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Como é ser escritora pornô feminista em meio ao tsunami conservador no Brasil

Abhiyana, autora do livro "Textos Putos e Ilustrações Pornográficas Aleatórias" - Amanda Perobelli/UOL
Abhiyana, autora do livro "Textos Putos e Ilustrações Pornográficas Aleatórias"
Imagem: Amanda Perobelli/UOL

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL

19/10/2018 04h00

Eu não a conhecia, não fazia ideia de onde ela vinha, e de repente passei a ver suas nádegas, coxas e seios quase diariamente. As fotos no feed do Facebook eram de uma tal de Abhiyana, que, desavisado, aceitei como amiga e agora me brindava regularmente com doses, não tão homeopáticas assim, de erotismo explícito. 

Descobri que se tratava de uma seguidora do guru gaúcho Satyaprem, sobre quem fiz uma reportagem para o UOL. Ok, se alguém me procurou nas redes por gostar do meu trabalho, e não para me xingar ou ameaçar, convém valorizá-la. 

A verdade, porém, é que internamente eu me incomodava com aquela estranha se expondo daquele jeito para alguém que sequer a conhecia. Minha primeira reação, e sei que aí todos nossos preconceitos introjetados falam mais alto, foi a de considerá-la mais uma "poser" em busca de atenção a qualquer custo. 

Isso mudou quando descobri que Abhiyana tem um livro - "Pequenos Textos Putos e Ilustrações Pornográficas Aleatórias" - e tenta emplacar, via financiamento coletivo, um novo projeto chamado "Por que gozar é tão bom?". 

Me informei a respeito e achei a proposta ousada: ao invés de ilustrações, o livro terá "fotos produzidas a partir de experiências sexuais reais e absolutamente intensas". A sessão de fotos será filmada para originar "curtas putos registrando a autora no ato, vivendo na pele o que ela escreveu no livro". 

Quem contribuir com mil reais ou mais para o projeto poderá ir a um dos três dias nos quais as fotos e vídeos serão produzidos. Por "participar", entenda assistir ali ao vivo. Se masturbar será permitido caso você "não aguente de tanto tesão", mas fica o aviso aos empolgadinhos: será proibido "invadir a trepada". 

Saber disso fez com que eu revisse minha impressão inicial. Aparentemente, a tal Abhiyana levava mesmo a pornografia a sério. No sentido de tratá-la quase como uma filosofia de vida. Um meio de propor, e quem sabe responder, questões existenciais.

Elevar a putaria para além de somente um estímulo aos sentidos não é exatamente uma novidade. Mas, convenhamos, para uma mulher fazê-lo no Brasil ultraconservador de hoje, haja determinação. Tem que ter o chamado "culhão". Bem mais do que muito "macho" tenta ostentar por aí. 

"O que é estar bem?"

Abhiyana - 1 - Amanda Perobelli/UOL - Amanda Perobelli/UOL
Imagem: Amanda Perobelli/UOL
O encontro com Abhiyana acontece em uma bela e ampla casa na Vila Anglo Brasileira, último bastião de resistência à gentrificação da Pompeia, zona oeste de São Paulo. Do portão para dentro, tem-se definitivamente a impressão de não estamos em São Paulo. Não se vê um prédio, uma bandeira do Brasil pendurada numa sacada gourmet.  

Quem nos recebe é uma mulher de fala tranquila, eventualmente quase hipnótica, de gestos suaves e cuidadosos. Nada a ver com a imagem de extroversão e desprendimento que normalmente associamos à pornografia. A pessoa que tem coragem para postar fotos seminuas quase todo dia se mostra até um tanto tímida, demora a ficar à vontade quando o gravador é ligado. 

Abhiyana se formou em Comunicação Social e aos vinte e poucos anos já tinha um bom emprego em uma multinacional. Tinha boa relação com o chefe, era boa no que fazia. Tivesse ignorado seus verdadeiros anseios, provavelmente hoje estaria em um cargo de chefia bolando campanhas e pedindo a revisão de banners. 

Uma amiga me disse que hoje eu estaria muito bem se tivesse continuado. Mas o que é estar bem? Eu teria um apartamento, teria isso e aquilo? Imaginei como seria, mas não trocaria pela minha vida hoje.

Porque aquela velha conhecida dos desajustados - a angústia - não demorou a convencer Abhiyana a trocar o PowerPoint pelo palco. Ainda com 21 anos, ela pediu demissão e foi estudar teatro. "Não sei bem como, mas chegou na minha casa uma carta do Célia Helena (escola de teatro) avisando sobre testes seletivos. Na hora vi aquilo muito como um sinal."

