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Ben Mendelsohn, vilão de "Robin Hood", o novo malvado favorito de Hollywood

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Ben Mendelsohn como o Xerife de Nottingham em "Robin Hood: A Origem" Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

03/12/2018 04h00

O Xerife de Nottingham é um dos vilões mais infames da ficção. Sua perseguição ao rebelde Robin Hood rendeu brilhantes performances de vários atores, mas foi Alan Rickman quem eternizou o personagem em "Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões" (1991), com Kevin Costner no papel principal.

Cheio de melodrama e sarcasmo, o Nottingham de Rickman foi o elemento mais elogiado do filme, cujo clima de "Sessão da Tarde" não agradou à crítica. A sina se repete com "Robin Hood: A Origem", que chegou nos cinemas nesta quinta-feira (29).

Nele, o australiano Ben Mendelsohn assume o manto de Nottingham. O respeito do ator pela versão de Rickman é óbvio: ele empresta do colega o espírito venenoso do personagem, mas ao mesmo tempo o faz mais crível, humano, e moderno.

"Robin Hood" está longe de ser a primeira vez que Mendelsohn encarna um vilão nestes moldes em um blockbuster de Hollywood. De fato, o cinema comercial americano se mostrou, nos últimos anos, perdidamente apaixonado pelos antagonistas ao mesmo tempo perigosos e patéticos do ator.

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Imagem: Reprodução/Youtube

De "Star Wars" a Spielberg

Apesar de ser figura carimbada do cinema australiano desde os anos 1980, Mendelsohn só emergiu no cenário internacional em 2010, quando participou do filme "Reino Animal", de David Michôd.

Produzido na Austrália, o filme sobre uma família criminosa trazia Mendelsohn como o herdeiro mais desequilibrado da chefona interpretada por Jacki Weaver. Embora sinistro e perturbado, o personagem era também subserviente à mãe, um vilão que respondia a uma autoridade maior que ele.

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Nolan Sorrento, personagem de Ben Mendelsohn em "Jogador Nº 1" Imagem: Divulgação

O sucesso do filme deu a deixa para Hollywood usá-lo de forma parecida em outros filmes. Em "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" (2011), interpretou o escorregadio John Daggett, que financia as vilanias de Bane (Tom Hardy) a fim de tomar conta da Wayne Enterprises.

Daí, surgiram os papéis em "Rogue One: Uma História Star Wars" e "Jogador Nº 1". No primeiro, interpretou o Diretor Orson Krennic, oficial cruel do Império que atormenta a vida de Jyn Erso (Felicity Jones) e dos rebeldes. Em cena memorável, Krennic é "colocado no seu lugar" por ninguém menos que Darth Vader.

Já na aventura de Steven Spielberg, Mendelsohn foi a encarnação da ganância capitalista como Nolan Sorrento, chefe da empresa que tenta conquistar o mundo virtual do Oasis antes do herói interpretado por Tye Sheridan. Mesmo temível, Sorrento também respondia a muitos "chefes", dos patrocinadores aos acionistas da empresa.

A outra face

A gênese desses vilões "gente como a gente" de Mendelsohn está no outro lado do seu talento. A filmografia do ator, antes e depois do sucesso internacional, está cheia de pérolas em que ele interpreta caras comuns, emocionalmente travados ou presos em uma vida desagradável.

Dois filmes encapsulam bem esta face do ator. Em "Febre do Mississippi", ele é um cara viciado em jogo, mas sem sorte, que improvavelmente se torna o "amuleto" do carismático Curtis (Ryan Reynolds), e parte com ele para uma turnê dos cassinos decadentes do estado americano do Mississippi.

Já em "Gente de Bem", o personagem de classe média de Mendelsohn deixa a mulher e se muda da vizinhança confortável onde morou por anos, tudo a fim de renovar a sua "vontade de viver". É quando conhece um adolescente viciado em drogas (Charlie Tahan), que o apresenta a um novo mundo de excessos.

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O vilão Talos (Ben Mendelsohn) em "Capitã Marvel" Imagem: Divulgação

São dois ótimos dramas intimistas, ambos disponíveis na Netflix, que iluminam um pouco a construção dos papéis mais populares do ator. No ano que vem, ele vai aparecer embaixo de maquiagem pesada como Talos, o líder dos Skrull em "Capitã Marvel" -- é um novo desafio, o de humanizar um vilão alienígena.

Mendelsohn claramente se diverte com seus vilões, que nunca deixam de ser odiáveis, mas o estilo realista deles reflete um momento em que Hollywood tenta mudar radicalmente o foco do maniqueísmo barato das décadas de 1980, 1990 e 2000.

Subitamente, os antagonistas do cinema comercial não são mais agentes do caos (como o Coringa) ou estrangeiros misteriosos (russos, alemães, etc), mas sim impiedosos burocratas preocupados com nada além de subir na hierarquia de poder e dinheiro. Ninguém melhor do que Mendelsohn para interpretá-los.