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Como a atriz de "Missão Impossível" saiu da "Malhação sueca" para Hollywood

Grant Lamos IV/Getty Images
Imagem: Grant Lamos IV/Getty Images

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

16/09/2018 04h00

Rebecca Ferguson não é uma estrela de cinema comum. A atriz, que recentemente apareceu nos cinemas em “Missão Impossível - Efeito Fallout”, não é como suas colegas ultraconectadas: pelo contrário, se mantém longe das redes sociais e mora em uma pequena cidade sueca de nome quase impronunciável: Simrishamn, que tem 6.527 habitantes.

“Eu entendo a importância da tecnologia hoje em dia”, disse a estrela em entrevista à revista “Flaunt” no ano passado. “Mas sabe a verdade? Eu gosto de escrever cartas. E eu não gosto dessa ideia das pessoas saberem o que estou fazendo o tempo todo”.

O mistério só parece alimentar a obsessão de Hollywood com essa sueco-britânica que vai completar 35 anos no próximo dia 19 de outubro. Dentro de poucas semanas, Ferguson foi anunciada no elenco de três dos filmes mais aguardados dos próximos anos: o spin-off de “Homens de Preto” liderado por Chris Hemsworth; “Doutor Sono”, sequência do clássico “O Iluminado”; e “Duna”, nova adaptação da saga de ficção científica de Frank Herbert.

A popularidade recente coroa uma trajetória tão incomum quanto o seu estilo reservado de ser. Rebecca Ferguson pode não desejar a fama meteórica de colegas como Jennifer Lawrence e Brie Larson, mas parece destinada a isso mesmo assim.

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Rebecca em "NyaTider" Imagem: Reprodução

Uma família, dois mundos

Rebecca Louisa Ferguson Sundström nasceu em Estocolmo, na Suécia. Sua mãe, a britânica Rosemary, foi uma agitadora cultural em sua juventude, que se mudou para o país nórdico aos 25 anos e foi amiga dos membros do Abba, ajudando a traduzir algumas de suas letras do sueco para o inglês.

Os pais de Ferguson foram um caso clássico daquela máxima que diz que “os opostos se atraem”. Rosemary, a rebelde, se apaixonou por um advogado sueco de classe média alta, e criou os quatro filhos em uma casa bilíngue.

“Eu me sinto sueca, mas também me sinto britânica. Eu acho que sou uma mistura”, brincou a atriz em entrevista ao “Irish Examiner” em 2015. “Por outro lado, me sinto francesa quando estou na França. Acho que sou como Ilsa, minha personagem em ‘Missão Impossível’, nesse sentido - eu me adapto”.

A jovem Rebecca começou a trabalhar como modelo aos 13 anos de idade, aparecendo em revistas e comerciais de TV. Como a mãe, se interessou por música - se formou na prestigiada Adolf Fredrik's Music School em 1999, aos 16. No mesmo ano, no entanto, fez teste e conseguiu o papel principal na novela sueca “Nya Tider”.

Ferguson ficaria na produção, uma espécie de “Malhação” sueca, por apenas uma temporada -- a mais assistida da série, que foi cancelada em 2006. Após poucos outros títulos, incluindo o terror “A Maldição do Lago”, em 2004, a atriz se afastaria das telas por sete anos, tempo em que chegou a ensinar tango em uma escola de dança de Lund, na Suécia.

Recomeço

Em 2007, Ferguson deu à luz ao primeiro filho - ela e o pai da criança, Ludwig Hallberg, se mudariam para a pequena Simrishamn no mesmo ano. Três anos depois, o diretor Richard Hobert avistou Ferguson em um mercado na cidadezinha e decidiu perguntar se ela aceitaria estrelar o seu próximo filme, “En Enkel Till Antibes”.

Foi o bastante para ela se apaixonar pela atuação novamente. O filme foi lançado em 2011, e abriu mais portas do que o esperado para Ferguson: no ano seguinte, ela seria escalada para o papel que a colocou no mapa de Hollywood, o da Rainha Elizabeth Woodville na minissérie “The White Queen”.

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Rebecca em "The White Queen" Imagem: Reprodução

A produção da emissora Starz inspirada no primeiro livro de Phillippa Gregory sobre a Guerra das Rosas se deu bem em audiência e recepção crítica. Em 2014, ela se tornou a primeira atriz sueca a ser indicada ao Globo de Ouro desde Ann-Margaret, que emplacou indicação pelo telefilme “A Alegria da Festa” em 1999.

A atuação também chamou a atenção de Tom Cruise, que a assistiu em “The White Queen” e pediu para os produtores a considerarem para o papel de Ilsa Faust em “Missão Impossível - Nação Secreta”. Cruise e Ferguson se encontraram brevemente em Londres para testar a química, e horas depois ela recebeu a ligação confirmando que havia ganho o papel.

