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Conheça três diretoras que trazem um novo olhar ao terror brasileiro

As diretoras Juliana Rojas, Gabriela Amaral Almeida e Anita Silveira (da esquerda para a direita) - Arte/UOL com Reprodução/Facebook, Divulgação e EFE
As diretoras Juliana Rojas, Gabriela Amaral Almeida e Anita Silveira (da esquerda para a direita) Imagem: Arte/UOL com Reprodução/Facebook, Divulgação e EFE

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

24/09/2018 04h00

O cinema nacional vem sendo inundado com uma nova e numerosa safra de filmes de terror --um momento promissor para quem gosta do gênero.

Há espaço para história de um lobisomem criança, para um conto violento que se passa todo dentro de um restaurante de São Paulo e até para uma série de assassinatos envolvendo jovens no Rio. Em comum nestas três histórias está o envolvimento de três diretoras. São mulheres que vêm mostrando força para trabalhar com o horror e trazendo uma nova cara para o gênero.

É o caso de Gabriela Amaral Almeida, que escreveu e dirigiu "O Animal Cordial", com Murilo Benício; de Juliana Rojas, codiretora de "As Boas Maneiras" ao lado de Marco Dutra - e estrelando Marjorie Estiano -, e Anita Rocha da Silveira, que roteirizou e comandou as gravações de "Mate-Me Por Favor".

Gabriela Amaral Almeida

Com um clima pesado em toda a trama e um roteiro que vai muito além de um simples terror, "O Animal Cordial" traça um panorama da sociedade brasileira e debate desigualdade, machismo, homofobia e outros temas em uma produção com elenco que traz Murilo Benício, Luciana Paes e Camila Morgado.

Gabriela Amaral Almeida escreveu o roteiro, no que o produtor Rodrigo Teixeira chamou de um "surto" de 48 horas, e ganhou elogios pelo seu primeiro longa-metragem. Curiosamente, sua história com o cinema não indicava o caminho de escrever e dirigir. Ela estudou comunicação, deu ênfase a analisar e entender o mundo dos filmes de terror, mas foi só mais tarde que passou a trabalhar por trás das câmeras.

Gabriela com Murilo Benício - Reprodução - Reprodução
Gabriela com Murilo Benício na gravação de "O Animal Cordial"
Imagem: Reprodução

A cineasta baiana conta que seu contato com o horror veio da infância, lendo livros de suspense e assistindo na TV aberta a muitos filmes que hoje seriam vetados para os pequenos.

"Eu sempre consumi suspense e terror. Pra mim, é uma maneira natural de enxergar o mundo. Acredito que é uma filosofia de vida, não só um gênero de estruturação de narrativa. O horror trabalha com morte, dor, desconhecido, e me lembra o quão humana eu sou. É uma formulação que fui fazendo ao longo da vida, são histórias que não têm pudor de acessar o lado humano e ensinam como viver com essa imperfeição", opina a diretora. "Para mim, o ser humano é mais interessante pelo que ele tenta esconder do que pelo que ele quer mostrar."

Fã de John Carpenter, Stephen King, Agatha Christie e Hitchcock, Gabriela gostava da sensação que assistir àqueles filmes lhe proporcionava. Sem uma faculdade de cinema em Salvador, foi estudar comunicação. "Eu queria ver filme, era isso que tinha na minha cabeça". Orientada a seguir o tema que lhe interessava, acabou estudando o horror no cinema e na literatura, fez mestrado na área e estudou direção e roteiro por dois anos na Escola de Cuba. Na volta, já tinha vontade de atuar na área, e começou primeiro com curtas, até culminar com "O Animal Cordial". 

"Acho que, como diretora mulher, enfrento as mesmas questões que um diretor homem", diz ela, explicando que é contra a distinção, a priori, de um diretor e de uma diretora, por ambos poderem desempenhar a mesma função, na direção. Gabriela traz personagens fortes, imersos em questões ligadas ao feminino, como Sara, interpretada por Luciana Paes, que em "O Animal Cordial" começa à mercê do chefe do restaurante, mas passa por uma revolução à medida que a trama evolui -- até em uma cena de sexo marcante na trama.

A diretora agora produz mais um filme com Rodrigo Teixeira e aposta em um roteiro que aborda exorcismo e amizade, ainda sem previsão de lançamento.

Anita Rocha da Silveira

Anita Rocha Silveira é mais enfática em sua posição como mulher diretora, a ponto de questionar decisões do começo da carreira, que poderiam ter dado ênfase ao feminino. "Penso o dia inteiro em feminismo, em mulheres iguais aos homens e em como ter personagens femininos complexos, que não estão ali para cumprir um papel em relação ao homem. Mulheres com desejo, com impulsos, indecisões, tão complexas quanto podem ser", diz a cineasta carioca, que fez "Mate-Me Por Favor", um suspense com elementos de terror.

A diretora conta que, vendo decisões do passado, poderia ter escrito personagens mulheres para alguns que acabaram sendo interpretados por homens. Em "Mate-Me Por Favor", ela traz jovens de um bairro distante, que convivem com assassinatos misteriosos, levando às telas a experiência de sua adolescência, lendas urbanas e os medos de tantas mulheres, como o do ato de andar sozinha na rua.

