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Em artigo no "New York Times", Caetano critica Bolsonaro e elogia FHC e Lula

Caetano Veloso e filhos se apresentam no festival João Rock 2018, em Ribeirão Preto (SP) - Deividi Correa/AgNews
Caetano Veloso e filhos se apresentam no festival João Rock 2018, em Ribeirão Preto (SP) Imagem: Deividi Correa/AgNews

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

24/10/2018 21h52

Com o título "Tempos sombrios estão chegando ao meu país", Caetano Veloso escreveu um artigo ao The New York Times nesta quarta-feira (24) em que opina sobre a atuação situação política do país e pede que "minha música, minha presença sejam uma resistência permanente a qualquer característica antidemocrática que venha de um provável governo Bolsonaro."

Segundo o compositor, o sucesso de Jair Bolsonaro está diretamente ligado aos acontecimentos no Brasil nos últimos anos, como os protestos que tomaram as ruas em 2013, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e grandes escândalos de corrupção, incluindo "Lula na cadeia", apontou Caetano.

"Muitos artistas, músicos, cineastas e pensadores viram-se em um ambiente de ideais reacionários, que - através de livros, sites e artigos de notícias - têm denegrido qualquer tentativa de superar a desigualdade ligando políticas socialmente progressistas a um tipo de pesadelo venezuelano, gerando medo que os direitos das minorias irão corroer os princípios religiosos e morais, ou simplesmente doutrinando as pessoas em brutalidade através do uso sistemático de linguagem depreciativa", opinou o baiano.

"A ascensão de Bolsonaro como uma figura mítica cumpre as expectativas criadas por esse tipo de ataque intelectual. Não é uma troca de argumentos: aqueles que não acreditam em democracia funcionam de maneira insidiosa", completou.

23.out.2018 - Caetano Veloso, Mano Brown e Chico Buarque com Fernando Haddad (PT) em ato de apoio à candidatura do petista no Rio de Janeiro - Divulgação/Ricardo Stuckert - Divulgação/Ricardo Stuckert
Imagem: Divulgação/Ricardo Stuckert

No artigo, Caetano ainda se recorda de como o Brasil conseguiu sair de 20 anos de ditadura na década de 80 para entrar na democracia. "Se alguém me dissesse na época que conseguíramos eleger Fernando Henrique Cardoso e depois Luiz Inácio Lula da Silva, teria soado como um sonho. E então aconteceu. A eleição do Sr. Cardoso e do Sr. Silva carregaram um peso simbólico gigantesco. Brasil ganhou mais respeito próprio".

Após lembrar que Bolsonaro defendeu Carlos Alberto Brilhante Ustra, figura importante da ditadura militar, em agosto de 2016, Caetano Veloso explicou o motivo pelo qual decidiu escrever o texto e lembrou do tempo em que foi preso. "Como figura pública no Brasil, tenho o dever de tentar esclarecer esses fatos. Eu sou um homem velho agora, mas eu era jovem nos anos 60 e 70, e eu lembro. Então eu tenho que falar".

"No final dos anos 60, a junta militar prendeu muitos artistas e intelectuais por suas crenças políticas. Eu era um deles, junto com meu amigo Gilberto Gil. Gilberto e eu passamos uma semana em uma cela suja. Então, sem nenhuma explicação, fomos transferidos para outra prisão militar por dois meses. Depois disso, quatro meses de prisão domiciliar até, finalmente, o exílio, onde ficamos por dois anos e meio. Outros estudantes, escritores e jornalistas foram presos nas celas onde estávamos, mas nenhum foi torturado. Durante a noite, porém, ouvimos os gritos das pessoas", completou.

Caetano Veloso é um dos artistas brasileiros mais respeitados internacionalmente e recentemente completou uma turnê europeia ao lado dos filhos, no projeto Ofertório. O cantor já recebeu dois Grammy, o Oscar da música, e também marcou presença na trilha sonora de filmes consagrados como "Moonlight: Sob a Luz do Luar" e "Frida".