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Documentário mostra como Quincy Jones virou manda-chuva da música

Michael Jackson e Quincy Jones

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

20/10/2018 04h00

O que Frank Sinatra, Michael Jackson, a série "Um Maluco no Pedaço", a canção "We Are the World", Oprah Winfrey e Ray Charles têm em comum? Todos eles estão na enorme lista de artistas e projetos que levam, de alguma forma, a assinatura ou a influência de Quincy Jones. O norte-americano, hoje um senhor de saúde instável de 85 anos, tornou-se o produtor mais importante do mundo da música e expandiu sua atuação para filmes, TV e premiações. É sobre todas essas conquistas que o documentário "Quincy", disponível na Netflix, fala ao acompanhar por um tempo a vida de Q - como ele é chamado.

"Quincy" se dispõe, em duas horas, a tentar resumir o tanto que o produtor, compositor, arranjador e escritor fez em vida, o que já não é pouco. Além disso, um dos enfoques principais é em mostrar como foram seus últimos anos, como a idade já o afeta - com direito a imagens fortes dele internado em coma por diabetes. E há também um debate muito importante sobre como um jovem pobre, negro e que cresceu sem a mãe venceu o racismo nos Estados Unidos.

Só por esse resumo, dá pra se ter uma ideia de que a vida de Q seria digna até de uma série, com mais episódios, mas não foi a opção escolhida. Rashida Jones, filha de Quincy e atriz conhecida por séries como "Parks and Recreation" dirige o documentário, ao lado de Alan Hicks. A proximidade e o fato de ela mesmo filmar momentos privados com o pai fazem do relato bem íntimo, a ponto de ela questionar o pai sobre problemas com a bebida e, sem pudores, expor a fragilidade de Quincy aos 85 anos.

Os problemas de saúde

Uma das coisas mais marcantes do documentário são os problemas recentes de saúde de Quincy, que acabam expondo o que ele mostra ou aponta como os maiores problemas de sua vida e sua carreira. Quincy não esconde o seu gosto por bebidas, mas isso acaba cobrando seu preço. Ele foi internado em 2014 em coma por diabetes e precisou de um longo processo de recuperação.

REUTERS/Denis Balibouse
O consagrado produtor Quincy Jones, homenageado no Festival de Jazz de Montreux de 2018 Imagem: REUTERS/Denis Balibouse

A bebida acompanhou sua jornada como workaholic. Lá na década de 1970, ele já havia tido um aviso de que a rotina era puxada demais, quando teve um aneurisma e ficou perto da morte. Isso o reaproximou de sua família. Mas, como ele mesmo diz, seu maior defeito foi não saber administrar seus casamentos. Uma a uma, as separações vão acontecendo durante o documentário, mostrando que o que ele tinha de gênio para as artes, não o tinha para tentar manter um ambiente bom em seus lares.

Outro problema de saúde que o leva ao hospital, mais recente, foi por conta de um coágulo sanguíneo, mas ele também contornou o incidente.

Infância e conquistas

O documentário retrata muito de como era ser um negro na infância e adolescência de Quincy Jones, que cresceu em uma época em que ambientes de brancos e negros eram separados. Sua mãe foi afastada da família, após ser internada com problemas mentais, quando ele tinha 7 anos.

A música apareceu como forma de distraí-lo dos problemas, desviá-lo do crime - "Eu queria ser um gângster até meus 11 anos" - e virou trabalho. Aprendeu piano e trompete e aos 14 anos já se apresentava na noite. O primeiro grande parceiro foi Ray Charles, que à época tinha 17 anos. Jones passou a se apresentar nas bandas de Billie Holliday e Billy Eckstine, estudou na Berklee College of Music e virou trompetista, pianista e arranjador de Lionel Hampton.

Q mostrava que não era só um instrumentista, sua visão ia muito além. Ele foi estudar música clássica com Nadia Boulanger, em Paris, e ficou na Europa por um tempo. Na volta aos Estados Unidos, compor e arranjar músicas para Ray Charles, Sarah Vaughan e Dina Washington o levaram a Frank Sinatra. Mais uma vez, foi uma parceria de sucesso.

Divulgação/Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix

Sinatra, por sinal, é creditado como responsável por, certa vez, impedir que Jones tivesse que ficar num "hotel para negros", ajudando a mudar um panorama de racismo que ainda era algo corriqueiro nos EUA.

Além de trabalhar com esses figurões, Quincy passou também a se destacar fazendo trilhas sonoras de filme. Mas convém uma observação. Como ele passou de um arranjador e compositor mais voltado a nomes clássicos e a trilhas sonoras a um mago da música pop, capaz de produzir um disco como "Thriller", de Michael Jackson? A questão foi, também, sobre dinheiro. Sua experiência na Europa trouxe uma grande dívida, porque sua big band não decolou. Para pagar as contas, ele atuou também como executivo de gravadora, escutando muitas fitas que chegavam por lá. Seu faro para caça-talentos era afiado.

A relação com Michael Jackson é bastante abordada, mostrando a adoração que o cantor tinha por Q. Foi a insistência de Jackson junto à sua gravadora que fez de Quincy produtor de "Off the Wall", "Thriller" e, mais tarde, também de "Bad".

Quincy estava no auge. Mas, mesmo experiente e ficando mais velho, nunca perdeu a visão pioneira. Ele esteve envolvido na cena do rap dos anos 1990. Foi, também, um dos responsáveis pelo sucesso de "Um Maluco no Pedaço", que bombou não só como série, mas fez de Will Smith um astro. Sua contribuição foi ao encorajar a rede de TV NBC a aceitar o programa baseado na vida de Benny Medina, um empresário musical. Sabe a música-tema de "Um Maluco no Pedaço"? Quincy é quem escreveu, é claro.

São tantos os feitos que o documentário de 2h acaba sendo um pouco raso em contá-los. Ao fim, vê-se que as festas de aniversário de Quincy que aparecem no documentário vão mostrando a evolução de sua velhice. Em uma, bebidas e clima de balada. Na outra, apenas a família. Numa terceira, um misto disso, com Q já desfrutando de uma melhor condição de saúde, mas também um pouco mais cuidadoso.

O filme usa como fio condutor, ainda, a produção da inauguração do The National Museum of African American History and Culture, um museu dedicado à cultura negra. Com sua lábia, ele convence até Oprah Winfrey a participar. Além disso, circula entre tanta gente famosa, de Paul McCartney a Barack Obama, que mostra com facilidade que, mesmo aos 85 anos, ele ainda está longe de perder relevância.

Assista ao trailer de "Quincy":

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