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"Legalize Já" é bromance sobre o Planet Hemp, os anos 90 e os dias de hoje

Matias Maxx

Colaboração para o UOL, no Rio

18/10/2018 04h00

"Não é só sobre maconha, é sobre liberdade!", diz o rapper Skunk. "Mas é maconha pra todo lado", responde o baixista Formigão. O diálogo resume o filme "Legalize Já - Amizade Nunca Morre" e também a trajetória da banda Planet Hemp. Como o subtítulo entrega, trata-se de uma biografia dos primeiros anos da banda contada através do "bromance" entre Marcelo Peixoto e Luis Antônio, respectivamente Marcelo D2 e Skunk, interpretados majestosamente por Renato Góes e Ícaro Silva.

Dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, o filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira (18). Os fãs que curtirem têm mais um motivo para se empolgarem, em dezembro a banda ganha pela editora Belas Letras a biografia "Planet Hemp: Mantenha o Respeito", um calhamaço de 500 páginas, fruto de uma pesquisa de dois anos feita pelo jornalista Pedro de Luna.
 
Embora sua foto conste em uma homenagem no encarte de "Usuário", muitos fãs não conhecem a história de Skunk, que morreu de complicações de HIV pouco antes da banda estourar com seu primeiro álbum. O primeiro encontro entre Marcelo e Skunk acontece na única cena de ação do filme, quando eles se esbarram durante um "rapa", em um camelódromo no centro do Rio, quando perdem mercadorias e pertences para a PM.

Horas depois, os mesmos policiais liberariam o material de volta mediante uma pequena propina. À época, Marcelo era camelô e vendia na avenida Treze de Maio camisetas de bandas de rock. A estampa de uma camiseta que o D2 usa (no caso do Dead Kennedys) é justamente o que quebra o gelo entre os dois personagens. Com saudosismo ou alívio, quem viveu no início dos anos 90, ainda na era pré-internet, inevitavelmente vai se identificar com esse momento em que o conhecimento acerca de determinada banda que se carregava no peito era medido e julgado, assim como o perrengue que era descolar e copiar as fitinhas K7 ou VHS com seus sons e clipes favoritos.

A coloração lavada, quase preto e branca, do filme dá um ar mais sombrio que nostálgico desse Brasil, que engatinhava na redemocratização e que apostou suas fichas num charlatão cuja promessa era trazer sangue novo à política e se revelou ser apenas mais um dos marajás que ele mesmo dizia caçar. Um Brasil onde falar de maconha ou sexualidade era tabu -S kunk se encaixava em algum lugar da sigla LGBTQ+ - e onde a PM se sentia bem mais a vontade para distribuir tapas na cara e ameaçar alguém só pela cor da pele - se você ainda não percebeu, Skunk também era afro-brasileiro.

Perigo dizer que o Planet Hemp foi a banda mais importante da década de 90 não só por dar uma cariocada na tendência internacional de fundir rap com rock, mas por confrontar os paradoxos, injustiças e covardias em suas letras. No decorrer de "Legalize Já" testemunhamos a construção da letra "Futuro do País", que culmina na sua gravação, cena executada com tanta emoção pelos atores que vai dar arrepios em qualquer fã que já ouviu a versão da demo original, relançada em 1996 na raríssima coletânea "Hemp New Year", distribuída na época como mimo da gravadora e hoje facilmente encontrada nas plataformas digitais.
 
A película termina em 1994 quando Skunk morre, um ano antes do sucesso de "Usuário". Em 1997, após um show em Brasília os seis integrantes da banda ficaram cinco dias presos, acusados de apologia às drogas. O processo acabou sendo arquivado e catapultou não só a banda como o discurso canábico no Brasil.

Em 2011 o episódio foi citado no julgamento da ADPF187 no STF, que legitimou a Marcha da Maconha e derrubou a questão da apologia às drogas no país. Quase 25 anos depois do período retratado no filme, a banda continua lotando shows com o sonoridade tão atual quanto seu discurso, como na letra de "Futuro do País", que em um de seus versos lamenta: "Porque um povo sem cultura me dá insônia, qualquer dia desses voltaremos a ser colônia".