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"Vou cantar até o momento que Deus permitir", diz Andrea Bocelli

O tenor Andrea Bocelli - Francesco Pirandoni/Getty Images
O tenor Andrea Bocelli Imagem: Francesco Pirandoni/Getty Images

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

29/09/2018 04h00

Quando Andrea Bocelli anuncia apresentações no Brasil, especialmente na cidade São Paulo, há uma certeza: a procura por ingressos será tão grande que, muito provavelmente, será preciso agendar uma nova apresentação que dê conta da demanda. O caso de amor com o público brasileiro é fiel, intenso e antigo, remonta ao álbum "Romanza" (1997), e está ganhando um novo capítulo desde a última semana.

Com 60 anos recém-completados, o tenor já passou por Brasília (26), Porto Alegre (23/9) e neste sábado e domingo cantará em São Paulo, novamente no Allianz Parque, dois anos depois do show marcado pelo erro na participação de Paula Fernandes. Com a habitual elegância, Bocelli prefere minimizar o episódio. "Foi um acidente muito pequeno, resultado de um mal-entendido. O público esqueceu rapidamente", diz ele em entrevista ao UOL.

Desta vez, os concertos têm entre os convidados o maestro Eugene Kohn, que já trabalhou com Plácido Domingo, a soprano Larisa Martinez, a Orquestra Juvenil de Heliópolis e a cantora Maria Rita, em mais uma parceria brasileira inédita. Andrea Bocelli não se cansa de elogiar o país. E a recíproca é verdadeira.

"Estou ansioso para saudar pessoalmente o público de São Paulo, uma cidade que eu sempre carrego no meu coração, porque sua gente, um caldeirão extraordinário de etnias, é apaixonado e generoso. E também porque vou abraçar uma grande comunidade em cujas veias corre o sangue italiano."

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

O tenor italiano Andrea Bocelli em entrevista coletiva no Hotel Grand Hyatt, na zona sul de São Paulo - Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo - Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo
O tenor italiano Andrea Bocelli em entrevista coletiva no Hotel Grand Hyatt, na zona sul de São Paulo
Imagem: Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo

UOL - Você está vindo pela quinta vez ao Brasil. É adorado por aqui. Os ingressos evaporam. Por que essa conexão acontece tão fortemente?

Andrea Bocelli - É certamente um amor recíproco. Tenho uma relação sólida e especial com o público brasileiro. Esta nova turnê está se transformando em uma série de grandes emoções e belos encontros. Por sinal, estou ansioso para saudar pessoalmente o público de São Paulo, uma cidade que eu sempre carrego no meu coração, porque sua gente, um caldeirão extraordinário de etnias, é apaixonado e generoso. E também porque vou abraçar uma grande comunidade em cujas veias corre o sangue italiano.

Seus fãs te enxergam como uma figura de caráter incorruptível, um exemplo que não abre mão da família e da boa música. Você concorda com isso?

Penso que os valores que me moldaram e que tentei transmitir aos meus filhos são os mesmos da maioria das mulheres e homens de boa vontade, em qualquer lugar do mundo.

Acredito na família, acho que é o principal tijolo da sociedade. Acredito no poder do bem, que sempre volta e se multiplica. O meu testemunho é de uma pessoa que, por muitos anos, decidiu tomar o lado do bem.
Andrea Bocelli

Também creio na força do exemplo, e todos os dias aprendo coisas novas. Se a minha vida traz uma mensagem de esperança, eu poderia resumi-la na confirmação de que não há sonho impossível. Como sempre digo, o principal é prosseguir um plano de vida com honestidade, humildade e disciplina.

Você consolidou a quebra de barreiras entre o pop e o erudito. Como avalia a música pop atual?

Sinceramente, acho que hoje há boa música e música menos válida sendo feitas. A peneira do tempo, como sempre aconteceu, fará sobressair as músicas que não temem barreiras culturais e geracionais.

Você está comemorando os 20 anos de "Romanza", álbum que mudou sua vida e te transformou em pop star internacional. Caso ele nunca tivesse sido lançado, como acha que estaria hoje?

É difícil imaginar meu caminho sem o "Romanza". De certa forma, tornou-se um clássico e entrou no imaginário coletivo. Ele é parte importante das minhas histórias pessoal e artística. Sempre confiei na vontade de Deus e nos seus desígnios. Se minha vida tivesse tomado um caminho diferente, eu ainda amaria muito a música, mas poderia ter optado por tirar minha licenciatura em direito, e hoje eu seria um advogado, cantando de vez em quando.

