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Cena sem cortes de "Demolidor" precisou de 12h, 7 takes e deixou equipe exausta

O ator Charlie Cox como Matt Murdock em "Demolidor", série da Netflix - Reprodução
O ator Charlie Cox como Matt Murdock em "Demolidor", série da Netflix Imagem: Reprodução

Osmar Portilho

Do UOL, em São Paulo

23/10/2018 04h00

ALERTA DE SPOILER: o texto a seguir revela trechos da 3ª temporada de "Demolidor"

As cenas de luta de "Demolidor" certamente fizeram com que a série ganhasse um reconhecimento maior não só entre os fãs, mas também entre os entusiastas do cinema e da TV. Depois da repercussão de uma visceral luta entre Matt Murdock e uma sequência de bandidos em um corredor de um prédio na primeira temporada, os responsáveis pela série sabiam que podiam repetir aquele feito, mas com um grau de dificuldade ainda maior.

"Sim, nós superamos aquilo", disse Eric Oleson, showrunner da série deixando de lado qualquer humildade para falar da proeza ao site "Vulture". No quarto episódio da terceira temporada de "Demolidor", há uma cena de 10 minutos e 43 segundos que foi feita sem nenhum corte. Nela, Matt tenta deixar a prisão durante uma rebelião e basicamente se envolve em uma luta sem fim para tentar se livrar de presos e policiais que o querem morto.

Em comparação com a cena do corredor na primeira temporada - que tem cortes -, esta envolveu muito mais atores, mais tempo e exigiu muito mais da equipe para que fosse concretizada.

Primeiro inimigo: burocracia

A ideia partiu do diretor do capítulo, Alex Garcia Lopez. Assim que ele e Eric Oleson se entusiasmaram com essa sequência incrível de fuga da prisão, eles precisariam convencer a produtora e o estúdio de que valia a pena investir nesta cena.

Esta seria uma diária inteira da equipe de filmagem e estrutura para gravar somente uma cena. "Eu tive que ligar para o departamento financeiro e dizer 'vamos parar de filmar um dia inteiro para a equipe ensaiar'. Do ponto de vista da televisão, isso é certamente algo que causa muita ansiedade e estresse", disse Eric.

Tom Lieber, vice-presidente do setor televisivo da Marvel, estava cético. "Eu pensava algo tipo 'isso é um roteiro de 12 páginas'", afirmou ao "Vulture".

Enquanto os setores altos do estúdio estavam temerosos, os envolvidos diretamente com a cena estavam animados. "Charlie [Cox] estava muito empolgado. Nosso cinegrafista estava empolgado. Alex estava radiante", afirmou o showrunner.

Demolidor cena 02 - Reprodução - Reprodução
Neste momento, na tomada número 7, Charlie Cox disse que estava sem fôlego
Imagem: Reprodução

Inspiração

A equipe de "Demolidor" se instalou em uma prisão abandonada em Staten Island para iniciar os trabalhos. Para ter ideias de como seria sua sequência sem cortes, Lopez relembrou alguns êxitos do cinema, como a cena de "Filhos da Esperança", de 2006. "O que Alfonso Cuarón fez foi obviamente uma grande referência para isso", afirmou. Ele usou um ângulo similar ao do filme para que não houvesse dúvidas de que se tratava de um plano-sequência.

Truques

Uma cena longa e sem corte como esta necessita de inúmeros truques para que tudo aconteça naturalmente. Naqueles dez minutos de luta, por exemplo, Charlie Cox está em cena em 80% do tempo, e o restante fica a cargo de seu dublê, Chris Brewster. Mas como fazer uma troca de ator em uma sequência sem cortes? É o que eles chamam de "Texas switches", momentos onde eles coreografam uma rápida troca fora das câmeras.

"A equipe de dublês surgiu com soluções inteligentes para resolver os problemas. Por exemplo, quando Matt está no corredor e os policiais o atacam, é Brewster, que apanha diversas vezes no chão. Ele dá um chute, e no segundo golpe já é Charlie, que estava deitado do seu lado e se levanta rapidamente. Em uma sequência como esta há diversas trocas rápidas como esta", explicou Lopez.

Outra dificuldade na cena era o sangue. Como sujar a cara de Matt Murdock enquanto ele apanha tanto na saída da prisão?

"Nós colocamos muitos recipientes com sangue falso escondidos em lugares específicos. Desta maneira, Charlie pôde colocar bastante sangue na boca para cuspir nos momentos em que podia", completou o diretor do capítulo.

Abaixo, a primeira parte da cena

Equipe exausta

A equipe tinha 12 horas para realizar a cena, mas não exatamente todo esse tempo, afinal, os dublês e atores tinham suas limitações. A equipe já havia avisado o diretor que poderiam repetir o take até cinco vezes para que não se ferissem ou ficassem cansados demais.

A primeira filmagem funcionou do começo ao fim, mas claro, com algumas falhas perceptíveis na câmera. De qualquer maneira, eles ganharam confiança de que seria possível realizar o feito.

No entanto, os takes dois, três, quatro e cinco simplesmente não funcionavam mais. "Nós errávamos sempre em um trecho no consultório", afirmou Lopez. Só neste trecho, há três mudanças de ator, o que dificulta sua execução.

"Foi nesta hora que nós começamos a nos preocupar", comentou o diretor, que ainda enfrentava o fim do dia, significando que poderiam perder a luz natural para a filmagem.

Depois de toda essa insegurança, o take seis foi quase perfeito, exceto algumas falhas nas atuações, onde eles queriam mais emoção. Na sétima tomada, apenas a terceira sem ser interrompida, foi que eles conseguiram as imagens que você vê no episódio 4 da terceira temporada. "Uma explosão de alegria".

Demolidor cena no táxi - Reprodução - Reprodução
Charlie Cox no táxi: dever cumprido
Imagem: Reprodução

Lieber lembra que ele e outros executivos aguardavam tudo mastigando suas unhas. "Foi o próprio Charlie Cox que me contou. Ele me mandou uma mensagem de texto", explicou.

"Eu assisti e meu queixo estava no chão durante todo o momento. Charlie foi brilhante. Eu acho que a cena é tão forte porque vemos como ele estava cansado no final dela. Quando ele entra no táxi ele está legitimamente exausto".

A atuação do britânico não empolgou só o executivo, mas também o diretor do capítulo, Alex Garcia Lopez. "Nos takes 6 e 7 ele estava muito cansado, e isso é compreensível. Na hora que ele é empurrado contra a parede e cospe sangue, ele me disse que mal podia respirar. Todos fizeram seu trabalho, mas Charlie foi o jogador mais importante sem dúvidas", completou.

O showrunner Eric Oleson lembra ainda como a sincronia da equipe foi importante para que tudo acontecesse. "Uma hora alguém tinha que aparecer e outro se esconder. Microfones, câmeras, atores, dublês, efeitos especiais, fogo, fumaça, textos. Resumindo, foi uma loucura", concluiu.