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Stan Lee na DC e heróis parecidos: 5 curiosidades da rivalidade Marvel x DC

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Capa da HQ "Superman Vs O Incrível Homem-Aranha", lançada em 1976 Imagem: Reprodução

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

05/10/2018 04h00

Você é Marvel ou DC? Esta pergunta, que ainda é relevante no mundo dos quadrinhos, tinha significado muito maior na década de 60, quando a empresa comandada por Stan Lee começou a criar vantagem sobre a rival. Mas a rixa de mais de 50 anos guarda várias curiosidades que atraem tanto o fã incondicional de HQs quanto o leitor casual, que realmente só se importa com os filmes de super-heróis.

Reed Tucker reuniu no livro "Pancadaria - Por Dentro do Épico Conflito Marvel Vs. DC" uma história cronológica do maior embate do mundo nerd. Em mais de 300 páginas, o autor passeia pela diferença entre as empresas, a guerra para conseguir os melhores artistas, além de personagens tão parecidos que é inegável pensar que um roubou o outro nesses casos. Selecionamos 5 momentos curiosos do livro.

Certinhos x Descolados

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Capa de "Homem-Aranha e Batman", lançado em 1995 Imagem: Reprodução

Quando a Marvel começou a ser relevante no mundo dos quadrinhos, a ponto de preocupar a DC, o responsável pela virada foi Stan Lee. O então editor da empresa bolou uma história muito mais próxima da realidade, e inventou personagens comuns, problemáticos e que lutam não apenas contra os vilões, mas também contra o peso de ser um super-herói. "Tentamos injetar todos os tipos de realismo, como chamamos, nas histórias", disse Lee em uma entrevista de rádio em 1968. "Nós dizemos a nós mesmos que só porque você tem poderes não significa que não possa ter caspa, dificuldade com as meninas ou ter problemas para pagar suas contas".

No início dos anos 60, a diferença para a DC poderia ser considerada como a rivalidade entre Beatles e Rolling Stones. Por um lado você tinha aqueles garotos com cabelo penteado e cantando músicas sobre o amor, enquanto a distorção crua de Mick Jagger e companhia atingiam outro público. A DC já era consagrada nos quadrinhos com Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman e Batman, todos com um passado importante e seguro, justamente a cara de quem trabalhava na equipe.

"Os heróis da DC eram insossos, mais estáveis e menos propensos a serem consumidos por suas emoções. Eles tinham menos fraquezas humanas e pouca caracterização além de fazerem o bem. Como resultado, eles pareciam mais recortes de papelão do que pessoas reais", resume Tucker no livro. Aos poucos a situação foi mudando, e neste meio-termo houve muitos erros. Tentativas escancaradas da DC tentar ser mais jovial, com uma pegada semelhante à da Marvel, mudanças no desenho para sair da disciplina anterior e, principalmente, recorrer a artistas da rival.

Stan Lee na DC

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Capa da edição de "Imagine..." para Lanterna Verde, escrito por Stan Lee Imagem: Reprodução

Pois é, quem imaginaria que a grande referência da Marvel iria "pular a cerca" um dia? E isso aconteceu. A primeira tentativa foi há muitas décadas, mas não saiu da conversa. A intenção da DC era simples: roubar aquele que havia tomado a liderança da indústria dos quadrinhos. Mas o pai do Homem-Aranha e do Hulk finalmente teve seu nome gravado em um especial da rival em 2001, quando "Imagine..." ganhou o sinal verde.

Claro que o choque foi geral, como que o homem por trás de todo o sucesso da Marvel iria mudar o jogo assim? E pensar que tudo começou quando a Marvel faliu. A quebra de contrato de Lee permitiu que trabalhasse em outras empresas e ele não recusou o convite do produtor Michael Uslan em reinterpretar os principais heróis da DC. "Lee estava vindo para a DC. O homem que cocriou o universo da Marvel ia escrever para a Distinta Concorrência. Para compensar o dinheiro que Lee perdeu quando seu contrato com a Marvel foi cancelado, a DC concordou em pagar-lhe US$ 1 milhão pela série".

"Imagine..." foi composta por 13 edições fechadas, permitindo que Lee explorasse as origens de Superman, Batman, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde. Apesar da jogada revolucionária, a série não impressionou os críticos e não vendeu conforme o esperado. "Foi um golpe, francamente", diz a ex-editora da DC, Joan Hilty. "Não havia nada de orgânico em Stan Lee imaginando o Aquaman. Foi uma ideia divertida e breve, mas não sei exatamente qual foi o motivo".

Eu já não vi isso antes?

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O Homem-Coisa, da Marvel, e o Monstro do Pântano, da DC Imagem: Reprodução/Montagem

Dois gênios presos a uma cadeira de rodas viraram personagens de quadrinhos em 1963, no que é uma das questões mais estranhas da rixa entre a DC e a Marvel. A Patrulha do Destino surgiu para mudar a série "My Greatest Adventures", mostrando um grupo pronto para combater o crime. Os heróis nada típicos da empresa chegaram às bancas em abril. Três meses depois, a Marvel vinha forte com X-Men, com uma história semelhante.

