue Angel, onde os Raskins chegaram a se apresentar. Encantado com a sonoridade, ele adquiriu os direitos da música e, por meio do selo Apple Records, a ofereceu à novata Mary Hopkin.

Com arranjos de Richard Hewson (de "I Me Mine" e "The Long and Winding Road", dos Beatles) e violão tocado por McCartney, a música estourou no mundo, chegando ao primeiro lugar das mais tocadas na Inglaterra e ao segundo nos Estados Unidos. O sucesso foi tão grande que a música foi regravada em cinco outros idiomas.

Sucesso no Brasil com Joelma

"Those Were the Days" ganhou repercussão no Brasil com a versão em português da cantora Joelma Giro, adaptada pelo compositor Fred Jorge (1928-1994), famoso por trazer ao Brasil grandes sucessos do pop/rock internacional, incluindo "Estúpido Cupido" (Celly Campello), "Diana" (Carlos Gonzaga) e "Não Adianta Nada" (Roberto Carlos).

Orquestrada e mantendo sotaque russo com sua introdução de balalaika, "Aqueles Tempos" é um dos grandes sucessos de Joelma. Foi lançada em compacto simples em dezembro de 1968, meses depois da versão de Mary Hopkins, e no LP "Casatschok", editado em maio de 1969.

Silvio veio aí

O quadro Show de Calouros estreou em 1977 na antiga TVS, passou pela TV Tupi e permaneceu no ar no SBT até 1996. Você se lembra de algum candidato nas duas décadas de atração? Provavelmente não. Mas a música de abertura fatalmente está guardada em algum canto da sua memória. Inspirada na versão de Joelma, "Aqueles Tempos" com Silvio deu fôlego à música e ainda hoje é lembrada como um dos grandes marcos da nossa televisão.

A ideia da produção do programa era criar um tema que fosse ao mesmo tempo animado e que grudasse na cabeça do público. Foi adaptada em versão marchinha pelo maestro Zezinho (1931-2010) usando apenas o nome dos jurados na letra e passou a ser cantada em todas as edições do quadro a partir dos anos 1980. Antes, a introdução rolava ao som de "Cosa Nostra", de Jorge Ben Jor.

Outras versões

Desde que foi redescoberta pelo universo pop em 1968, "Dorogoj Dlinnoju" ganhou covers em vários estilos e idiomas, do country ao ska, passando pelo indie e heavy metal. Theodore Bikel, Sandie Shaw, Bing Crosby, Wanda Jackson, Leningrad Cowboys, Cynthia Lennon e Shaggy já perpetuaram o legado pop da música. Na Rússia, após ser renegada por décadas, acabou virando uma espécie de hino extra-oficial, sendo executada por bandas de rua e por orquestras, incluindo a Alexandrov Ensemble, coro oficial das Forças Armadas da Rússia. Acompanhe abaixo.