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O novo "Robin Hood" é ruim, mas ainda vale a pena ver no cinema

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Taron Egerton e Jamie Foxx em cena de "Robin Hood" Imagem: Reprodução

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

29/11/2018 04h00

É engraçado como alguns filmes despertam tanta indignação a ponto de serem divertidos. É o caso de "Robin Hood: A Origem", que estreia nesta quinta-feira (29) nos cinemas em uma versão repaginada do herói que roubava dos ricos para dar aos pobres. A produção estrelada por Taron Egerton ("Kingsman") tem diálogos sofríveis, efeitos visuais da década passada, momentos bregas e, por incrível que pareça, acaba sendo uma experiência válida no cinema.

Na trama, o nobre protagonista se apaixona por uma ladra chamada Marian (Eve Hewson). Após um período de amor, ele é convocado pelo xerife de Nottingham (Ben Mendelsohn) a lutar na guerra contra os mouros. Dado como morto, ele retorna como herói após ser libertado pelo exército. No entanto, com o passar do tempo, sua amada está namorado o líder popular Will Scarlet (Jamie Dornan). Robin percebe que foi enganado pelo xerife, e encontra em Little John (Jamie Foxx) um aliado para derrubar o poderoso líder da região.

A história é simplória, mas funciona muito bem, ainda mais que "Robin Hood" não deixa especificada a data em que se passa. Sem se prender em nenhuma época, o diretor Otto Bathurst se permitiu bolar um herói atemporal que usa um tipo de colete à prova de balas e que mistura tecnologia mais moderna com corridas de cavalos. As cenas de ação são o ponto forte do filme, com as flechas voando pela tela e empolgando o espectador. Porém, a produção tropeça em momentos risíveis que transformam "Robin Hood" em uma comédia atrapalhada.

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Jamie Dornan em cena de "Robin Hood" Imagem: Reprodução

O protagonista, às vezes um tanto parecido com Oliver Queen da série "Arrow", é tão rápido que desafia os limites da física, atirando suas flechas como se fosse uma arma automática. Outro momento impressionante é a agilidade das carruagens, que se movem como se "Velozes e Furiosos" pudesse ganhar um derivado na Idade Média.

Ben Chandler e David James Kelly, os roteiristas estreantes, conseguiram transformar "Robin Hood" em um filme mais divertido do que de aventura. É um beijo apaixonado após o herói levar uma flechada no coração e um trocadilho que flerta com uma piada infame. Uma reunião de ideias que parecem brilhantes mas que são obviedades com uma dramaticidade rasa suficiente para abrir um sorriso tímido do público.

Em uma das melhores/piores cenas do filme, a população e a guarda do xerife estão lutando freneticamente. Entre "black blocs medievais" (sim, isso é possível em Hollywood), eis que surge o protagonista em um diálogo clichê para unir todos. A trilha épica engloba o momento e, novamente driblando a física, ele não é atingido por nenhuma flecha e sai ileso do combate que seria certamente letal.

Outro ponto fantástico do filme é que Robin Hood aparece disfarçado com apenas um capuz e um pedaço de pano cobrindo parte do rosto. Até um trecho em que a máscara cai e ele surge tranquilamente entre as pessoas, como se nada tivesse acontecido. Então, o personagem principal lembra que sua identidade está em risco e se esconde. Ninguém levanta uma única sobrancelha para o deslize.

Mesmo sendo divulgado como um filme de ação, "Robin Hood" torna-se engraçado pela sequência de erros. É impossível ver algumas cenas dramáticas e não soltar um riso irônico e pensar, "Como que isso aconteceu?", e até mesmo estranhar os efeitos visuais da produção, orçada em US$ 100 milhões, mesmo valor que custou "Os Mercenários" (2014), por exemplo. A impressão que passa é que o chroma key (aquele fundo verde usado para projetar imagens) parou no tempo.

"Velozes e Furiosos" ficou conhecido pelas cenas nonsense, mas trilhou um caminho muito longo para criar uma legião de fãs que esperam justamente carros voando e frases de auto ajuda. "Robin Hood" não tem essa propriedade, e apresenta um enredo pobre com personagens sem carisma para transformar-se em um filme que falta personalidade.

Ainda assim, "Robin Hood" é certeiro para quem vai no cinema apenas pensando em se divertir. Os muitos erros deixam o filme com uma carga cômica que paga o preço do ingresso, mesmo quebrando a expectativa de quem quer ver um bom filme de ação. Pegando como exemplo outro título recente, "Venom" é uma produção ultrapassada de super-herói (ou de anti-herói, como queira), mas é inegável que dá para se divertir no cinema gostando do filme ou não. Só não espere a precisão histórica e o realismo de um projeto de época como a lenda de Robin Hood sugere.