Pois Abhiyana passou no teste e mantém uma forte relação com o teatro até hoje. Já trabalhou em cerca de 30 peças como atriz e produtora. E também na direção, no recente musical "Do Capão pro Mundo". Nos palcos, sua relação quase filosófica com o corpo desabrochou de vez. "Minha sensação era a de que, finalmente, eu havia encontrado meu lugar na Terra."

Claro que, se completude existencial pagasse contas, uma parte considerável dos empregos de hoje sequer existiriam, e Abhiyana começou também a organizar eventos corporativos. Um trabalho, ela faz questão de deixar claro, pelo qual é grata. 

Eu não faço esses trabalhos rosnando. Mas minha cabeça está cada vez mais em outros lugares. Há um chamado, cada vez mais forte, da expressão, do nu, do erotismo.

As peças e coffee breaks ainda não eram o bastante, e Abhiyana decidiu dar a cara - e o resto do corpo todo - à tapa. 

Nudes e fantasia sexual

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Imagem: Amanda Perobelli/UOL

Abhiyana nunca teve problemas para falar sobre sexo em casa. Já dançava desde pequenininha e diz que sempre se deu bem com o próprio corpo. Se considera uma pioneira dos nudes, pois já gostava de fazer fotos nuas e mandá-las para namorados e peguetes. Por e-mail, que fique claro para a geração das redes sociais e do WhatsApp. Acredita que já tinha um olhar mais refinado para a pornografia desde mais nova, apesar de hoje considerar bem toscas algumas fotos daquela época. 

Mas foi durante um show da banda Opalas que Abhiyana, aos 27 anos, teve a epifania que a levaria, enfim, a compreender a real dimensão do sexo para sua vida.

Em um dado momento do show, eu percebi que poderia dar para a banda inteira. Tinha vontade transar com todos, e era um integrante mais diferente que o outro.

No dia seguinte ao show, Abhiyana enviou um e-mail para um grupo de amigos, com o título "cansei de ser puta". Nele, detalhou seu sentimento e o que gostaria de fazer com cada um dos músicos. "Eu sempre fui aquela personagem que trazia algo mais engraçado, tinha muita liberdade para falar merda e putaria", explica Abhiyana, "e a gente se divertiu muito com o e-mail."

De onde vinha aquele desejo? Quem era, afinal, Abhiyana? Ela estava prestes a descobrir. 

Cama, livro e semáforo

Abhiyana ainda não era exatamente uma conhecedora da literatura (em todas suas formas) erótica ou pornográfica. Isso mudou quando o produtor musical Carlos Miranda, identificando a aptidão da garota para o tema, começou a lhe municiar com livros e quadrinhos do gênero. 

Descobrir o quadrinista italiano Milo Manara, por exemplo, a encantou. "As mulheres do Milo Manara são algo marcante para mim. Não só pela beleza dos desenhos. Suas figuras femininas são sempre muito plenas. Estão sempre seguras, lindas, têm consciência do poder que exercem."

Como amante do aspecto gráfico, ou estético, do corpo nu, Abhiyana odeia essa obsessão pudica que impera até hoje (se não está pior).

Me dá um ódio isso de ter que tapar o corpo, as fotos. Quando você reflete, vê o quanto isso é pequeno. E perigoso.

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Imagem: Amanda Perobelli/UOL
Essa tendência bem brasileira, de sexualizar automaticamente a nudez, é, para a escritora, algo sem sentido, entre outras razões porque o desejo pode vir dos lugares mais inesperados. "Uma amiga me disse algo uma vez que me libertou e me fez pensar. Contou que estava no ônibus e viu uma senhora gorda com um vestido decotado. Os peitos dela balançavam, subiam e desciam, e aquilo deu um baita tesão."

Essa tomada de consciência originou, enfim, o primeiro livro de Abhiyana. "Pequenos Textos Putos e Ilustrações Pornográficas Aleatórias", lançado ano passado, é um compilado de textos baseados em experiências pessoas da autora, observações, histórias contadas por terceiros e alguma dose de ficção. 

Abhiyana juntou o que já vinha escrevendo há anos sobre sexo, mexeu em alguns trechos, eliminou outros e "decidiu chegar chutando a porta". Ou seja, quem se interessar em conferir o livro não deve esperar o pornô para massas recatadas de alguns best-sellers recentes.

O sexo sempre foi vendido como algo sujo. Isso é uma grande tristeza para a humanidade. O sexo é um grande presente para a humanidade. Hoje as pessoas não transam só porque querem ter filhos. Transam porque querem gozar, e isso é muito bom.

