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"O Estranho Mundo de Jack": Como a animação reviveu stop-motion em Hollywood

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Cena do filme "O Estranho Mundo de Jack", de Tim Burton Imagem: Reprodução

Caio Coletti

Colaboração com o UOL

29/10/2018 13h03

O personagem título de "O Estranho Mundo de Jack", um esqueleto assustador que reina sobre a cidade do Halloween, povoa a imaginação do cineasta Tim Burton desde muito antes do lançamento do filme. De fato, o diretor escreveu o poema macabro que inspiraria o filme em 1982, quando ainda trabalhava como animador na Disney.

A jornada deste poema para a tela foi tortuosa. Apenas em 29 de outubro de 1993, precisamente 25 anos atrás, "O Estranho Mundo de Jack" viu a luz do dia nos cinemas americanos. Esta história de sucesso, inovação e culto segue sendo uma das mais fascinantes de Hollywood.

Ainda nos anos de 1980, Burton tentou transformar "O Estranho Mundo de Jack" em um curta-metragem ou especial de TV na Disney. Na época, ele era apenas o animador esquisitão que conseguiu um módico de sucesso com o curta "Vincent", e o estúdio do Mickey não estava exatamente disposto a dar uma grande chance para o seu estilo único.

Como resultado da frustração, Burton saiu da Disney em 1984. Dentro de poucos anos, o americano era o nome mais quente de Hollywood, graças a filmes como "Os Fantasmas se Divertem" (1986), "Batman" (1989) e "Edward Mãos de Tesoura" (1990).

Burton não conseguia tirar da cabeça, no entanto, o poema sobre o melancólico Jack e seu encanto pelo feriado do Natal, do qual ele teoricamente não deveria participar. Jack é o tipo de personagem pelo qual o cineasta ficou conhecido com o passar dos anos: um protagonista desajustado cuja angústia vem da necessidade de se adaptar ao que o mundo espera dele.

Assim, o cineasta voltou à Disney para checar se havia qualquer possibilidade de o estúdio reviver a sua história em algum formato, já que os direitos pertenciam a eles. A companhia estava bem mais interessada na história idiossincrática de Burton, agora que ele havia se provado um bom chamariz de bilheteria.

Selick, o gênio

Parte do interesse da Disney era provar que poderia fazer algo "fora da caixinha", como definiu na época o CEO David Hoberman. O estúdio e seu selo adulto, Touchstone Pictures, haviam encontrado sucesso com um filme que inovava no setor da animação, "Uma Cilada para Roger Rabbit", em 1988 --daí, surgiu a ideia de fazer "Jack" no método stop-motion.

No stop-motion, ao invés de animar os movimentos e expressões dos personagens digitalmente, bonecos de massinha ou outros materiais são criados, colocados em cenários de verdade, e manipulados cuidadosamente por membros da produção. Cada mínimo movimento é fotografado, e o filme é construído juntando as fotos, para dar ilusão de fluidez.

Apesar do seu amor pela história, Burton estava ocupado com "Batman - O Retorno" quando o filme finalmente saiu do papel. Como resultado, ele entregou a direção de "Jack" para um velho amigo e ex-colega no setor de animação na Disney, Henry Selick.

Ver a forma como Selick fala do filme é perceber como o seu gênio moldou "Jack" e seu estonteante visual. "Quando Jack está na cidade do Halloween, é tudo saído de um filme do expressionismo alemão. Quando ele entra na cidade do Natal, é como um livro de Dr. Seuss. E quanto ele está no mundo real, é tudo entediante e perfeitamente alinhado", diz na faixa de comentário de uma edição em DVD/Blu-Ray do filme.

Modesto, Selick ainda diz que a mão do amigo Burton foi essencial em "O Estranho Mundo de Jack". "Eu penso assim: ele botou um ovo, mas eu tive que chocá-lo. Meu trabalho era fazer com que este parecesse um filme de Tim. Por sorte, o estilo dele não é tão diferente do meu", brinca.

Desde "Jack", o diretor assinou outras duas pérolas de animação: "James e o Pêssego Gigante" (1996) e "Coraline e o Mundo Secreto" (2009). Provou, assim, ser um dos talentos definidores da animação contemporânea.

No embalo do Halloween

"O Estranho Mundo de Jack" foi um grande sucesso, é claro. Feito por pouco menos de US$ 20 milhões, o longa arrecadou mais de US$ 78 milhões ao redor do mundo no início, lucrando muito mais conforme os anos foram passando, e "Jack" se mostrou um fenômeno cultural com muitos produtos relacionados e reapresentações periódicas no cinema.

Outro sucesso foi a trilha sonora, com canções inesquecíveis de Danny Elfman, o mesmo compositor que trabalhou com Burton em "Batman" e outros filmes marcantes. "Foi o trabalho mais fácil da minha vida", comentou Elfman certa vez. "Eu tenho muito em comum com Jack".

"This is Halloween", faixa de abertura do disco, virou um hit atemporal. Em 2006, uma edição especial da trilha foi lançada com covers de músicos famosos. Marilyn Manson e Panic! At the Disco gravaram duas versões bem diferentes da canção.

A Disney, que lá nos anos 80 havia rejeitado "O Estranho Mundo de Jack", queria agora produzir uma continuação. Foi em 2001 que Burton barrou de vez essa possibilidade, mostrando que seu coração ainda estava firmemente fixado no filme.

"Eu sempre fui muito protetor com 'O Estranho Mundo de Jack'", comentou ele à MTV, em uma entrevista. "Eu acho que fazer uma sequência tiraria do filme sua pureza, que é o que o seu público ama".