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Retiro na Índia e sumiço de Ringo: As polêmicas do "Álbum Branco" dos Beatles

Don McCullin/EFE
Imagem: Don McCullin/EFE

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

22/11/2018 04h00

Independentemente de qual fase seja mais marcante para cada fã dos Beatles, um álbum tem importância fundamental na discografia, seja por seu momento definitivo na carreira da banda, seja por seu valor como uma obra experimental e ousada para a sua época. Este disco é "White Album", ou o "Álbum Branco", que nesta quinta-feira (22) completa 50 anos de seu lançamento.

O dia 22 de novembro de 1968 marcou não só a chegada do disco duplo às lojas, mas um ciclo cheio de polêmicas e curiosidades por trás da composição e da gravação do disco. Houve a viagem para a Índia, em fevereiro de 1968, que abriu ainda mais os leques do grupo, liderado na aventura pelas experiências de George Harrison; um início do processo de composição e gravação menos coletivo, em vez das parcerias de outros momentos; e até a saída momentânea de Ringo Starr, baterista da banda.

Depois do álbum branco, a banda só lançou a trilha de "Yellow Submarine" (1969), e mais dois trabalhos: "Abbey Road" (1969) e "Let It Be" (1970).

O "Álbum Branco" dos Beatles tem o título The Beatles e tinha o número de série grafado na capa - Junior Lago/UOL
O "Álbum Branco" dos Beatles tem o título The Beatles e tinha o número de série grafado na capa
Imagem: Junior Lago/UOL

"Álbum Branco"?

O disco ganhou o apelido de "White Album" por motivos óbvios, já que sua capa é predominantemente branca e leva o nome da banda em um tom bem claro. Mas, na verdade, seu título é apenas "The Beatles". Apesar da separação dos integrantes durante a composição, o trabalho rendeu 30 canções, com 93 minutos de duração e o lançamento como disco duplo, ainda que houvesse mais faixas que pudessem ser incluídas.

Paul McCartney explicou que, na criação de um pôster com uma colagem de fotos dos integrantes da banda, o artista começou a colocar espaços em branco para dar respiros à imagem. E eles então perceberam que a capa poderia ser apenas esse espaço em branco, o que também era um contraste com a capa de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967) e com a complexidade musical do "White Album".

A viagem à Índia

Um dos acontecimentos que marcou a banda entre o lançamento de "Sgt. Pepper's" e o "Álbum Branco" foi a viagem dos quatro integrantes dos Beatles à Índia. Liderados por George Harrison, em plena expansão espiritual, eles aceitaram a experiência de visitar Rishikesh e aprender a meditação transcendental. A visita não teve toda essa paz. McCartney e Starr deixaram a Índia cedo, e Harrison e Lennon também não ficaram todo o tempo previsto, já que o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi foi acusado de assédio, inclusive contra a atriz Mia Farrow. Apesar disso, a viagem rendeu uma boa fase de composição para o grupo e resultou em um dos discos mais criativos deles.

George Harrison na Índia em 1968 - AP
George Harrison na Índia em 1968
Imagem: AP

The Fab 4: Menos conectados

O "Álbum Branco" é citado frequentemente como o que iniciou o fim dos Beatles. Até os métodos de composição e gravação mudaram. Das 30 faixas do disco, por exemplo, só 16 tiveram todos os quatro integrantes envolvidos dentro da sala de gravação. Eles tiveram uma agenda mais ampla no Abbey Road Studios, o que fez com o processo fosse mais aberto a gravações de overdubs, aprimorações e experimentações.

Lennon e McCartney seguiam à frente do processo, e algo diferente aconteceu com a presença da nova namorada de Lennon, Yoko Ono, em estúdio, o que levou a outras namoradas e mulheres dos Beatles aparecendo por lá também. Yoko participou cantando em "The Continuing Story of Bungalow Bill".

