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Jerry Seinfeld analisa impacto do #MeToo na comédia: "É um momento positivo"

O humorista Jerry Seinfeld - Netflix
O humorista Jerry Seinfeld Imagem: Netflix

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

26/10/2018 10h24

Jerry Seinfeld é uma das grandes referências quando se fala de comédia nos EUA, tanto por sua série, "Seinfeld", quanto por suas performances de stand-up, que ele ainda faz regularmente. Entrevistado pelo "The New York Times", ele avaliou o impacto do #MeToo, o movimento contra o assédio e o abuso sexual, como "largamente positivo" para a área. 

"Se você diz algo errado, ou faz algo errado - é incrível que a internet se tornou esse portal para a expressão de tanta dor", refletiu. "O que eu acho é que, em perspectiva, isso é tudo positivo. Eu penso bastante sobre as vítimas desse tipo de coisa, como elas conseguem muito mais dessa plataforma do que cinco anos atrás, por exemplo. Isso é ótimo".

Seinfeld ainda elogiou "Nanette", especial da comediante Hannah Gadsby que virou fenômeno na Netflix. Nele, Gadsby conta sobre suas experiências com abuso sexual e homofobia. "Sim, eu vi e amei. Amei. Ela fez um trabalho lindo, a forma como ela juntou esse relato com a história da arte, que foi o que ela estudou, é fascinante e fantástica", comentou.

"Isso não é ótimo, a forma como ela pegou um formato convencional e o 'esticou' para incluir sua experiência?", disse ainda Seinfeld. "É por isso que as pessoas assistem a especiais de stand-up hoje em dia. Quão valioso é aquilo que ela disse para pessoas que passaram pela mesma coisa? Quantas pessoas vão pensar: 'Ela prosperou apesar de tudo isso'. Que contribuição incrível".

"O que é mais poderoso sobre o momento que estamos passando é que não há mais regras. Estamos descobrindo tudo enquanto acontece. É algo muito estimulante e empoderador", completou.

Cosby, Louie e Roseanne

Seinfeld também refletiu sobre colegas de profissão que foram condenados por seus atos fora dos palcos. O comediante citou especificamente Bill Cosby, recentemente sentenciado à prisão por assédio sexual; Louis  C.K., que também teve casos de assédio revelados e se afastou dos holofotes; e Roseanne  Barr, cuja série na ABC foi cancelada após um tuíte com ofensas racistas.

"Eu via Cosby como um ídolo. Foi uma queda grande demais para ignorar", comentou. "O que eu acho que é novo para as pessoas é que a queda desses ícones é muito rápida quando algo assim acontece. É tanto trabalho indo embora tão rápido. Ficamos irritados com essa rapidez, porque ela é nova. É daí que vem o desconforto".

"Eu não acho que eu preciso repensar a minha idolatria por Cosby. Eu não vou desistir de ter heróis na minha profissão", continuou. "Eu sou uma pessoa esperançosa. É o que eu disse para Ellen [DeGeneres] uma vez: Como humanos, nós temos relacionamentos abusivos uns com outros. Nós odiamos certas pessoas, as desprezamos. E então alguém toca um concerto no piano e pensamos: 'Uau, as pessoas são legais'".

"Eu não concordo com a noção que o comediante pode falar o que quiser. O público vai filtrar o que você está falando", disse ainda. "Você sabe quantas pessoas começaram nisso junto comigo, homens e mulheres? 99% deles não estão mais nesse negócio. Alguns deles eram ótimos. Eles não vingaram por todo tipo de razão que você pensar. Toda fragilidade humana fica exposta [na comédia]".

"Você não pode fazer o que quiser. Você só pode fazer o que funciona, se você quiser uma carreira. O que eu faço no palco é o que 300 plateias decidiram que funciona. Você tem que fazê-los rir se quiser que eles voltem. É por isso que eu me apresento com um terno, é um sinal: Eu não estou brincando. Eu entendo o que estou fazendo", completou.