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Pintura, "Call of Duty" e sátira ao rolé dão a tônica a novo álbum de BK

Maxwell Alexandre e BK em frente a pintura da capa de "Gigantes" - Matias Maxx/UOL
Maxwell Alexandre e BK em frente a pintura da capa de "Gigantes" Imagem: Matias Maxx/UOL

Matias Maxx

Colaboração para o UOL

02/11/2018 04h00

Acessível e sofisticado, o álbum "Gigantes", do rapper BK, chega às plataformas digitais. "É mais fácil de entender que 'Castelo e Ruínas'", compara o rapper, que coleciona milhões de visualizações no YouTube e participações em cyphers como Favela Vive, Poesia Acústica e Poetas do Topo. De fato, o disco traz muitas sonoridades e é quase todo em primeira pessoa.

Gosto de fazer o rap em primeira pessoa porque me lembra muito jogos como 'Call of Duty' ou 'Bioshock Infinite', tá ligado? Tu vive outra aventura pelos teus olhos.

BK

"Na faixa 'Abeb Bikila', sou eu mesmo falando de situações minhas, na maioria das outras faixas são personagens", explica o carioca de 29 anos.
 
Em "Exóticos", BK encarna vários personagens, como um cara e uma mina racista; "Jovens" é uma sátira ao comportamento masculino presente no rolé e entre os próprios amigos. BK faz questão de lembrar: "É sátira ao rolé. Tomara que a galera entenda que é uma sátira, tem que explicar mil vezes".

Fugindo da primeira pessoa, o funkão "Deus do Furdunço" narra a história de uma entidade, que basicamente influencia a galera a fazer merda na noite. A história é contada sobre uma base de funk estilo Boogie Naipe produzida pelo Nave e tem um clipe (ainda inédito) divertidíssimo. De terno vermelho, BK incorpora a entidade, que fica influenciando um personagem, interpretado pelo seu beatmaker Jxnxs, a se jogar na Lapa na madrugada. Quem nunca?

D2 e Baco Exu do Blues

O álbum tem ainda participação de Marcelo D2, Sain, Baco Exu do Blues, Kl Jay, entre outros, e se completa com as pinturas de Maxwell Alexandre, de 28 anos, que criou as imagens de capa e também para os singles "Correria", "Deus do Furdunço" e "Julius". Cria da Rocinha, Maxwell tem Planet Hemp, MV Bill e Jimi Hendrix na sua formação musical, mas passou a prestar mais atenção no rap com Marechal, em 2013.

Quando BK lançou "Castelos e Ruínas", em 2016, Maxwell migrava da arte abstrata para uma pintura mais autobiográfica e figurativa. "Estava criando a série "Pardo É Papel", que fala sobre empoderamento negro, marra e auto-estima. Nesse momento, estava ouvindo muito rap e os caras cantando o que eu tinha na cabeça", lembra Maxwell, artista em franca ascensão no restrito círculo das artes visuais. 

Quando ouvia os versos, via a imagem, a pintura. A partir daí, comecei a pintar uns versos do BK

Maxwell Alexandre

A tela "Éramos as Cinzas e Agora Somos o Fogo" participou da exposição "Histórias Afro Atlânticas", no Masp, e outros versos de BK foram pintados pelo artista: "Meus Manos, Minhas Minas, Meus Irmãos e Minhas Irmãs e Meus Cães"; e "Um Cigarro e a Vida pela Janela", adquirido pela Pinacoteca.
 

A pintura de Maxwell Alexandre que é capa do disco "Gigantes", de BK - Divulgação - Divulgação
A pintura de Maxwell Alexandre que é capa do disco "Gigantes", de BK
Imagem: Divulgação
A capa do disco é um painel de 4m x 4m sobre papel pardo, ainda sem nome, mas que deve se chamar "Crianças atrás de Telas se Tornam Gigantes", verso da música "Gigantes".

"Quando eu ouvi isso, imaginei a tela da pintura, mas ele estava falando da tela do telefone. Na real, não importa. As crianças estão com as máscaras do Deus do Furdunço, que dá uma abertura maior para a interpretação. Acho que usar o título 'Gigantes' para a tela fica muito literal", explica o artista, que planeja vender a obra para o acervo do Museu de Arte do Rio, o MAR.

"Seria um marco importante para essa construção que eu e o BK estamos fazendo, de juntar rap com pintura. O BK leva a mensagem que tem a ver com a vivência que a gente tem, que é parecida, mas ele trata disso num código que é mais acessível, o rap, que já é assimilado pelo gueto e funciona", diz Maxwell.

Estou em outra parada que é a pintura, um código totalmente restrito, que é mais para elite e que não chega no gueto. Quando eu pinto os versos do BK, é uma tentativa de fazer com que esse 'gap' fique menor

Maxwell Alexandre

À sua maneira, BK e Maxwell criam uma mitologia própria, em oposição às influências europeias as quais estamos acostumados. "A religião e tudo que a gente aprende vêm da Europa, mas eu não quero mais pensar igual aos caras que me colonizaram, sou um novo poder!", brada o rapper.