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"O Primeiro Homem" pega caminho fácil e não repete impacto de "La La Land"

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Ryan Gosling como Neil Armstrong em "O Primeiro Homem" Imagem: Divulgação

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Veneza (Itália)

29/08/2018 14h00

Dois anos após encantar Veneza com "La La Land ? Cantando Estações", o diretor Damien Chazelle volta ao festival mais uma vez com a responsabilidade de exibir o filme de abertura do evento. Mas embora "O Primeiro Homem", projetado na manhã desta quarta-feira (29), tenha recebido firmes aplausos, nem de longe causou o mesmo impacto que o musical de 2016 fez em sua estreia veneziana.

Desta vez, Chazelle deixa a "cidade das estrelas" e vai para onde elas realmente estão: no espaço sideral. Narra a história de Neil Armstrong (1930-2012), primeiro homem a pisar na Lua, abarcando sua vida desde quando era piloto de testes da aeronáutica até quando, já na Nasa, deu o célebre "pequeno passo para um homem, mas enorme para a humanidade" em solo lunar.

"Eu e todas as pessoas da minha geração crescemos com a chegada à Lua como um fato naturalizado, já com as imagens de arquivo absorvidas", disse Chazelle, em conversa com a imprensa após a sessão de estreia. "Mas fui ficando mais fascinado pelo assunto à medida que pesquisei para o filme. Quando vi o passo a passo até chegarem lá e soube os gastos enormes que foram necessários... Tudo isso me compeliu ainda mais." 

O protagonista é mais uma vez Ryan Gosling, que já havia trabalhado com o diretor em "La La Land". O Armstrong criado por ele é um sujeito introspectivo, de poucas falas, que muitas vezes parece indiferente ao que o rodeia (o ator, um especialista em usar a própria inexpressividade de maneira produtiva, nunca foi tão bem escalado como aqui). Mas aquele homem reservado, meio ausente, por algum motivo se arrisca em aventuras em que muitos falastrões jamais ousariam experimentar. Seja como piloto ou como astronauta, sempre buscava extrapolar limites.

"Neil era daquele tipo de pessoa que intencionalmente leva as coisas além de onde se espera", diz Gosling. "Existe um certo tipo de gente que é assim, como ele, e que é um tipo muito diferente de como eu sou na realidade."

E é bem esse o mote do filme: entender por que um homem naturalmente reservado, introvertido, se entregava a correr riscos tão grandes como o de desbravar o espaço sideral. "Sabemos muito sobre a ida de Neil para a Lua, mas é importante saber da história da vida dele que ficou aqui embaixo", diz Chazelle. Para contar essa história, usou por base sobretudo a biografia "First Man: The Life of Neil A. Armstrong", de James R. Hansen, lançada em 2005. 

A ideia é boa, mas apesar da premissa auspiciosa o filme opta lamentavelmente pelo caminho mais fácil: deixa a entender que tudo o que move Armstrong é uma tragédia pessoal. O astronauta perdeu a filha Karen ainda muito pequena, com pouco mais de 2 anos, por conta de um tumor no cérebro. Jamais se refez e, segundo a teoria do filme, seu mergulho nas viagens espaciais era uma espécie de vontade de "sumir", algo terapêutico pelo sofrimento que a perda da menina lhe causava.

Claro: nenhuma dor é tão forte como a da perda de um filho, mas querer dizer que a única razão que movia Armstrong era essa é de um simplismo assustador. Por que motivo, então, ele já se metia em voos de alta periculosidade quando ainda era piloto de teste, bem antes de se tornar pai?

O roteiro patina, também, ao deixar de falar de mais detalhes sobre o contexto da corrida espacial e ter por foco quase que exclusivamente no drama pessoal de Armstrong. Desperdiça, assim, o potencial metafísico da busca do homem por conhecer melhor seu lugar no mundo e o que o cerca; para Chazelle, a ida à Lua é basicamente o fruto de um acerto de contas individual.

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Ryan Gosling e Claire Foy estão muito bem no filme Imagem: Divulgação

Mas o filme é bem dirigido e traz uma sólida performance de Gosling e, também, de Claire Foy (a rainha Elizabeth da série "The Crown"), como sua mulher. Embora não arrebate como "La La Land", tem chance de fazer uma boa carreira, com eficientes sequências espaciais. 

Chazelle reconhece que o filme destoa dos outros que já fez. "Todos os anteriores falavam de experiências das quais eu podia falar sobre. Já a deste filme é mais distante, até porque nunca fui à Lua [risos]. As particularidades da história eram novidade pra mim. Mas essa característica de Neil de usar seu trabalho para superar questões emocionais... há aspectos como esse com os quais posso me identificar."

Gosling aproveitou para elogiar o amigo. "Nós nos conhecemos para fazer este filme, mas aí apareceu o musical ['La La Land'], que acabou sendo feito antes. Ambos têm suas semelhanças: são filmes de grande tela, capazes de causar experiências nas pessoas. Damien tem um instinto para saber a que as pessoas querem assistir, para reuni-las por meio de um filme. Gosto dessa habilidade de transmitir seu amor pelo cinema, é a principal qualidade dele como diretor."

Felizmente, o longa escapa ao caminho perigoso de mostrar Neil Armstrong como, acima de tudo, um "herói americano". "Tudo foi muito bem colocado [no filme] como uma realização humana", diz Gosling. "Neil era muito humilde, tirava o foco de si para jogar sobre todos os que aquilo tudo possível. Não acho que ele se via como um herói americano, nas minhas pesquisas percebi justo o contrário. E a intenção do filme era reverenciar esse homem e como viveu sua vida", conclui o ator. 

"O Primeiro Homem" estreia no dia 11 de outubro no Brasil.