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Elvis Costello sobre câncer: "Fiz cirurgia e acabou, minha vida não corre risco"

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Elvis Costello posa no hotel Redbury, em Nova York, para promover o lançamento de "Look Now" Imagem: Matt Licari/Invision/AP

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

12/10/2018 04h00

Unfaithful Music & Disappearing Ink

As notícias sobre o câncer do cantor Elvis Costello foram exageradas. O britânico, que nesta sexta-feira (12) lança "Look Now", novo álbum com o grupo The Imposters, vem se recuperando bem de um procedimento cirúrgico que esperava manter sob sigilo mesmo de parentes e amigos mais próximos. Segundo ele, para evitar alarmismo. Mas havia uma sensacionalista imprensa britânica no meio do caminho.

"Para ser sincero, eu nem iria contar a ninguém, para não criar preocupação desnecessária. Mas eu calculei mal o tempo de recuperação. Comecei a fazer shows e percebi que não tinha a energia necessária", confessa ao UOL Costello, que recebeu o diagnóstico no fim de maio e só no início julho divulgou a notícia, que, segundo ele, foi superdimensionada por jornalistas ingleses.

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Capa de "Look Now" Imagem: Reprodução

Em nota divulgada nas redes sociais, o cantor revelou que, embora "maligno e agressivo", o tumor retirado era pequeno e por isso os fãs não deveriam se preocupar. Em qual parte do corpo? Ele prefere não dizer. "Não acho que isso seja de interesse de ninguém. Digo apenas que estou feliz por já ter passado, e nada está ameaçando minha vida agora."

Página virada, Elvis está com novo sobrenome: trabalho. Com disco na praça, em que mistura rock, "melodias pouco comuns" e composições de Burt Bacharach e Carole King, ele pretende cair na estrada em breve, possivelmente passando pelo Brasil, onde esteve apenas duas vezes. Também está nos planos lançar por aqui seu livro memórias, "Unfaithful Music & Disappearing Ink" (2015), em que que revisita vida e os mais de 40 anos de carreira em quase 700 páginas.

Aos 64 anos, Costello é tido como um dos grandes compositores do pop das últimas décadas, com 25 discos solo gravados e múltiplos prêmios no currículo, incluindo um Grammy. Mas há quem ainda insista em rotulá-lo como o "cantor de 'She'", versão de Charles Aznavour gravada para a trilha de "Um Lugar Chamado Notting Hill" (1999). Para ele, tudo certo. "Cheguei à conclusão de que muita gente só conhecer uma música é melhor do que ninguém conhecer nenhuma", brinca.

Matt Licari/Invision/AP
O cantor Elvis Costello Imagem: Matt Licari/Invision/AP

UOL - Seu último disco solo, "National Ransom", saiu em 2010. Por que demorou tanto para lançar um novo trabalho?

Elvis Costello - Demorei porque queria que o disco soasse tão bom quanto soa. Queria ter certeza de que ficasse bom. Na verdade, nós terminamos rápido desde que decidimos entrar em estúdio. Ultimamente, não tenho ficado muito parado. Tenho feito shows constantemente. Também estive envolvido em um disco com letras de Bob Dylan ["Lost on the River: The New Basement Tapes"] e um com o The Roots ["Wise Up Ghost"], que são muito diferentes um do outro. Meu plano agora é tocar meus projetos solo. Finalizei meu livro de memórias, de 600 páginas, e espero que seja traduzido para o português.

Como definiria seu novo disco?

Eu o chamaria de "uptown pop", porque eu estava pensando em um disco com uma sessão rítmica forte, ligado ao rock and roll mas também com um certo espaço para harmonias incomuns. É o caso de músicas como "Under Lime" e "Dishonor the Stars". Estou com duas compostas por Burt Bacharach e outra que ele me ajudou a finalizar, que escrevi com Carole King. Como coprodutor, eu arranjei a orquestração e as partes vocais. Tivemos ideias musicais muito ricas. Queria garantir que conseguíssemos expressá-las.

Você assustou os fãs este ano revelando que tratou um câncer. Como está sua saúde agora?

Queria esclarecer esse assunto, porque muitas pessoas mandaram mensagens de apoio, e algumas delas ficaram alarmadas pelo que foi escrito em jornais ingleses. Alguns, não sei por que, preferiram dramatizar dando a entender que eu não estava com boa saúde. Na verdade, nunca fiquei doente. Tive muita sorte de detectar esse problema em um exame de rotina e de ser tratado rapidamente com cirurgia. Fiz uma cirurgia e acabou, não corro risco.

Para ser sincero, eu nem iria contar a ninguém para não criar preocupação desnecessária para amigos e minha família. Mas eu calculei mal o tempo de recuperação. Comecei a fazer shows e percebi que não tinha a energia necessária. Eu poderia ter continuado, mas não estava satisfeito com meu desempenho e estava sofrendo com isso. Então tirei um tempo maior de descanso para cuidar de mim.

Recentemente fiz um show em Chicago, e não houve nenhum problema. Me senti ótimo, com energia. Toquei por 1 hora, no sol quente. Foi incrível. Acontece que eu estava tentando não fazer drama sobre minha saúde. Infelizmente, tenho amigos que lidam com problemas muito mais sérios. Seria muito desrespeitoso com eles se eu resolvesse demonstrar que estava passando por uma grande crise.

Por que você não revelou o local do tumor?