Você tem uma fundação e é conhecido pelo trabalho social. Como e por que você começou a fazer isso?

Acho que fazer algo bom para os outros é um desejo natural, inerente aos corações do homem. Ser filantropo, cuidar das pessoas e fazer a diferença na história delas não significa ser generoso e não é apenas um dever moral. É um ato de inteligência. Um caminho que todos, de acordo com os meios disponíveis, deveríamos ter. Como já disse diversas vezes, a solidariedade é basicamente uma alegria a se compartilhar.

13.out.2016 - Paula Fernandes se apresenta com Andrea Bocelli em um show no Allianz Parque, em São Paulo - Ale Frata/Codigo19/Folhapres - Ale Frata/Codigo19/Folhapres
Paula Fernandes se apresenta com Andrea Bocelli em um show no Allianz Parque em 2016
Imagem: Ale Frata/Codigo19/Folhapres

Em 2016, houve uma problema de comunicação no seu show em São Paulo durante a participação da Paula Fernandes. Um trecho de "Vivo per Lei" deixou de ser cantado. Como você lidou com esse problema?

Não foi tão grave assim. Foi um acidente muito pequeno, resultado de um mal-entendido. O público compreendeu a música vindo da minha voz, em vez de ser um dueto. Mas, ao longo da noite, cantamos muitas músicas com grande sucesso, junto de importantes vozes de convidados. Acho que o público imediatamente esqueceu aquilo.

O que os fãs podem esperar de "Sì", seu primeiro álbum de inéditas em 14 anos, que sairá em outubro?

É um projeto artístico muito importante para mim. "Sì" é o manifesto da minha vida, na qual digo "sim" todos os dias. É uma palavra pequena, mas muito poética e bonita. É um projeto que se aproxima de mim e do meu orgulho pois reflete minha sensibilidade e os valores nos quais acredito.

Um denominador comum do disco é a beleza, o critério com o qual selecionamos as músicas. O outro é o amor, compreendido em 360 graus. Amor que hoje percebo de forma mais ampla do que quando jovem. O amor sensual, amor pela vida, pela beleza, pela fraternidade que nos une todos os amigos e também aquele que moldou o mundo. O álbum traz, entre outras coisas, várias colaborações. Há duetos com meu filho Matteo, Ed Sheeran, Dua Lipa, Josh Groban e Aida Garifullina.

Esta entrevista está sendo feita em sua língua nativa, o italiano, e existem linguistas que afirmam que toda língua que falamos nos traz uma personalidade diferente. Qual é a personalidade do Bocelli falante de italiano?

Amo muito a língua italiana. É a língua que me criou e conheço melhor as nuances. É também a língua em torno da qual há 400 anos nasceu o melodrama. A ópera tem vínculo muito próximo com a palavra italiana, que tem uma musicalidade inerente. Ela é adequada para expressar o sentimento de amor. Dito isso, também acho que toda linguagem traz maravilhosas potencialidades expressivas e uma musicalidade única. A sua língua, o português, é um excelente exemplo disso.

Andrea Bocelli conversa com jornalistas - Marivaldo Oliveira/Código19/Estadão Conteúdo - Marivaldo Oliveira/Código19/Estadão Conteúdo
Andrea Bocelli conversa com jornalistas em São Paulo
Imagem: Marivaldo Oliveira/Código19/Estadão Conteúdo

Quais são os planos após o lançamento de "Sì" Já pensou em um dia parar de cantar e descansar?

A agenda está cheia, não só para os próximos meses, mas também para os próximos anos. A música é parte da minha vida, então vou cantar até que o momento que Deus permitir. Espero, em família, ter o privilégio e a alegria para vivenciar as vidas adultas de meus filhos e suas realizações. Poder segurar nos braços de meus netos e envelhecer com minha esposa. Por fim, continuarei, juntamente da fundação que leva meu nome e os muitos amigos que a apoiam, a oferecer minha pequena contribuição para tornar o mundo um lugar melhor.

Errata: o texto foi atualizado
Na primeira versão do texto as datas dos shows em Brasília e Porto Alegre foram invertidas. O erro foi corrigido.