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Por que "Mom" pode ser uma boa opção para os órfãos de "The Big Bang Theory"

Divulgação
Allison Janney e Anna Faris em cena de "Mom" Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

27/08/2018 04h00

Por anos a sitcom mais assistida da TV norte-americana, "The Big Bang Theory" vai chegar ao seu fim após a 12ª temporada, que estreia no próximo dia 24 de setembro. Os fãs da série vão ficar órfãos quando ela acabar, na metade do ano que vem, mas podem encontrar um pouco de alento em "Mom", outro trabalho de um dos criadores de TBBT, Chuck Lorre, que é exibida no Brasil pelo Warner Channel.

"Mom" é uma história original sobre Bonnie (Allison Janney) e Christy (Anna Faris), mãe e filha que se reúnem após anos de afastamento e se veem morando juntas. As duas são alcoólatras, e o vício impediu que se tornassem tão próximas quanto poderiam ser. A série mostra a estrada da recuperação, com a ajuda de reuniões do AA (Alcoólicos Anônimos), de boas amizades que elas fazem lá, e do apoio inesperado uma da outra.

Fazendo rir e chorar

Uma das grandes virtudes de "Mom" é que ela não tenta abordar o tema do vício com leveza exagerada. O humor da série nasce inteiramente dos personagens, com Lorre e seus companheiros de roteiro distribuindo diferentes tipos de piada para as personalidades que cercam Bonnie e Christy. Wendy (Beth Hall), por exemplo, é a amiga melodramática e sofrida das duas; Marjorie (Mimi Kennedy) é alvo de zombaria e admiração ao mesmo tempo por seu estilo "mãezona"; e Jill (Jaime Pressly), podre de rica, perdeu o contato com a realidade de classe média-baixa das amigas.

Ao mesmo tempo, cada uma dessas personagens tem momentos em que se apoiam umas nas outras para passar pelos momentos mais difíceis de suas vidas. "Mom" não foge da possibilidade sempre iminente de que uma delas tenha uma recaída no vício, e não hesita em mostrar como a recuperação exige tanto delas que é capaz de afastar pessoas de fora do seu círculo. Até a ansiedade econômica experimentada por parte das protagonistas desempenha um papel na maioria dos episódios.

As próprias Bonnie e Christy destilam sarcasmo sobre as situações precárias que passam, de forma que "Mom" sempre permite que o espectador ria com elas, e não delas. Lorre e companhia celebram essas mulheres por sua resiliência e seu bom humor frente às dificuldades, mas não deixam de mostrar os momentos em que esse bom humor não é o bastante, ou não é adequado. Dessa forma, criam uma sitcom que é muito mais ?real? do que a maioria das produções do gênero, considerado por muitos como ultrapassado.

Além de tudo isso, é claro, a série tem Faris e Janney. A primeira, conhecida como a Cindy de "Todo Mundo em Pânico", mostra que tem potencial dramático por cima de todo o timing cômico que já havia exercitado anteriormente na carreira. Faris carrega muito do peso narrativo de "Mom", e se mostra habilidosa na forma como modula a raiva, o humor e as neuroses de Christy para criar uma personagem crível e vulnerável, mas ainda assim hilária.

Enquanto isso, sua colega de elenco Janney é, sem dúvida nenhuma, uma das presenças cômicas mais surpreendentes da TV norte-americana hoje. Sua Bonnie não só ganha as melhores tiradas irônicas do roteiro como, graças a Janney, faz rir também com os trejeitos. Assisti-la em cena é testemunhar uma atriz que é mestre de qualquer gênero em que escolhe se inserir, mas também se preocupa em construir uma personagem completa, vívida - não à toa, Janney levou dois Emmys pelo papel (em 2014 e 2015).

Em uma TV norte-americana que está em pleno processo de inovação e expansão de fronteiras, e na qual a sitcom tradicional parece cada vez menos bem-vinda, "Mom" prova que o formato ainda pode não só agradar, como contar uma história socialmente relevante.