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"Pico da Neblina": Série da HBO imagina como seria Brasil com maconha legalizada

Alile Dara/Divulgação
Henrique Santana (Salim) e Luís Navarro (Biriba) durante as filmagens de "Pico da Neblina" Imagem: Alile Dara/Divulgação

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL

22/10/2018 04h00

O Canadá legalizou o uso da maconha para fins recreativos na última quarta-feira (17). Com modelos diferentes, Estados Unidos e Uruguai já fizeram o mesmo. A nova realidade parece cada vez mais longe de chegar ao Brasil, mas a HBO decidiu imaginar como seria isso por aqui.

Com o sugestivo, e espirituoso, nome de "Pico da Neblina", a produção brasileira contará a história de Biriba (Luís Navarro), um jovem traficante paulistano que, com a mudança na lei, decide abandonar o crime e vender sua erva legalmente junto com um sócio investidor nada experiente. Mas Salim (Henrique Santana), seu amigo de infância, resolve seguir como traficante à moda antiga: na ilegalidade.

Série original da HBO, "Pico da Neblina" terá uma primeira temporada com dez episódios --as gravações devem seguir até dezembro e, por enquanto, não há data fechada para a estreia.

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O diretor Quico Meirelles Imagem: Alile Dara/Divulgação

Quico Meirelles, que dirige a série ao lado do pai Fernando Meirelles, Luis Carone e Rodrigo Pesavento, diz que, de modo geral, a série mostrará que legalizar a maconha pode ser algo benéfico, mas que tem dúvida sobre se os espectadores entenderão a mensagem. "Hoje já não dá para imaginar nada. As pessoas não compreendem ou concordam com coisas que parecem tão evidentes", ele diz.

"Há vários modelos possíveis para legalização da maconha. Na série, imaginamos que no Brasil seria algo mais parecido com o americano, com lojas especializadas e vendedores independentes", antecipa Meirelles.

O ator Luís Navarro acredita que dificilmente a droga será legalizada no Brasil porque "muita gente vai sair perdendo". "Vinte e cinco por cento do PIB mundial vem do tráfico de drogas. Então não tenho esperanças. Mas pelo menos pude viver isso na ficção". Henrique Santana é ainda mais objetivo sobre o tema: "Se maconha é droga, Deus é traficante. Ela vem da terra."

Por trás das câmeras

O UOL esteve no set de gravação e acompanhou uma cena que se passa na casa de Salim: um edifício na entrada da favela de Heliópolis, uma das maiores de São Paulo com cerca de 200 mil habitantes. O prédio residencial de três andares e 12 apartamentos estava apinhado de integrantes da equipe de produção --entre 90 e 150 profissionais.

Para as gravações de "Pico da Neblina", a locação é perfeita para a história de Biriba. Destoando da relativa simplicidade do restante do prédio, uma imponente piscina, com luzes esverdeadas e uma bela vista para a cidade, surpreende quem chega à laje. Quem já assistiu filmes e viu reportagens sobre traficantes bem-sucedidos provavelmente imagina um cenário exatamente como aquele.

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Henrique Santana (Salim) e Luís Navarro (Biriba) Imagem: Alile Dara/Divulgação

E os atores que fazem Biriba e Salim conhecem bem o universo que interpretam. Ambos nasceram e cresceram na periferia da Zona Leste de São Paulo. "Eu seria um Biriba se não tivesse estudado. A arte me salvou. Tenho vários amigos que se perderam. Essa vida [do crime] é muito tentadora", diz Navarro.

Amigo de Santana na vida real, Navarro conta que, quando recebeu o texto da série, comentou com ele o quanto aquilo tinha a ver com a dupla. Eles não tiveram dúvidas em fazer o teste. "O Biriba é meio como eu. Um camaleão que transita entre dois mundos", diz Navarro. "Eu digo que estou terceirizado neste trabalho, porque a HBO está me pagando para eu dizer tudo aquilo que eu gostaria."

Já Santana conta que Cauê Laratta, um dos roteiristas da série junto com Chico Mattoso, Mariana Trench e Marcelo Starobinas, disse que ele é "mais Salim que o próprio Salim". Quando a série começou a ser escrita, em 2013, o hoje ator era professor de ensino religioso e queria ser padre. Agora, se identifica tanto com os personagens que chega a dizer, brincando, que eles "parecem psicografados" na medida para ele e Navarro.

"Acho que a série é uma forma de olhar para a vida das pessoas da favela sem elitismo ou parcialidade", diz Santana. "É sobre quem são aquelas pessoas, aqueles pobres. Muita gente que assistir a série vai achar que somos playboys, que estudamos no Wolf Maya [famosa escola de atores em São Paulo]", brinca o ator.