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"The Deuce" está de volta - e é uma das melhores séries da HBO

James Franco vive os irmãos gêmeos Vincent e Frankie em "The Deuce", nova série da HBO   - Divulgação/HBO
James Franco vive os irmãos gêmeos Vincent e Frankie em "The Deuce", nova série da HBO
Imagem: Divulgação/HBO

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

09/09/2018 04h00

Nova York, 1977. A indústria da pornografia está entrando em sua era de ouro e a máfia começa a perder o controle sobre ela. Logo, boa parte dos talentos envolvidos começarão a se mudar para o outro litoral americano, em Los Angeles, onde viverão ao lado dos grandes astros de Hollywood.

Esse é o cenário em que "The Deuce" vai nos jogar na estreia de sua segunda temporada, que será exibida neste domingo (9), às 22h, pela HBO brasileira. Os eventos do primeiro ano da série aconteceram entre 1971 e 1972, de forma que os personagens tiveram tempo para se ajustar em posições confortáveis no novo status quo antes que ele mude mais uma vez.

O pulo temporal não é surpresa: como contadores de história, os criadores David Simon e George Pelecanos estão interessados nas formas como seres humanos se ajustam a transformações sociais, "cavando" um lugar onde podem sobreviver ou, com um pouco de sorte e determinados privilégios, prosperar.

Essa é parte da genialidade de "The Deuce", que estreou em agosto de 2017 e permaneceu no ranking de prováveis indicados ao Emmy até o dia 12 de julho, quando a lista oficial foi revelada. A produção da HBO foi totalmente ignorada pelos votantes.

A história se repete

O descaso da Academia de TV não é novidade para o cocriador de "The Deuce", David Simon. Durante cinco temporadas de "The Wire" (2002-2008), sua série sobre o tráfico de drogas na cidade de Baltimore, nos EUA, a produção foi indicada para apenas dois Emmys, ambos pelo roteiro. Perdeu. Hoje, é considerada um dos marcos da TV dos anos 2000.

Ex-repórter criminal de um jornal de Baltimore, Simon escreveu o livro que inspirou "Homicide: Life on the Streets" (1993-1999), uma das séries mais celebradas do gênero policial. Depois, criou a minissérie "The Corner" (2000), pela qual ganhou o seu único Emmy - e o resto é história.

Confortável na TV, ele se juntou ao colega escritor de livros de mistério, George Pelecanos, para contar a história da indústria pornográfica norte-americana. Bem ao seu estilo, "The Deuce" é densa e detalhista, mas nunca faz alarde para isso. O mundo conjurado por Simon é imersivo, e assistir a um episódio de "The Deuce" nunca parece uma lição de história. 

Ao invés disso, o espectador sente que vive a era retratada ao lado de personagens pelos quais se importa, porque a série faz questão de desenvolvê-los de forma realista, ao invés de sensacionalizar suas jornadas. Com reconstituição de época impecável, "The Deuce" sabe que entreter, discursar e informar são coisas diferentes - e faz todas elas muito bem.

Elenco de peso

Parte da magia da série vem também do seu elenco, é claro. O "elefante na sala", nesse caso, é James Franco - na pele dos gêmeos Vince e Frankie, ele entrega performances ricas que podem levantar o astral ou expressar a angústia histórica da série com a mesma facilidade.

A HBO decidiu mantê-lo no elenco mesmo após acusações de assédio sexual por parte de alunas dos cursos de teatro que ele ensina em diversas universidades americanas. A emissora disse que entrou em contato com todos os membros da equipe da série e não encontrou nenhuma evidência que Franco tenha cometido atos semelhantes durante a produção.

A ética de manter Franco em "The Deuce" pode, e deve, ser questionada. Na primeira temporada, além de aparecer em frente às câmeras, ele também dirigiu dois episódios - foi justamente ao dirigir suas alunas em produções universitárias que Franco alegadamente as assediou.

A sorte aqui é que "The Deuce" não depende de Franco para brilhar. Não quando tem Maggie Gyllenhaal e sua Candy, uma prostituta de Times Square que encontra sua paixão ao começar a dirigir filmes pornográficos. Enquanto a primeira temporada foi sua jornada para deixar as ruas e entrar no negócio da pornografia, esta segunda verá como Candy se sai na nova indústria.

Gyllenhaal é a arma não tão secreta de "The Deuce". A atriz fez carreira interpretando mulheres cujo desejo, independência e inteligência brilham por trás dos olhos, qualquer que seja a circunstância em que elas vivem. Como Candy, ela é quieta, mas espetacularmente efervescente.

A série não esconde o que a vida de abuso tirou dela, as formas como a prostituição a machucou irreparavelmente. "The Deuce" tampouco tenta emoldurar esse abuso como "aquilo que a tornou uma artista". Candy sempre foi uma artista. O excitante da série de David Simon é ver a personagem (e Gyllenhaal) buscando as frestas pelas quais essa arte pode se expressar.