Ringo Starr, no fundo com sua bateria, achava que era deixado para trás, mas saiu com sua primeira composição completa para os Beatles - AP
Ringo Starr, no fundo com sua bateria, achava que era deixado para trás, mas saiu com sua primeira composição completa para os Beatles
Imagem: AP

Cadê o Ringo?

Em agosto de 1968, enquanto os Beatles estavam no Abbey Road Studios gravando "Back in the U.S.S.R.", Ringo Starr deixou o estúdio de repente. Segundo o baterista, seu papel no grupo era muito periférico e McCartney não parava de criticá-lo por seu jeito de tocar naquela faixa. Isso fez com que os outros integrantes tocassem bateria nesta música e McCartney assumisse as baquetas em "Dear Prudence".

O climão durou cerca de duas semanas, Lennon, McCartney e Harrison acabaram pedindo pela volta e receberam Starr com flores em seu kit de bateria. "A tensão durante a gravação era enorme, estávamos a ponto de nos separar", admitiu McCartney. O caso também ajudou a criar a primeira canção escrita só por Starr para os Beatles, que saiu no "Álbum Branco": "Don't Pass Me By", que é cantada pelo baterista.

E o produtor?

George Martin foi outro que não suportou em todos os momentos a tensão e a fase mais irregular dos Beatles. Ele, que já via sua influência minguando e foi voto vencido ao tentar reduzir o álbum duplo para um trabalho único, resolveu descansar em um feriado e deixou o trabalho para Chris Thomas, voltando mais tarde para sua função. Já o engenheiro de som Geoff Emerick não gostou nada de uma resposta atravessada de McCartney para Martin na gravação ("Quer melhores vocais? Venha aqui cantar") e pediu as contas em definitivo.

O primeiro metal

Os Beatles são uma banda de rock, mas nunca soaram tão pesados quanto em "Helter Skelter". As guitarras mais sujas, a agressividade e os vocais mais intensos fizeram a canção ser chamada de "o primeiro heavy metal da história", antes mesmo que o termo fosse criado. A faixa tem McCartney no vocal e tocando guitarra. Ele diz que foi inspirado por uma entrevista de Pete Townshend, do The Who, em que "I Can See For Miles" era descrita como a música mais suja e pesada que a banda tinha criado. "É uma canção ridícula, porque eu gosto de barulho", disse McCartney, sobre "Helter Skelter".

As "revoluções"

"Revolution", que saiu no single "Hey Jude" e foi hit nas rádios, ganhou uma versão mais lenta, intitulada "Revolution 1", neste álbum. Mas uma canção bem mais ousada, "Revolution 9", foi motivo de desgaste. A música, penúltima do álbum, tem 9 minutos de colagens de sons feitas por Lennon, Harrison e Yoko Ono, com efeitos, frases e barulhos. O resultado é estranho, um tanto perturbador. McCartney chegou a tentar dissuadir Lennon de incluí-la no álbum, mas foi voto vencido. A iniciativa foi inspirada pelo compositor alemão Karlheinz Stockhausen, que já fazia composições experimentais, e foi fundamental para cenas posteriores, inclusive a eletrônica.

No meio do caminho, uma "Hey Jude"

O grupo precisava de um primeiro single para sua própria gravadora, a Apple Records, e foi "Hey Jude" a escolhida. A canção foi apenas neste formato, e nunca foi incluída em álbuns, apenas em coletâneas. Além disso, muito material que sobrou das sessões foi usado nos álbuns posteriores ou até nos trabalhos solos que vieram depois.

Os 50 anos de "The Beatles" é celebrado com uma edição especial do disco, que foi lançada no começo de novembro. Além do álbum duplo com uma nova mixagem, o lançamento é composto por sete discos (6 CDs e um Blu ray/DVD), inclui 27 demos, 50 takes descartados e um livro de 164 páginas para se submergir no universo do "Álbum Branco".

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado inicialmente, a música que virou hit dos Beatles foi "Revolution", do single "Hey Jude", e não "Revolution 1", uma versão diferente incluída no álbum branco. O conteúdo foi corrigido.

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