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Como Hollywood virou um lugar de trabalho perigoso para os dublês

A dublê Joi Harris, que morreu nas filmagens de "Deadpool 2" - Reprodução
A dublê Joi Harris, que morreu nas filmagens de "Deadpool 2" Imagem: Reprodução

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

01/11/2018 04h00

Nos últimos anos, os fãs que acompanham as novidades de Hollywood provavelmente notaram um aumento considerável no número de acidentes reportados nos sets de filmagens. Em dois casos de destaque na mídia, dublês de "The Walking Dead" e "Deadpool 2" morreram durante gravações.

Uma nova matéria do "The Hollywood Reporter" analisa essa tendência preocupante, conversando com profissionais da área e representantes do SAG, o sindicato de atores de Hollywood, que também engloba os dublês de filmes e séries de TV.

O resultado da investigação parece indicar que o problema das normas "frouxas" de segurança para dublês se agravou com a explosão de conteúdo da TV. Como aponta a matéria, estima-se que 520 séries originais sejam produzidas em 2018, mais do que o dobro das que foram lançadas em 2010.

A demanda maior leva muitas produções a contratarem dublês sem experiência, segundo Jim Vickers, profissional da área que já trabalhou em séries como "Training Day" e "Lucifer". "Para piorar, o SAG não tem regras rígidas para definir o que você precisa fazer para ser um dublê ou coordenador de dublês", comenta.

Cort Hessler, líder da categoria no sindicato, diz que a morte de Joi Harris no set de "Deadpool 2" "abriu seus olhos" para o problema. A primeira medida anunciada pelo SAG foi a criação de um banco de dados onde dublês poderiam se credenciar apenas depois de trabalhar 500 horas em sets de filmagem, certificando assim sua experiência.

Bernecker - Divulgação - Divulgação
O dublê Jon Bernecker, que morreu nas gravações de "The Walking Dead"
Imagem: Divulgação
Embora reconhecida como "um bom primeiro passo", a medida não resolve os problemas dos dublês. Mais eficiente seria a instalação de um sistema rígido como o da indústria britânica, que estabelece treinamentos específicos e testes para que qualquer dublê se torne coordenador.

"Nos EUA, se você tem um cartão do sindicato dos atores, você pode se dizer um dublê e até um coordenador", critica Andy Armstrong, um profissional britânico da área. "Todo mundo em Los Angeles tem um cartão desses. Isso é insano! É como dizer que a sua aeromoça é muito gentil, e que por isso ela pode pilotar o avião no próximo voo".

Os dublês também reivindicam que o seguimento do manual de segurança do SAG seja obrigatório. No momento, as regras detalhadas estabelecidas pelo sindicato, que dão instruções para cada tipo de cena perigosa, são apenas "sugestões", e não há nenhuma punição caso sejam descumpridas.

Histórias de terror

A história de Joi Harris, uma experiente piloto de motociclismo que foi contratada pela equipe de "Deadpool 2" para o seu primeiro trabalho como dublê, assombra muitos na indústria. Harris teve poucos dias de treinamento, e o coordenador de dublês do filme chegou a dizer para o produtor que ela não estava pronta para filmar.

Na primeira cena do seu primeiro dia, Harris perdeu o controle da moto na rua e bateu em um canteiro, sendo arremessada do veículo e passando por uma janela. A dublê morreu na hora.

"Duas pessoas que eu conheço não trabalham mais neste negócio por causa do que aconteceu com Joi", revela Monique Ganderton, uma das coordenadoras de dublês mais bem-sucedidas do mercado, dominado por homens. "Eles simplesmente me ligaram e disseram: 'Para mim, acabou'".

A sensação de insegurança foi reforçada com outros casos de repercussão, como o do dublê Jon Bernecker. Aos 33 anos, ele já era um profissional respeitado quando sofreu um acidente e morreu no set de "The Walking Dead", um mês antes do caso de Harris.

Em resposta aos casos, o SAG criou um comitê que vai discutir novas medidas para melhorar a segurança dos dublês. Para Harris e Bernecker, lamenta um coordenador que preferiu não se identificar, é tarde demais: "Esta indústria falhou com eles".