A história de Anita com o cinema remonta à época em que ela queria ser atriz. Ainda garota, a carioca se lembra que ia muito ao cinema com a mãe, que era quem lia as legendas para ela. E começou a consumir também o terror, com as fitas VHS. "Eu acelerava as cenas em que dava muito medo. Aí depois voltava, porque já sabia o que ia acontecer", ri.

Anita acabou trocando a ideia de cursar artes cênicas pela faculdade de comunicação. E, despretensiosamente, escreveu um curta-metragem, depois outro. "Nem sonhava em dirigir", ela diz. "Mate-Me por Favor" foi seu primeiro longa, e agora ela já prepara seu novo trabalho, "Medusa".

Juliana Rojas

Imagine uma mulher grávida. Nada incomum. Mas uma noite de lua cheia muda tudo. O que nasce dela não é um bebê. É um lobisomem. E, apesar de tudo, ela o pega para criar com certa naturalidade. É com este pano de fundo que se desenvolve o trabalho de Juliana Rojas e Marcos Dutra em "As Boas Maneiras".

Este filme, assim como "O Animal Cordial", estava na lista dos que concorreram a uma vaga para representar o Brasil na disputa do Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro --concorrência vencida por "O Grande Circo Místico".

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Juliana Rojas com Marcos Dutra
Imagem: Mathues Rocha/Divulgação

O curioso é que Rojas começou a se interessar por esse mundo por ler muito e ver filmes de terror com os irmãos mais velhos - títulos como "Demons - Filhos das Trevas" e "A Hora do Espanto". Seu interesse a fez começar a desenhar seus próprios quadrinhos, que ela produzia e vendia para os coleguinhas de escola. Em pouco tempo, a adolescente percebeu que seu interesse era bem diferente do dos amigos, e foi quando ela resolveu estudar cinema.

Rojas e Dutra são parceiros de longa data. Ela, paulista de Campinas, de 37 anos, é formada em cinema pela USP (Universidade de São Paulo) e ainda na faculdade começou a trabalhar com Dutra. Juntos fizeram o curta "O Lençol Branco", de 2004, apresentado na mostra Cinéfondation do Festival de Cannes. Mais tarde, fizeram o longa "Trabalhar Cansa" (2001), que também chegou a Cannes, na mostra Um Certo Olhar.

Para Juliana Rojas, é fundamental seu papel como mulher na sua criação como roteirista e diretora. "Ser uma mulher escrevendo e dirigindo filmes de terror traz uma visão diferente. É natural que os filmes tenham um erotismo, mas é delicado, porque vemos que muitos filmes de diretores homem têm a mulher num lugar de fetichização. É uma busca minha entender isso, como trabalhar o erótico e o sexo, que são importantes no filme, porque fazem parte dessas pulsões que a gente reprime. Como tratar a mulher, mas de modo que ela não seja um objeto, trabalhar também o inconsciente feminino."

A diferença, neste caso, está na longa parceria com Dutra e no que ela proporciona, por compreender dois gêneros. "O fato de sermos homem e mulher é também interessante, pois ajuda a questionar pontos de vista, algo que talvez eu não questionaria se estivesse realizando o filme sozinho", disse Dutra, em entrevista ao site "Papo de Cinema".

Além disso, o gosto da dupla por desenhos animados e musicais abriu um leque de possibilidades aos seus filmes, dando toques de humor ao terror que eles fazem.

Diretoras de terror? Elas são mais que isso

Gabriela e Anita refutam a ideia de "diretoras mulheres de filmes de terror". Ambas admitem que o rótulo pode prejudicar suas carreiras. Anita conta que já chegou a perder trabalhos, por ser colocada apenas neste nicho, ainda que "Mate-me Por Favor" seja mais um filme de suspense com elementos de terror.

"As pessoas querem colocar as coisas numa caixinha. O filme tem elementos de suspense, comédia, terror, assim como tem partes que são mais drama adolescente. Gosto de caminhar entre gêneros. Certa vez encontrei uma amiga que me falou da oportunidade de um trabalho. Mas, acharam que eu não poderia fazer por ser comédia, e eu ser 'diretora de terror'", conta ela.

"Sou capaz de fazer outras coisas. Não vejo isso acontecer com os diretores homens. Acho que há muitos homens que não são considerados de terror, são diretores e ponto. Me incomoda que se trate como 'mulheres que fazem terror'", acrescenta Anita.

Rojas destaca a riqueza do gênero, mas admite que existe uma certa tendência a se tachar as diretoras, concordando com Anita. "O gênero ainda sofre muito preconceito da crítica e parte do público, mas tem um grande potencial político. O terror trata de questões sociais e de questões do inconsciente, que tem muito a ver com a construção da nossa sociedade. Me incomoda a ideia de gêneros fixos e a necessidade de classificar os filmes, o que parece muito mais uma necessidade de comercializar os filmes do que para entendê-los."

Gabriela atenta para outro ponto. "Sempre tento desconstruir isso. Estamos num momento em que precisamos disso, da mulher diretora, porque ainda não é comum. Mas, quando se faz isso, parece que estamos restritas a um gênero e isso pode acabar cerceando a atividade de uma diretora".

"É uma faca de dois gumes, acho interessante ter um destaque, mas o lado negativo é que isso também esteja ligado à monetização de filmes, mais do que à abertura para que mulheres trabalhem na área. Acho que este é o grande truque da lógica capitalista. Mulheres dirigem porque vendem ou porque são boas? Tenho receio de que seja como uma moda, que isso passe e não mude o nosso meio", conclui Gabriela.