Prefiro não dizer. Não acho que seja de interesse de ninguém. Digo apenas que estou feliz por já ter passado e nada está ameaçando minha vida agora.

Tabatha Fireman/Redferns/Getty Images
Elvis Costello no festival Love Supreme, em Glynde, na Inglaterra Imagem: Tabatha Fireman/Redferns/Getty Images

Você cresceu nos anos 1960 e se lançou nos 1970. Como se sente no mundo de hoje, com o ressurgimento de ideias e políticos extremistas?

Hoje conhecemos o extremismo a partir do que chega até nós no celular, no computador. Mas essas ideias que estão pairando no ar já estavam no coração das pessoas. Os bons e maus pensamentos sempre estiveram por aí. E, quando você grita coisas odiosas, elas acabam voltando contra você. Mas acho que é um erro dizer que essa é a pior época da história. Dizer isso seria desonrar as pessoas que sofreram mais do que jamais vamos sofrer. Mas isso não significa, por exemplo, que você não deva lutar pelo que acredita. Só acho que as pessoas não devam gritar um slogan e simplesmente ir embora. Você tem que continuar lutando. Também temos de ter a sensibilidade de entender que existem pessoas que acreditam de verdade em coisas que achamos loucura. Mas, sei lá, não acho que o papel do compositor seja o de dizer o que as pessoas devam ou não pensar.

Você é mais conhecido no Brasil pela regravação de "She", de Charles Aznavour, do que por suas músicas próprias. Isso te frustra?

"She" é o motivo de eu visitar tantos países. ["Um Lugar Chamado Notting Hill"] Foi um filme muito bem-sucedido. Eu não poderia ser ingrato pelos convites para tocar em lugares que provavelmente eu nunca teria chance. Fui à Coreia recentemente. O filme e a música fizeram muito sucesso lá. O público teve um choque quando percebeu que minhas outras músicas não soavam daquele jeito. Cheguei à conclusão de que muita gente só conhecer uma música é melhor do que ninguém conhecer nenhuma. E eu sei que há muitas pessoas no mundo que conhecem minhas músicas, e elas sabem que há muito contraste no meu repertório. Tenho músicas intimistas e agressivas, muitas ainda a serem descobertas.

Matt Licari/Invision/AP
Elvis Costello Imagem: Matt Licari/Invision/AP

Quando voltará ao Brasil?

Espero que meu novo disco me leve ao Brasil. Não toco aí com muita frequência. Só visitei duas vezes. Claro que gostaria de tocar mais. Mas é importante ter equilíbrio para satisfazer a todos, aos promotores de shows e a nós. Estamos em um negócio e não podemos perder dinheiro deliberadamente. Às vezes é difícil conseguir tocar. Normalmente você só consegue como parte de um festival. Acho que esse disco, apesar de ser cantado em inglês, não é limitado geográfica ou musicalmente. Ele tem um estilo internacional, e por isso talvez haja oportunidade de voltar ao Brasil em breve.

Você é considerado um dos grandes compositores da música pop internacional. O que acha do pop atual?

Existe música pop que parece ser feita por algoritmo e música pop que parece ser feita por humanos, com profundidade. Mas eu não sou crítico. Se você olhar para qualquer época do pop, vai encontrar o mesmo contraste entre a fórmula e uma expressão realmente pessoal. Foi assim nos anos 1930, quando escreviam para musicais da Broadway. Nos anos 1950, quando compunham músicas da moda e grandes canções de rock. Nos anos 1970, quando havia a disco e o punk. Há formas diferentes de músicas em todas as épocas.

E por que o rock perdeu tanta força no mercado? O estilo desidratou?

Não diria isso. O rock é uma música particular para mim. É uma mistura surpreendente de estilos, como se fosse resultado de um acidente. Ele acontece quando um tipo de música colide com outro, assim como aconteceu com o jazz. O rock, com o tempo, acabou virando uma fórmula. Eu não gosto desse tipo de expressão. Para mim, é entediante. Hoje existe muita música dançante com parte rítmica incrível, que não necessariamente tem melodia pop. Por que não escutamos tudo e pegamos as coisas boas, sem preocupação em teorizar? Eu não penso em rótulos. Para mim, tudo é música

Falando em rótulos, a imprensa britânica costuma te associar à cena do chamado pub rock. Acha que as bandas daquela época, como o Dr. Feelgood e o Brinsley Schwarz, foram subestimadas?

Olha, ninguém que eu conheço, das bandas daquela época, se chamava desse jeito. Isso foi inventado pelas pessoas para tentar explicar algo que estava acontecendo de forma espontânea. Nunca pensei desse jeito. Eu nem era um músico profissional naquela época. Ainda trabalhava em escritório e não havia lançado nada. Eu era apenas um ouvinte e fã. De repente, gravei um disco e estava na capa de uma revista. Depois, excursionando nos Estados Unidos. A verdade é que não tenho nenhum apego a esses rótulos. Quando você faz sucesso, as pessoas criam esses rótulos e o colam em você, e os rótulos vêm e vão. Uma hora você é isso e depois é aquilo. Enquanto isso, você está aprendendo coisas, tendo experiências diferentes, cometendo erros. Às vezes esses erros criam algo ótimo. Nunca sentei na minha casa e pensei: "Eu quero muito soar pub rock ou new wave". Isso seria tolo. Só estou tentando compor música e pensando no próximo show.

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