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"22 de Julho" busca entender mente de terrorista que matou 77 na Noruega 

Cena de "22 Julho", de Paul Greengrass - Divulgação
Cena de "22 Julho", de Paul Greengrass Imagem: Divulgação

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Veneza (Itália)

05/09/2018 14h00

Um assassinato em massa que deixou a Noruega (e o mundo) aterrorizados, em 2011, foi revisitado na manhã desta quarta-feira (5) no Festival de Veneza. O aplaudido longa "22 de Julho", do britânico Paul Greengrass, joga luz sobre o massacre promovido pelo terrorista de extrema-direita norueguês Anders Behring Breivik, que há sete anos tirou a vida de oito pessoas em uma explosão no centro de Oslo – no mesmo dia, mataria mais 69 jovens, em um acampamento na ilha de Utoya.

"Há dois anos, quis fazer um filme que falasse sobre a crise de migração para a Europa, após [a chegada de várias embarcações à ilha italiana de] Lampedusa. Mas, quanto mais eu trabalhava, percebia que havia outras maneiras de falar disso", explicou Greengrass, em conversa com a imprensa. "Vi que o mundo ocidental estava sendo levado para [o pensamento de] direita de forma que nunca tinha visto, que aliás não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Primeiro, por causa da crise econômica de 2008, que gerou uma série de condições de insegurança [em vários países]. Segundo, por conta dos movimentos populacionais – e o medo desses movimentos."

Ainda sem saber exatamente como levar a volta do ultraconservadorismo para o cinema, Greengrass viu nos fatos de julho de 2011 a oportunidade para fazer isso. "Quando soube dos ataques na Noruega, foi um momento de insight; de repente, passei a ver com clareza o que estava acontecendo. E achei interessante a forma como a Noruega lutou para lidar com a questão, em como os políticos e a população batalharam em defesa da democracia", diz o cineasta.

O filme começa na véspera do 22 de Julho de 2011, com Breivik preparando a logística dos ataques. No dia seguinte, deixou um carro-bomba na porta do prédio em que ficava o gabinete do Primeiro-Ministro da Noruega; após a explosão, a habitualmente pacífica Oslo viveu instantes de pavor. Logo depois, Breivik foi para Utoya, onde, disfarçado de policial, entrou no acampamento, dando início ao banho de sangue. O filme gasta alguns bons minutos mostrando o tiroteio.

Grengrass já falou de outro grande ataque terrorista antes, em um de seus filmes mais conhecidos: "Voo United 93" (2006), sobre um dos aviões sequestrados no 11 de Setembro. Desta vez, ele repete o talento para conduzir cenas de alta tensão em um contexto de desespero. 

"Pensei com muita cautela sobre como mostrar violência e conversei com pessoas ligadas ao caso. [Mas o filme] é sobre o que aconteceu depois, não sobre o ataque em si", diz Greengrass. "Você não pode trazer sofrimento adicional para as pessoas envolvidas."

"22 de Julho" parece quase que uma resposta a um outro longa sobre o mesmo tema, apresentado no último Festival de Berlim, em fevereiro. "Utoya 22 Juli", do norueguês Erik Poppe, mostrava em uma única tomada a tragédia de 2011, com foco nas vítimas tentando se esconder dos tiros. Não se via o atirador, apenas uma jovem vivendo em tempo real todo o horror da situação, em meio a corpos ensanguentados pela ilha.

Apesar de mais poderoso em termos de impacto do que o filme de Greengrass, a versão norueguesa era basicamente um longa de ação – um "filme catástrofe" eficiente, mas que pouco refletia sobre que circunstâncias teriam levado àquela tragédia. 

Greengrass, por sua, vez, mantém o foco nos desdobramentos do atentado, tentando dissecar melhor o tipo de mente de Breivik e, sobretudo, as implicações do massacre na vida dos sobreviventes. Após ser preso, inicialmente, Breivik apostou em uma estratégia da defesa em que alegava "insanidade mental". Mas, depois, o próprio terrorista desistiu, porque queria que todos soubessem que ele tinha total consciência do que estava fazendo e que seu crime tinha caráter político. 

"É perigoso, não um louco", diz Asne Seierstad, autora do romance "One of Us", sobre Breivik, uma das bases para o filme. "Fiquei petrificada porque ele sabia bem o que tinha feito. E eu tinha que entender o que tornou aquele rapaz, que morava na minha rua, o pior terrorista da nossa época. Você precisa contextualizar psicologicamente, socialmente, entender o papel fundamental da internet, que o fazia se sentir parte de grupos", diz Seierstad.

Quando o filme se dedica a compreender a mente de Breivik, traz dados interessantes: ele era um sujeito solitário, filho de uma família disfuncional. Cresceu com ódio do que o rodeava e, influenciado pelo que lia online, se identificou com grupos reacionários. No filme, antes de matar vários jovens, ele diz, em seu discurso peculiarmente confuso, que é para exterminar "marxistas, liberais e filhos das elites". Mais tarde, ao negociar com autoridades, pede o "banimento da imigração e o fim do multiculturalismo".

O papel é desempenhado com vigor pelo norueguês Anders Danielsen Lie. "É uma história que precisa ser contada", explica o ator. "É perigoso tornar assuntos como esse [o fortalecimento da ultradireita] em tema-tabu. Acredito na liberdade de expressão. É difícil falar disso evitando a narrativa do terrorista: você precisa entender por que ele fez aquilo, mesmo sendo branco, de classe média e morando na Noruega, um dos países onde se vive melhor no mundo." 

Segundo o filme, Breivik é um fruto do seu meio e de sua trajetória melancólica, mas que optou pela violência por um forte elemento de crueldade. Seu problema é antes de caráter que de sanidade. O longa apresenta algumas conversas entre o criminoso e seu advogado de defesa, e é uma pena que tenha deixado passar outro assunto que renderia excelentes discussões: por que motivo alguém aceitaria defender um monstro como Breivik? (Afinal, o advogado não era um miserável e, apesar de direitista, não compactuava com tamanha violência). 

Mas o filme se interessa mais por uma das vítimas do massacre. É claro que é importante mostrar o que sofreram, mas Greengrass muitas vezes acentua demais o seu martírio, e seu filme se aproxima de um lacrimoso filme para a TV (na verdade, não deixa de ser um, já que é uma produção da Netflix). O longa tem previsão de lançamento mundial em 10 de outubro na Netflix.