“Eu estava em um camelo [quando recebi a ligação]!”, confessou Ferguson ao “Irish Examiner”. “Eu estava filmando [a minissérie] ‘A Tenda Vermelha’, no Marrocos. De repente, meu agente estava me dizendo que seria a próxima estrela de ‘Missão Impossível’, que iria filmar no mesmíssimo local. Só que, dessa vez, eu estaria montada em uma motocicleta”.

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Rebecca em "A Garota no Trem" Imagem: Reprodução

Sucesso

Para compor a agente Ilsa Faust, que é adversária de Ethan Hunt (Cruise) quase tão frequentemente quanto aliada, Ferguson se inspirou em uma célebre compatriota: Ingrid Bergman, a estrela de clássicos como “Casablanca” e “Interlúdio”, e vencedora de três Oscar.

“Ela tinha uma graciosidade que eu queria trazer para essa personagem”, refletiu a atriz em entrevista à revista “Elle”. “‘Missão Impossível’ é uma franquia de ação, intensa e ágil. Eu queria balancear isso com um toque de clássico - é uma mistura que fica bonita”.

Os fãs da saga (e os críticos) concordam, visto que Faust fez sucesso sem precedentes para as protagonistas femininas da franquia. De fato, Ferguson foi a primeira contraparte feminina de Cruise a ser chamada de volta para uma segunda dose de “Missão Impossível”.

Quando “Efeito Fallout” estreou nos cinemas brasileiros em julho, a atriz sueca já era um nome mais estabelecido. A fama do primeiro “Missão” lhe rendeu papéis marcantes em “Florence: Quem é Essa Mulher?”, “A Garota no Trem” e “O Rei do Show”, três sucessos de bilheteria.

A atriz está especialmente incrível em “A Garota no Trem”. Se segurando bem frente a uma performance comprometida da ótima Emily Blunt, ela se mostra inesperadamente um dos trunfos do filme. Como Anna, Ferguson extrapola os limites do papel de “esposa sofredora” e encontra profundas ressonâncias emocionais em sua comunicação com o espectador.

Enquanto isso, o sexto “Missão Impossível”, aclamado pela crítica como o melhor da franquia, já é também o maior - com US$ 726 milhões na bilheteria mundial, o filme passa com folga a arrecadação de “Protocolo Fantasma”, que alcançou a marca US$ 694 milhões.

Futuro brilhante

Os próximos projetos de Ferguson visam não só estabelecê-la como uma das grandes estrelas da atualidade, como também afirmar a sua versatilidade como atriz. Em “Doutor Sono”, por exemplo, ela será Rose the Hat, que no livro de Stephen King é líder de um culto que se alimenta da energia vital de crianças com poderes sobrenaturais.

Com direção de Mike Flanagan (“Jogo Perigoso”) e Ewan McGregor na pele de um Danny Torrance crescido, a continuação de “O Iluminado” chega aos cinemas em 23 de janeiro de 2020. Não será a primeira vilã de Ferguson, no entanto, já que antes a veremos em “The Kid Who Would Be King”.

O filme de Joe Cornish (“Ataque ao Prédio”) reimagina a lenda do Rei Arthur para os tempos modernos, quando um rapaz que sofre bullying na escola encontra a espada Excalibur e precisa proteger o mundo contra a maligna Morgana (papel de Ferguson), com a ajuda do mago Merlin (Patrick Stewart). A estreia ficou para 1º de março nos EUA, sem previsão por aqui.

Já no novo “Duna”, ela deve encarnar Lady Jessica, a mãe do herói Paul Atreides (Timothée Chalamet). Parte de uma família aristocrática deposta por um novo e violento império intergalático, ela precisa abandonar o filho no deserto para que ele tenha a chance de vingar o que foi feito com sua família no futuro.

O diretor Denis Villeneuve (“Sicario”, “A Chegada”) tem costume de realçar a fortitude e as contradições de suas personagens femininas. Com roteiro de Eric Roth (“Forrest Gump”) e Jon Spaihts (“Doutor Estranho”), “Duna” ainda não tem data de estreia definida.

O único projeto em que seu papel não foi divulgado foi o spin-off de “Homens de Preto”, que trocará Will Smith e Tommy Lee Jones por Chris Hemsworth e Tessa Thompson, vistos juntos recentemente em “Thor: Ragnarok”. Encoberto em mistério, o projeto chega em 14 de junho de 2019 aos cinemas americanos, sem previsão no Brasil.

Se tratando de Ferguson, no entanto, o melhor é sempre esperar (e se deliciar com) o inesperado.