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Como o funk e o rap brasileiros caíram na graça de youtubers estrangeiros

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Ally, Kay e Aran são youtubers ingleses especializados em gravar reações a vídeos no YouTube Imagem: Reprodução

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL

13/09/2018 04h00

O formato é sucesso e bem conhecido de quem habita a internet: um cara sentado na frente do computador com uma câmera apontada para seu rosto capturando todas suas reações enquanto assiste a outro vídeo. Mais do que apenas falar com a câmera, os reacts criaram uma nova comunidade no YouTube, onde os fãs ficam ansiosos para ver as expressões faciais, gestos e comentários sobre um clipe, um trailer ou qualquer fenômeno da internet.

Embora o fanatismo pelas reações até seja compreensível, o gênero também desperta alguns nichos curiosos. Por exemplo, os rappers e funkeiros brasileiros têm se tornado febre entre os youtubers estrangeiros. Entre diversos reacts que já existem de Haikaiss, Favela Vive e Kekel, não se espante ao encontrar algum destes vídeos em inglês.

No Reino Unido, dois canais de YouTube que começaram com reacts ligados ao futebol e jogadores brasileiros logo deram mais espaço para os versos em português. “Aos poucos eu fui aprendendo sobre a cultura brasileira e meus inscritos queriam ouvir minha opinião sobre algumas músicas que estavam tocando e então comecei a fazer as reações. Como eu curtia o ritmo, foi algo muito bom para mim”, explicou Aran Mulwe ao UOL. Seu canal, chamado "AStarForBants!!", conta hoje com 182 mil inscritos. Dando uma rápida olhada na área de comentários, é fácil perceber que a maior parte é formada por brasileiros.

Em seus vídeos, há diversos títulos ligados ao futebol e grandes craques brasileiros, mas sua publicação com mais visualizações, que hoje beira 1 milhão de views, é “Rap Lord”, do Haikaiss. Fã de Anitta e Kevinho, Aran usa o tradutor do Google e ajuda de seus seguidores para entender do que se tratam as letras: “Eu não entendo nenhuma palavra”.

A história de Aran se confunde com Kay e Ally, que cuidam do "Young Marcus", que tem 235 mil inscritos. Inclusive, os canais conterrâneos contam com o mesmo número de visualizações no total: 17 bilhões. A dupla é nitidamente mais empolgada. Kay e Ally dão risada, se puxam, dançam e se sacodem em suas cadeiras enquanto assistem aos vídeos brasileiros. “Nós percebemos que a música brasileira não é tão popular no Reino Unido. Então tínhamos a ideia de introduzir esse gênero para todo mundo curtir como nós”, contaram os fãs de Kevinho e Kekel.

A descoberta dos artistas acontece por meio do Twitter, Facebook ou pelos próprios comentários do YouTube. Assim como Aran, Kay e Ally precisam de ajuda do tradutor e de amigos para compreender as letras e também fazer as legendas deu seus vídeos. “Nós entendemos as palavras básicas em português. Nossos apoiadores mandam as traduções da maior parte delas”.

Você acha que é pelo dinheiro? Não é bem assim.

O algoritmo do YouTube é inteligente e tem pouca tolerância para perdão. Produtores de conteúdo que usam músicas licenciadas podem utilizar esse conteúdo por até 10 segundos, o que está bem distante dos canais especializados em reacts, que geralmente postam as faixas na íntegra. Desta maneira, é quase impossível eles conseguirem monetizar seus vídeos, ou seja, o YouTube nem sempre libera anúncios nas suas publicações.

“Eu não posso viver do YouTube porque a maior parte dos meus vídeos são barrados por questões de direitos autorais. Eu tenho planos de fazer uma variedade maior de assuntos, e não só reações”, contou Aran. Mesmo com sua fama do outro lado do oceano, Kay e Ally precisam manter seus empregos normais e continuar produzindo os vídeos para os fãs.

O idioma ajuda, mas nem sempre

O português Didier Lopes, conhecido como Sparky, tem números mais modestos em comparação com seus companheiros ingleses -- são 7,9 mil inscritos para quase 1 milhão de views no total --, mas já é um veterano no YouTube, produzindo conteúdo para a plataforma em outros canais desde 2011. Tratando-se da mesma língua, neste caso, a troca de experiências entre público brasileiro e um videomaker de Portugal é mais compreensível.

Curiosamente, sua reação ao clipe de “Rap Lord” do Haikaiss, cujo vídeo original já ultrapassou 113 milhões de views, também está entre um dos mais vistos. “Penso que atraí um bom público brasileiro com ele. Podemos dizer que foi quando meu canal ‘explodiu’ e teve um grande crescimento de inscritos e views”, afirmou.

Os bons números, tanto no caso dos ingleses quanto o de Sparky, motivaram os youtubers a mergulhar no funk e rap brasileiro. E a popularização dos vídeos cypher, onde vários MCs se reúnem para rimar em conjunto, tem contribuído para a disseminação no gênero no velho continente.

“Adoro os projetos Poesia Acústica e Poetas no Topo porque penso que dá pra conhecer novos rappers. Os próprios artistas envolvidos aprendem e evoluem trabalhando em conjunto”, pondera Lopes.

Para o youtuber português, a proximidade da língua é um grande salto na empatia com as músicas, mas não necessariamente a compreensão absoluta das letras. “Às vezes os rappers cantam de forma mais rápida ou mais lenta”, contou, citando também que algumas referências sobre favelas, política ou violência também podem passar incompreendidas por um estrangeiro.

Um dos nomes que se destaca na lista de preferidos de Sparky é o de Choice, que inclusive participa do “Favela Vive 3”. “Tem uma voz incrível e um potencial enorme. Normalmente me prendo a um artista pelo flow ou se canta de alguma maneira especial”, explicou.

Se aquele clichê de que a música é uma linguagem universal ainda é válido, o rap e o funk nacional têm se provado grandes embaixadores do Brasil lá fora.

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