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Por que "Nasce Uma Estrela" fascina Hollywood há mais de 80 anos

Bradley Cooper e Lady Gaga em cena de "Nasce Uma Estrela" - Divulgação
Bradley Cooper e Lady Gaga em cena de "Nasce Uma Estrela" Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

10/10/2018 04h00

Todo mundo sabe que Hollywood ama fazer filmes sobre si mesma. Dos ácidos e clássicos ("Crepúsculo dos Deuses", de 1950) aos açucarados e recentes ("La La Land: Cantando Estações", de 2016), o cinemão norte-americano gosta de pensar que o showbusiness é um palco perfeito para histórias de triunfo e decadência. E também para histórias de amor.

Nenhum dos filmes sobre filmes, no entanto, teve o mesmo impacto do "Nasce Uma Estrela" original, de 1937, estrelado por Janet Gaynor. O resultado (artístico e comercial) do longa foi tão satisfatório que Hollywood decidiu recontar essa história não uma, mas três vezes - em 1954, com Judy Garland; em 1976, com Barbra Streisand, transplantando a história do cinema para música; e agora, com Lady Gaga..

Com a quarta versão programada para chegar aos cinemas nesta quinta-feira (11), o momento é oportuno para ver ou rever esses filmes e tentar entender o fascínio exercido por eles. É uma jornada cinematográfica e tanto. Vem com a gente:

O original

Nasce Uma Estrela (1937) - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A história de "Nasce Uma Estrela" começa, curiosamente, cinco anos antes mesmo do filme de 1937. Em 1932, George Cukor dirigiu "Hollywood" (1932), longa sobre uma jovem garçonete que, ao conhecer um diretor alcoólatra, consegue realizar o sonho de ser estrela de cinema. 

Com Constance Bennett no papel principal, o filme não foi um grande sucesso, mas é inconfundivelmente a "inspiração" para o primeiro "Nasce Uma Estrela". Tanto é assim que Cukor foi o primeiro diretor abordado pelo estúdio para dirigir o longa, mas recusou esbravejando sobre um possível plágio.

Sem Cukor, "Nasce Uma Estrela" se contentou com uma segunda escolha que não deixava nada a dever: William A. Wellman, o homem que assinou "Asas" (1927), primeiro vencedor do Oscar de melhor filme. Totalmente em cores, uma raridade para a época, o filme trocou os nomes dos personagens e pesou muito mais as tintas trágicas da história. 

No papel principal, Janet Gaynor eternizou a figura da garota "bobinha" que segue os seus sonhos com a ajuda do ator desiludido e alcoólatra (Fredric March), e por sua vez se recusa a deixá-lo para trás quando atinge o estrelato e o vê se afundando na bebida. Sua Esther, mais tarde rebatizada com o nome artístico Vicky Lester, é a mais idealista das versões de "Nasce Uma Estrela", mas a atriz se recusa a deixá-la se tornar um símbolo de complacência - no fim das contas, essa é a história de uma mulher forte o bastante para lutar pelo que ama.

Impossível negar, no entanto, que aqui o astro de verdade é March. Quando aceitou o papel de Norman Maine, o ator americano já tinha um Oscar na prateleira, por "O Médico e o Monstro" (1932) - mais tarde, ganharia outro, por "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (1946). Com uma atuação sutil e envolvente, ele cria o retrato mais sentido, dentre todas as versões, do personagem masculino da história.

De certa forma, essa é também a versão mais doída. O melodrama do diretor Wellman não é disfarçado por números musicais nem diminuído pela qualidade geral do filme. É direto e comove, com um final triunfante e lendário.

O melhor

Nasce Uma Estrela (1954) - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Em certo ponto da segunda versão de "Nasce Uma Estrela", lançada em 1954, Esther/Vicki (Judy Garland) vai à estreia do seu primeiro filme com o amado Norman (James Mason). Por quinze longos minutos, mergulhamos no filme dentro do filme para acompanhar o número musical que coroa a estreia de Vicki nos cinemas.

Intitulado "Born in a Trunk", o número é uma extravagância musical tremenda, com múltiplos cenários elaborados e elegantíssimos, um show de vocais e interpretação de Garland, e uma significância temática enorme. Só há um problema, por assim dizer: nada na sequência foi dirigido por George Cukor, que aceitou fazer o novo "Nasce Uma Estrela" após recusar o de 1937.

À altura das filmagens de "Born in a Trunk", Cukor já estava aproveitando uma temporada de férias na Europa, que ele achou que merecia depois de sofrer para finalizar a maioria do filme. Roger Edens, mentor artístico de longa data de Garland, assumiu a direção do número musical no lugar de Cukor.

O set do "Nasce Uma Estrela" de 1954 refletiu de maneira triste a história que o filme contava. Garland, então com 32 anos, estava longe de ser a mesma garota que interpretou Dorothy em "O Mágico de Oz". Mergulhada no vício em drogas e em péssimo estado de saúde, ela provocou atrasos na produção. A grande atriz faria apenas outros cinco filmes antes de sua morte, em 1969, aos 47 anos.

