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"Central do Brasil", 20 anos: O filme que definiu o Brasil pré-internet

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

31/10/2018 10h47

Em abril de 1998 chegava aos cinemas a odisseia do menino Josué (Vinícius de Oliveira) em busca do seu pai. "Central do Brasil" apresentou um retrato franco do país na era pré-internet para contar a história do garoto de nove anos que conta com ajuda de Dora (Fernanda Montenegro), uma professora aposentada e ranzinza que escrevia cartas para analfabetos, após a morte da mãe.

Dirigido por Walter Salles, o filme guarda na simplicidade seus maiores atributos, principalmente em comparação com as transformações tecnológicas ocorridas ao longo dos últimos 20 anos. Essas mudanças desvalorizam as relações pessoais e colocaram o coletivo em primeiro lugar.

"É um filme que chama a atenção da possibilidade da individualidade, que na época de hoje não tem. Um presidente é eleito sem debate, as pessoas não se visitam mais tanto. Não tem papo de bar. Se tem, é mais para se beber junto, porque se tiver que acontecer o diálogo de duas pessoas no bar, lá pelas tantas vai estar a internet. Tem que falar com alguém, saber de alguém", critica Fernanda Montenegro em entrevista ao UOL.

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Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em cena de "Central do Brasil" Imagem: Divulgação

Para comemorar as duas décadas do longa que rendeu a única indicação brasileira ao Oscar de melhor atriz, a protagonista se juntou a Salles e a Vinícius, hoje com 33 anos, para falar sobre a importância do filme, que ganhará versão restaurada em DVD e Blu-ray em dezembro.

"Eu acho que o que o filme tem de mais bonito 20 anos depois é esse demorado adeus de uma humanidade que se encontra, que se ampara e que sai de lá renascida", aponta Fernanda Montenegro. "O fato é que quando essas cartas chegavam ao seu destino, provavelmente davam notícias das pessoas. Hoje em dia, você tem uma multiplicação constante das informações e da banalização de imagens", acrescenta o cineasta.

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Vinícius, que foi descoberto por Salles enquanto engraxava sapatos no aeroporto carioca de Santos Dumont, afirma que a saga de Josué seria facilitada pela popularização da internet, mas que não impediria o menino de nove anos de encontrar o pai.

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Fernanda Montenegro como Dora em "Central do Brasil" Imagem: Divulgação

"Se você está empenhado a encontrar seu pai, você tem que ir para lá e talvez nem se desumanize tanto nesta busca familiar, que ainda assim não tem como ter tantas 'fake news' ou notícias que você só lê em uma figurinha. É uma busca que tem um caminho maior para ser percorrido porque é humano, é uma história sua."

Walter, Fernanda e Vinícius fizeram de um drama pessoal uma história complexa, que dialoga com o Brasil de ontem e de hoje em uma saga pelo Nordeste. O trio rodou "Central do Brasil" em Vitória da Conquista e em Milagres, no interior da Bahia, com termômetros batendo os 40 graus, antes de se deslocar para o distrito de Cruzeiro do Nordeste, a 300 quilômetros do Recife.

Entre passagens improvisadas e equipe local, a produção ganhou destaque internacionalmente, arrebatando as categorias de melhor filme e atriz no Festival de Berlim e sendo indicado a filme estrangeiro e atriz no Oscar 1999. A história parece situada em um passado tão distante que é fácil esquecer como a relação ora conturbada ora familiar entre Dora e Josué guarda mais do que uma carta com um pedido de socorro.

"Você abre uma gaveta e tem uma carta de uma pessoa que não existe mais, e aquilo é substancioso. Aquele papel passou por aquela pessoa, a mão dele conduzindo a escrita, e é algo que você pode até guardar. Eu acho que hoje em dia isso não existe mais. Tudo fica guardadinho em uma máquina, a qualquer hora você pode buscar lá, mas é uma informação sem carne", entende Fernanda.

Errata: o texto foi atualizado
31/10/2018 às 12h08
"Central do Brasil" foi premiado no Festival de Berlim, e não no Festival de Veneza como foi informado anteriormente. O erro foi corrigido.

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