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Nick Cave relembra quando viveu em São Paulo e alfineta Roger Waters

Carlos Messias

Colaboração para o UOL

11/10/2018 22h33

O cantor e compositor australiano Nick Cave desembarcou em São Paulo nesta quinta-feira (11) para o show que realiza no domingo (14), no Espaço das Américas. No final da tarde, o músico concedeu uma coletiva de imprensa no hotel Fasano, no bairro Jardim Paulistano. Bem-humorado, já começou a entrevista relembrando os anos em que morou em São Paulo, entre 1990 e 1993. Também aproveitou para alfinetar o inglês Roger Waters, que está em turnê pelo Brasil e que criticou publicamente o australiano por se apresentar em Israel no ano passado. O ex-Pink Floyd faz parte de um movimento chamado Artists for Palestine UK, que visa boicotar o estado judaico em prol da Palestina. “Que babaca”, declarou Cave.

“Como vão as coisas no Brasil no momento?”, ironizou o músico, que mencionou a ascensão da extrema-direita no país, comparando-a ao trumpismo. “Me parece um novo nível de ódio”, comentou. ”Você acha que as coisas estão melhorando, no sentido de que várias questões importantes para nós estão evoluindo. Mas, de vez em quando, sempre aparece alguma coisa como Trump, por exemplo, que manda tudo de volta para a Idade das Trevas, o que parece estar acontecendo aqui. Isso é muito desgastante”, avaliou o cantor. “Mas, se você se distanciar disso e olhar para trás, verá que o mundo melhorou bastante.” 

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Cave demonstrou nostalgia ao relembrar o passado paulistano. “É muito empolgante para mim estar de volta. Faz muito, muito tempo. Eu tive uma vida em São Paulo, um filho brasileiro [Luke Cave], que agora tem 27 anos, um menino lindo”, comentou o australiano. “Foi estranho entrar de carro de volta em São Paulo, parece que a cidade está mais limpa. Há 25 anos não era um lugar que entraria em um guia turístico”. 

Neste retorno disse estar ansioso para voltar à Vila Madalena, o bairro onde viveu. “O Bar do Pedro [Mercearia São Pedro] ainda está lá?”, quis saber. “Passei alguns dos dias mais emotivos e divertidos da minha vida naquele lugar. Era uma época diferente, em que eu podia simplesmente sentar em um bar, beber e ficar quieto. Eu vou voltar lá para ver o Pedro”, declarou. 

Nick Cave também falou sobre como seu trabalho mudou com a temporada no país, a começar pelo álbum "The Good Son" (1990), que foi gravado em estúdio paulistano e representou uma guinada artística em sua discografia, a começar pela faixa de abertura, uma interpretação do hino cristão “Foi na Cruz”. “Religião sempre teve um papel importante no que eu faço, no sentido de que estou sempre questionando, sempre tentando trabalhar meu posicionamento, no qual nunca consegui me definir”, declarou.

“Com certeza o Brasil teve um grande impacto em tudo que fiz ao longo daqueles três anos. Não foi intencional, não vim para cá para ver a cultura e ter ideias. Eu vim porque estava apaixonado por uma garota e acabei ficando por três anos. Sou uma pessoa criativa e meio que absorvo o que acontece à minha volta. E é difícil estar aqui sem que tenha um impacto profundo sobre você. O que eu estou tentando dizer é que de fato morei aqui. Não vim simplesmente para a Bahia, usei umas percussões e fui embora. Essa nunca foi minha intenção.”

Cave também expôs suas impressões da música brasileira, que disse amar. “Não teve exatamente um impacto no que eu fazia musicalmente, acho a música brasileira muito difícil e inteligente para mim, os ritmos vão além”, reconhece ele, que revelou estar trabalhando em um novo álbum após "Push the Sky Away" (2013) e "Skeleton Tree" (2016), compostos em parceria com o seu parceiro de Bad Seeds, Warren Ellis. “Nesse novo álbum estamos indo na mesma direção, só que indo muito mais longe. Formará uma trilogia com os dois anteriores.”

O australiano também diz celebrar o encerramento da turnê na América Latina, tendo passado por Cidade do México, Santiago, Montevidéu e Buenos Aires. “Vir para a América do Sul está sendo extraordinário. Obviamente bem diferente da última vez em que viemos [fez três shows no Brasil em 1989]. Na época tocamos em clubes menores para um público ambivalente, algumas pessoas gostavam, outras não, Desta vez não tem ambivalência, as pessoas estão vidradas no show desde o princípio”, ressaltou. E disse que o público de São Paulo não perde por esperar. “Como encerraremos a turnê por aqui, vamos sair com uma paulada”, assegurou.

Errata: o texto foi atualizado
12/10/2018 às 13h58
Diferentemente do que foi publicado na primeira versão do texto, Roger Waters não lidera um movimento de artistas contra Israel. Ele faz parte de um movimento que defende o boicote ao país por causa da questão palestina. O erro foi corrigido.

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