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Na Itália, hit do verão é música inspirada no Brasil: "Amore e Capoeira"

Cena do clipe "Amore e Capoeira" - Reprodução
Cena do clipe "Amore e Capoeira" Imagem: Reprodução

Bruno Aragaki

Do UOL, em Roma

22/09/2018 04h00

Nos cafés de Roma, nos bares à beira do Mediterrâneo, nos aplicativos de música: a Itália foi tomada neste verão -- que aqui se encerra neste domingo (23) -- por uma canção grudenta, cheia de referências ao Brasil e, ao mesmo tempo, quase nada brasileira.

Lançada em 1º de junho, “Amore e Capoeira” está há 13 semanas nas primeiras posições do Spotify no país. O clipe, com cenas gravadas no Rio de Janeiro, se aproxima das 100 milhões de visualizações no YouTube – um número expressivo para um país de 60 milhões de habitantes.

“Só nesta noite, amor e capoeira, cachaça e lua cheia, comigo em uma favela” diz o refrão em italiano interpretado pela cantora Giusy Ferreri, lançada à fama em 2008 pelo X Factor Itália.

Alguns segundos adiante, o rapper norte-americano Sean Kingston completa a poesia rimando, em inglês, “flex” (dobre-se) e “time to have sex” (hora de transar). Enquanto isso, no vídeo, três garotas negras rebolam em frente a casarões deteriorados em estilo português no Rio.

A canção é assinada pela dupla de produtores de hip-hop locais Takagi & Ketra. São, portanto, quatro artistas trabalhando na canção: três italianos e um americano, nenhum brasileiro.

O ritmo é essencialmente pop, com trechos curtos adornados por batidas de funk carioca. “Essa música aí os italianos falam que é brasileira, mas nada a ver”, resume Thiago, garçom baiano há dez anos na Itália, enquanto o clipe passa em uma tela ao fundo do restaurante em que trabalha – uma pizzaria perto da Piazza Navona.

Os produtores italianos Takagi & Ketra - Instagram/Reprodução - Instagram/Reprodução
Os produtores italianos Takagi & Ketra
Imagem: Instagram/Reprodução

Andiamo, Malandra!

Com 3 minutos e 39 segundos de duração, o clipe destila diversos clichês brasileiros: favela, futebol, vistas aéreas do Rio de Janeiro e dançarinas com pouca roupa. Vai, Malandra vem à memória, mas nota-se que algo falta e muitas outras coisas sobram.

O vídeo começa sobrevoando o Cristo Redentor e corta para uma partida de futebol: crianças se preparam para um jogo de futebol com Takagi & Ketra, que levam camisetas com brasão que remete ao do Palmeiras – uma referência ítalo-paulistana no coração do Rio de Janeiro.

Ao fundo, a favela Tavares Bastos, locação escolhida a dedo. Encravada na zona sul carioca, a comunidade caiu na graça dos turistas pela relativa segurança e pelo visual que oferece sobre a Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar ao fundo.

Giusy e Sean não visitaram o local para gravar o vídeo: eles aparecem em televisores amontoados junto a sucatas cuidadosamente abandonadas em um cenários produzidos para parecer rústico.

As protagonistas são três dançarinas que repetem à exaustão os passos do funk em pontos emblemáticos do Rio, como a escadaria Selarón, na Lapa; e a Praia Vermelha, na Urca.

Nos minutos finais do vídeo, aparecem homenagens escritas em dois idiomas.

“Um agradecimento especial à comunidade Tavares Bastos e à sua gente por nos ter nos feito sentir em casa durante a gravação deste vídeo”, diz o texto em italiano.
Na sequência, vem a frase em português: “Somos gratos pelo carinho demonstrado, ficamos com a pureza das crianças em nossos corações e desejamos saúde e sorte a todos”.

A essa altura, já não há música, mas sons captados nas ruas do Rio. Ouvem-se buzinas e, enquanto a câmera se despede da favela, sirenes de ambulância ou de polícia.