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Diretor de "Utoya" diz que filme sobre atentado não é para traumatizar, mas ajudar na cura

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Andrea Berntzen em cena do filme "Utoya - 22 de Julho", de Erik Poppe Imagem: Divulgação

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL

02/11/2018 16h29

Foi a urgência do momento muito particular que o mundo atravessa que levou o diretor Erik Poppe a fazer "Utoya - 22 de Julho", filme sobre o atentado terrorista numa ilha da Noruega em 2011, que resultou na morte de 69 pessoas. A maior parte das vítimas era adolescente de um acampamento de verão promovido pela Juventude Trabalhista no litoral norueguês.

Rodado em um único plano-sequência de 72 minutos, o tempo exato que teria durado o ataque real, o filme é contado do ponto de vista de uma das vítimas do massacre, orquestrado pelo terrorista de extrema-direita Anders Behring Breivik. Lançado no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, onde deixou a plateia atônita, "Utoya - 22 de Julho" é agora uma das atrações do Festival do Rio, e chegará ao circuito comercial no dia 29 de novembro.

"Basta você olhar em volta hoje para perceber a ascensão do neofascismo na Europa e em outras regiões do mundo. Conversando com os sobreviventes do atentado e os parentes dos que pereceram, percebi que aquela tragédia nacional estava sendo esquecida. Era preciso voltar àquele trauma, lembrar como o extremismo de direita pode parecer", explicou Poppe em Berlim. "O objetivo principal desse filme não é traumatizar as pessoas, mas ajudar no processo de cura".

O filme abre com breves imagens de câmera de vigilância do atentado à bomba a prédios do governo de Oslo, também planejado por Breivik, no início da tarde daquele 22 de julho. A partir daí, a câmara cola na figura da jovem Kaja (Andrea Berntzen) que, junto com a irmã mais nova, era uma das dezenas de jovens de família de classe média que desfrutavam as férias de verão no litoral.

O clima de terror no acampamento tem início logo após as primeiras notícias sobre as explosões chegarem à ilha pelo rádio. A chegada das informações desencontradas vindas da capital coincide com os primeiros tiros disparados pelo terrorista, que chegou até ali vestido de policial. Poppe só mostra o atirador uma única vez, por alguns segundos, e à distância; ele prefere acompanhar, com a câmera na mão, o desespero dos jovens, a partir da perspectiva de Kaja.

"Minha intenção foi colocar o público naquela ilha, junto com as vítimas do atentado. Queria mostrá-lo inteiramente da perspectiva daqueles jovens, que não tinham a menor ideia do que estava acontecendo e de quem estavam tentando se proteger. Quando palavras podem descrever como foi estar naquela situação, elas se limitam ao lado emocional da história", justificou o diretor, conhecido por títulos como "Águas Turvas" (2008) e "Mil Vezes Boa Noite" (2013).

A opção pela imersão do espectador na história, a partir dos olhos da protagonista, joga a trama sobre os ombros de Andrea, jovem atriz de 18 anos sem qualquer experiência anterior com cinema. "Quando soube da ideia desse filme, minha reação foi crítica: como muitos outros noruegueses, achava cedo demais voltar ao episódio. No entanto, ao ler o roteiro e descobrir que o foco da história eram os jovens e não Breivik, achei que era forma correta de fazê-lo", contou Andrea em Berlim.

Há outros projetos sobre o ataque à ilha de Utoya (que significa "utopia" em norueguês, em tradução livre) a caminho, e em diferentes estágios de produção. Entre eles está uma produção local intitulada "Reconstructing Utoya", elaborado a partir do depoimento de cinco sobreviventes; e uma série de TV a ser lançada dentro e fora da Escandinávia.

O mais conhecido dessas novas versões sobre o episódio, porém, é "22 July", dirigido pelo irlandês Paul Greengrass, da série de blockbusters sobre o agente Jason Bourne. Diferentemente da versão de Poppe, o filme de Greengrass mostra os preparativos para o ataque terrorista e, principalmente, os meses que se seguiram a tragédia, culminando com o julgamento de Breivik.

Em Berlim, Poppe foi criticado por parte da imprensa, que o acusou de transformar o massacre em um espetáculo pirotécnico. Houve espectador que deixou as primeiras sessões em choque; outras, em lágrimas. Essas não mereceram os mesmos cuidados que a equipe e os atores tiveram durante as filmagens que, por precaução, contaram com a ajuda de um time de psicólogos, antes e depois das tomadas.

"Sim, precisávamos do acompanhamento de médicos e psicólogos durante as filmagens para monitorizar os atores, porque era um trabalho muito difícil de fazer. Afinal de contas, todos aqueles sons de tiros sendo disparados e dezenas de jovens correndo a esmo para proteger suas vidas, poderia afetar qualquer um envolvido no set", elaborou o diretor.