"As chances de que duas editoras de quadrinhos, de forma completamente independente, lançassem um novo gibi sobre uma equipe de aberrações lideradas por um mentor com intelecto de gênio, numa cadeira de rodas, num intervalo de algumas semanas, pareciam tão prováveis quanto o Aquaman investir no Seaworld. As semelhanças eram muito flagrantes para ser coincidência", escreve Tucker.

Para completar, em março de 1964, a Patrulha do Destino enfrentou a Irmandade Negra. Já os X-Men tiveram que se virar contra a Irmandade de Mutantes. Tanta coincidência já é demais. Acontece que realmente pode ter sido apenas isso. O autor explica que, com a logística na época para escrever, desenhar, letreirar e imprimir tudo, não seria viável uma cópia. Arnold Drake, o criador da Patrulha do Destino, aceitou o argumento no momento, mas reiterou após décadas que havia muitos "informantes" da Marvel na DC, já que dezenas de artistas trabalhavam para ambas as empresas.

Situação semelhante foi com o Monstro do Pântano. A DC criou o personagem e lançou sua primeira aparição em "House of Secrets", em julho de 1971. Dois meses antes, a Marvel tinha lançado sua própria criatura do pântano, o Homem-Coisa. "As similaridades entre eles eram impossíveis de ignorar. Suas origens, locais, ilustrações e a alarmante ausência de calças eram praticamente idênticos. E para confundir ainda mais as coisas, os principais arquitetos de ambas as criaturas -- Len  Weins e Gerry  Conway -- eram colegas de quarto na época", escreve Tucker. A DC desistiu de processar a Marvel após saber que a dupla dividia o mesmo teto.

Marvel comprando a DC

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Capa da série "Mulher-Maravilha", lançada entre 2011 e 2016 Imagem: Reprodução

Isso quase aconteceu -- e tudo culpa de Bill Sarnof, chefe da Warner Books. Resumindo, a ideia do executivo era que a DC licenciasse seus heróis para ninguém menos que a Marvel. O curioso é que esse boato já corria há muito tempo. Sarnof tinha falado com Stan Lee sobre incorporar os "novos" personagens, a Marvel deu uma oferta e não aconteceu mais nada. Nome forte da Marvel em 1984, Jim Shooter levou a proposta quente para Jim Galton, presidente da empresa, que não acatou a decisão. "Os personagens não devem ser bons, eles não vendem", analisou o chefão.

"Não, não, não! Aqueles idiotas é que não sabem vendê-los. Podemos fazê-los funcionar", retrucou Shooter, que arquitetou um plano. A ideia era que a Marvel começasse a publicar sete títulos da DC: Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Liga da Justiça e Superman, além de Novos Titãs e Legião dos Super-Heróis. As negociações começaram e previam que a Warner recebesse uma parcela das vendas.

O caso não foi para frente após uma ação judicial contra a Marvel aumentar a preocupação de empresa em criar um monopólio na indústria. Sendo assim, aquele não seria o momento ideal para pensar em uma junção com a DC. "Acho que teríamos feito aqueles personagens funcionarem", Shooter diz. "Eu trabalhei muito tempo na DC e conhecia aqueles personagens. Acho que teríamos nos saído tremendamente bem. Mas aí eu acho que seria mesmo um monopólio".

F*** a Marvel x F**** a DC

A última parte do livro explora como os filmes de heróis estão dominando a indústria cinematográfica. E claro que vem muita briga de um lado para o outro. Quando "Homem de Ferro" (2008) estreou, no mesmo ano de "Batman: O Cavaleiro das Trevas", o protagonista Robert Downey Jr. atacou sem dó nem piedade a concorrência pelo tom sério e dramático. "Essa não é a minha ideia do que quero ver em um filme. Aquilo é tão erudito e tão malditamente inteligente que eu com certeza precisaria de formação universitária para entender. Quer saber? F*** a DC Comics. Isso é tudo o que eu tenho a dizer".

Após o primeiro filme de Tony Stark, a Marvel começou o seu universo cinematográfico e virou uma referência em como criar filmes de entretenimento para o cinema. Mas a resposta também veio, desta vez com o diretor David Ayer, durante a estreia em Nova York de "Esquadrão Suicida" em 2016. O cineasta tomou o palco antes de apresentar a produção quando um membro da plateia gritou "F*** a Marvel!". No palco, o cineasta parou e gritou a mesma frase no microfone, em meio a aplausos e gritos de satisfação.

Após alguns dias, Ayer pediu desculpas e Stan Lee respondeu ao diretor da melhor maneira possível. Pelo Twitter, a lenda dos quadrinhos disse para ele não se sentir mal com toda essa polêmica, e ainda compartilhou um vídeo em que explica que se sente honrado quando alguém o xinga.

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