O leitor pode considerar, ou não, a obra de Abhiyana boa do ponto de vista literário. Mas, em seus textos curtos, e nas ilustrações do desenhista Carcarah, não há espaço para eufemismos, analogias e metáforas com vistas a suavizar a mensagem. Fira ou não a suscetibilidade alheia, a autora é direta e reta. 

Hilda Hilst e Charles Bukowski são, claro, referências para Abhiyana. Tanto que o livro abre com uma citação da autora brasileira:

"...e o que foi a vida?
Uma aventura obscena, de tão lúcida."

Abhiyana viabilizou a publicação do livro também via financiamento coletivo. Precisava de 14 mil reais, conseguiu 16 mil e uns quebrados. De mil exemplares, calcula que tenha sobrado menos de dez. 

A autora revela que teve receio em publicar o livro mesmo já escrevendo sobre sexo, e tirando fotos sensuais, há um bom tempo. "Eu não sabia exatamente o que era aquilo, o que eu estava fazendo...Fui meio na intuição, no cheiro das coisas, parecia que eu recebia pistas a cada dia. Não havia uma clareza, um projeto literário."

Do que tinha medo, exatamente? De ser perseguida por um maluco? De conhecidos não falarem mais com ela depois que lessem o livro? Até hoje ela não consegue explicar. "Era um medo difuso."

A recepção ao livro foi positiva. Muita gente no lançamento e nenhuma ameaça. Mas, para um autor brasileiro, "sucesso" não significa livros vendidos. Vendo a pilha de exemplares que se acumulava em casa, Abhiyana resolveu tomar uma providência: vendê-los no semáforo. 

"Lembrei de um farol na avenida dos Bandeirantes que está sempre travado e tem vários vendedores. Coloquei um vestido, uma meia arrastão, uma bolsa, meti os livros nela e saí para vender", conta Abhiyana. 

Um dia antes, ela foi ao cruzamento conversar com os outros vendedores ambulantes que faziam ponto no lugar. Explicou que iria se juntar a eles para vender livros. Eles aceitaram a companhia. 

"Vendi uns livros no primeiro dia, mas foi uma sensação estranha. As pessoas me lançavam olhares do tipo 'que p...é essa?'", lembra a autora. Por mais que estivesse se arriscando, porém, ela também experimentou momentos positivos. "Um cara ficou muito envolvido com a minha história. Ele parou o caminhão em cima da calçada, foi um transtorno."

Abhiyana depois mudou para a Avenida Paulista. Um amigo montou uma barraca para ela expor os livros. "Muita gente me ignorava. Mas foram momentos interessantíssimos, de trocas com as pessoas."

O orgasmo e o conservadorismo

Para Abhiyana, o orgasmo tem uma dimensão muito mais ampla que apenas o de um prazer efêmero. "Uma mulher que tem um orgasmo dificilmente será paralisada por alguma coisa. Se ela entendeu esse lugar dentro dela, essa importância, pode até tropeçar em uma coisa ou outra, mas não parar. O orgasmo tem um valor quase existencial. O sexo, a pornografia, são intrínsecos ao ser humano."

A escritora acredita que o prazer das mulheres é muito mais "rico, minucioso, plural" e que o sexo só tem a ganhar se elas voltarem seu "olhar, sensibilidade e beleza" para a questão. E o leitor que, neste momento, imagina que Abhiyana não entende de culpa e sempre foi uma mulher 100% bem resolvida, possivelmente irá se surpreender. 

"Fui evangélica por um momento na minha adolescência. Como sempre gostei de trabalhar essa parte espiritual desde pequena, passei por algumas religiões. E foi muito forte. Eu tinha acabado de perder a virgindade de uma forma muito linda, com um namorado, éramos apaixonados. Passávamos a tarde fazendo amor, se descobrindo. Minha mãe estava muito doente e fui parar numa igreja evangélica. Me entreguei aquilo até virem me dizer que era pecado trepar antes de casar."

Tudo o que o Brasil cada vez mais conservador de hoje não quer é uma mulher escrevendo sobre pornografia. Muito menos uma com coragem para postar uma foto com a frase "ele não" escritos nas nádegas. Em letras garrafais. Nada mais natural, então, que o sentimento de Abhiyana em relação às eleições vindouras seja apenas um: medo. 

"É muito triste você ver esse retrocesso. É um tiro no pé. Tenho muito medo de ter que voltar a falar de coisas que nós já vimos."