Para completar, a versão final do filme, que foi parar nos cinemas em 1954, desagradou ao diretor Cukor. Sua edição original tinha pouco mais de três horas de duração, mas o estúdio cortou, sem sua supervisão, mais de meia hora da obra. Uma versão restaurada, com pouco mais de 2h50, foi editada mais tarde para lançamento em home vídeo.

A "deserção" de Cukor não prejudica o filme, no entanto. "Nasce Uma Estrela" é um dos grandes espetáculos já armados por Hollywood, um filme que abraça a própria artificialidade com entusiasmo, e encontra formas geniais de ressoar emocionalmente dentro dela. Garland expressa imensa verdade como Esther/Vicki, se entregando de corpo e alma para o papel, enquanto Mason modula sua performance sabiamente na pele de Norman.

Esta versão de "Nasce Uma Estrela" é também a mais amarga, a mais incisiva em mostrar que Hollywood realmente presta pouca atenção no bem-estar de seus astros e estrelas. Em uma extensão maior, o quanto pouca gente realmente se importa com você quando você está se autodestruindo. É um filme denso e trágico sobre vício, mas não é deprimente: prefere mostrar o triunfo épico da vida. 

Aquele com a Barbra

Nasce Uma Estrela (1976) - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Os dois primeiros "Nasce Uma Estrela", de 1937 e 1954, têm muitas semelhanças. De fato, cenas e diálogos inteiros são "colados" de um para o outro. Não é o que acontece com o "Nasce Uma Estrela" de 1976, que faz uma primeira mudança fundamental: ao invés de se passar nos bastidores do cinema, se passa nos bastidores do mercado musical.

Nada mais natural para um filme feito nos anos 70, em que ser astro de cinema não trazia mais aquele glamour. Foi a época dos filmes rebeldes de Scorsese e Coppola, em que os astros eram caras e moças mais pé no chão, menos preocupados com as fofocas e com a sua própria imagem, como Robert De Niro, Al Pacino e Meryl Streep. Enquanto isso, os astros do rock e do pop viraram figuras cada vez mais idealizadas.

O "Nasce Uma Estrela" de 1976 faz outras mudanças contundentes, aumentando a independência de Esther e eliminando aspectos que seriam considerados antiquados das versões antigas. Uma pena que o filme não faça isso de forma integrada com a história, adquirindo a mania irritante de dar uma piscadela para o público com o seu diálogo, como se quisesse dizer: "Olha aqui, isso aconteceu nos outros filmes e nesse não! Legal, né?".

A contrário do "Nasce Uma Estrela" de 1954, que foi filmado com uma protagonista fora de controle, este tinha uma Barbra Streisand no auge de sua fama e de suas habilidades. E ela exerceu sua influência, moldando o filme de forma fundamental - tanto que o diretor Frank Pierson ficou "mordido", escrevendo dois artigos em revistas de entretenimento diferentes ofendendo sua protagonista.

Kris Kristofferson interpreta o protagonista masculino, o rebelde astro do rock rebatizado de John Norman Howard. Sua atuação no papel de "machão" não chega a convencer, e o espectador fica se perguntando se Elvis Presley, a outra opção dos produtores para o papel, não faria melhor. O rei do rock acabou recusando o projeto graças ao seu empresário, que o convenceu a pedir por mais dinheiro e mais crédito do que Streisand.

O filme não é tão bom quanto os anteriores. Alguns diálogos são francamente risíveis, e este "Nasce Uma Estrela" quase consegue desperdiçar as forças naturais da história que conta ao lidar mal com ela. Mas é impossível negar que Streisand está divina. O filme acaba com uma tomada longa de oito minutos no rosto da atriz, enquanto ela canta uma mistura de canções do filme - é uma daquelas cenas que fazem um arrepio gostoso descer pela espinha.

O novo

Nasce Uma Estrela (2018) - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Só assistindo para saber como o novo "Nasce Uma Estrela" vai se comparar com os anteriores. Os sinais, no entanto, são bons: a crítica amou o filme de estreia de Bradley Cooper na direção e se derramou em elogios para a performance dele e da sua escolhida para o papel principal, Lady Gaga.

Assim como o filme de 1976, o longa se passa no mundo da música. A julgar pelo trailer, ele também se espelha em alguns acontecimentos do "Nasce Uma Estrela" de Streisand. As canções, liberadas na última sexta (5) em um álbum de trilha sonora, foram quase todas compostas por Gaga, Cooper e um time de colaboradores.

Burburinhos de uma presença significativa do filme no Oscar 2019 já começaram com a exibição dele nos festivais de cinema. É sinal que a força desse conto trágico sobre temas universais como luto, superação, triunfo e decadência, ainda não se dissolveu.