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Como fazer sucesso cantando no YouTube? Mari Nolasco e Ana Gabriela dão dicas

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Mari Nolasco, que tem 4 milhões de inscritos em seu canal Imagem: Reprodução

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

06/11/2018 04h00

Em 20 de junho de 2012, Shawn Mendes postou um vídeo em seu canal no YouTube: um cover de "Hometown Glory", de Adele. Na sequência vieram versões de Rihanna, Ed Sheeran e outros artistas pop. Seis anos depois, aquele adolescente com pinta de desajeitado se tornou um fenômeno que lota arenas ao redor do mundo.

A história do canadense é uma que tem se repetido frequentemente no meio musical e que quebrou uma sequência antiga da música. O velho conto dos artistas que montam bandas e dão seus primeiros passos em suas carreiras em minúsculos palcos de bares mudou. Violão, voz e uma câmera hoje são suficientes para quem quer dar os primeiros passos em uma empreitada musical. E o palco é o YouTube.

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Ana Gabriela: fiel ao celular e vídeos com formato simples Imagem: Reprodução

Aqui no Brasil não é diferente. Os caça-talentos há tempos já estão de olho em fenômenos musicais que surgem primeiro na forma de vídeos. A mesma timidez que transparecia nos primeiros vídeos de Shawn Mendes também podia ser notada nos primeiros posts de Mari Nolasco, em 2011, hoje uma das cantoras mais buscadas no YouTube. "Só compartilhei meu primeiro vídeo porque umas amigas deram a ideia e acabaram me convencendo. Nunca imaginei que futuramente eu poderia realmente seguir uma carreira como cantora", disse ela ao UOL, por e-mail.

Aos 13 anos, seus vídeos eram escuros e captados com a webcam do computador. "Fui pega de surpresa quando um vídeo alcançou 1 milhão de visualizações da noite pro dia. A partir daí as pessoas começaram a se inscrever no canal, a me acompanhar nas outras redes sociais e então eu comecei a me dedicar mais aos vídeos". A dedicação se reflete em números. Em seu canal principal, são 4 milhões de inscritos e um total de 357 milhões de visualizações.

A surpresa também veio para Ana Gabriela, mais uma cantora tímida que aprendeu a compartilhar sua música por meio das redes. Desta vez, com o celular. Os primeiros posts, em 2016, eram covers de Um44K, Maiara & Maraisa, Ana Vilela e Matheus & Kauan. Até hoje, a cantora mantém o formato de suas gravações da maneira mais simples possível nos covers, mas com um tratamento especial nas canções autorais.

"Eu sempre gravei os vídeos com meu celular e comecei em 2015. Segui com essa forma até 2018 e sempre deu muito certo, meu público sempre gostou da simplicidade, mas agora, como estou com músicas autorais, tem toda uma outra produção para os clipes", explicou.

A espontaneidade das gravações é um dos principais atrativos para este segmento, principalmente quem busca mais do que um cover, e sim uma identificação com quem está cantando aquela música. "Acho que isso vai muito de pessoa para pessoa, é uma questão pessoal. Eu, por exemplo, sempre gostei do simples, então eu pegava meu celular, sentava na cama e gravava e sempre deu muito certo. Isso vai do que você mesmo quer mostrar ao público", disse Ana Gabriela.

Postou o vídeo. E agora?

É claro que este momento íntimo entre voz, violão e câmera pode mudar completamente assim que se aperta o botão "publicar". "Porque gravar em casa, só eu e a câmera, é muito tranquilo, mas postar o vídeo e de repente um monte de gente assistir, é outra coisa. Demorou um pouco pra cair a ficha de que as pessoas sabiam quem eu era. Percebi isso quando uma vez uma menina pediu pra tirar foto comigo na rua", afirmou Mari Nolasco, que, quando percebeu o interesse das pessoas, começou a pensar mais em sua carreira. "Aí comecei realmente a me dedicar, criei um planejamento e estratégias".

Do celular aos clipes

Sobre os formatos de vídeo que fazem sucesso não existe um consenso. Enquanto Ana Gabriela segue fiel ao registro simples do celular, há quem prefira aumentar a produção em torno do clipe. Já Mari Nolasco usou o próprio dinheiro que o YouTube repassa dos anunciantes para investir pouco a pouco em equipamentos, mas ainda com simplicidade. "Comecei com a webcam do computador da minha mãe e com o dinheirinho que eu comecei a receber do YouTube, comecei a investir em câmeras, microfones, pessoas pra me ajudar e hoje em dia eu fico super feliz em falar que tenho meu próprio escritório em São Paulo". "Eu tento sempre manter essa essência no meu canal, porque é o que eu sou e como eu comecei. Aos poucos acho que fui profissionalizando as coisas, os equipamentos e a forma de gravar, mas nunca deixei isso pra trás", comentou.

A banda Blues Black Home, por exemplo, tem um pequeno estúdio em casa e usa um formato um pouco mais sofisticado, tanto no clipe quanto no arranjo de seus covers, como o vídeo que fizeram de "O Sol", de Vitor Kley, que já bateu 751 mil visualizações. "As gravações são feitas na nossa residência mesmo, temos um estúdio bem simples. Sobre os vídeos tem uma empresa parceira do nosso amigo Victor, a MQV Films, que faz as gravações e edição dos vídeos, a mixagem e masterização são feitas por um dos componentes do projeto, o Luan Murilho, a gravação da música é sempre feita antes e depois dublamos".

Mas o YouTube substitui o palco?

Rick Bonadio, produtor que já trabalhou com Charlie Brown Jr., Rouge e NX Zero, afirmou que fica de olho nos talentos que surgem na plataforma, mas não acredita que os vídeos na internet substituam o papel dos barzinhos na formação dos músicos.

"Nada substitui a experiência dos novos artistas têm quando faz ao vivo com o feedback imediato do público. É uma experiência muito diferente quando o cara tá no quarto gravado. Como música é muito emoção, não adianta medir essa emoção pelos likes. O YouTube chegou para complementar o barzinho", disse.

Lucas Lima/UOL
Rick Bonadio posa para foto no estúdio 1, do Midas, na Zona Norte de São Paulo Imagem: Lucas Lima/UOL

O produtor acredita também que a simplicidade dos registros é vital para que o conteúdo musical se destaque. "Não focar tanto na estética, beleza, luz...isso acaba mascarando um pouco a musicalidade. A gente tem vários exemplos de youtubers que eram muito bonitinhos e tal, muitos views, mas quando foram contratados pelas gravadoras acabaram não emplacando como artistas."

Truques para melhorar os vídeos

Um vídeo amador pode conquistar muitos fãs. Um vídeo tosco não. "Tecnicamente é muito importante que grave com uma qualidade razoável. Hoje em dia qualquer computador consegue gravar. Se tiver a possibilidade de comprar um computador bom e um programinha que grave em alguns canais você consegue fazer um arranjo razoável."

"É importante também que não trate demais a voz não mascare demais os erros. As pessoas como eu que procuram gente interessante na internet percebem quando está muito fake, muito falso", completou Bonadio, que ainda deu uma dica importante para a captação.

"A dica é preparar o quarto acusticamente. Você tem computador, o microfone lá e pode ser até o celular, que hoje são muito bons. Se puder colocar cortinas, tapetes, almofadas...para não gravar naqueles quartos com eco. Se tiver muitas paredes lisas, pendura um cobertor no armário, na janela. Tudo o que ajudar a abafar o som".