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Como Gabz foi de atriz mirim a promessa do rap inspirada por Rihanna

Gabz foi de atriz mirim a rapper - Andre Rola/Vira Comunicação/Divulgalção
Gabz foi de atriz mirim a rapper Imagem: Andre Rola/Vira Comunicação/Divulgalção

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

27/08/2018 06h00

As longas tranças e dreads usados por Gabz dão um estilo ousado para a rapper carioca, que fez um notável sucesso com seu primeiro single, lançado em abril, “Do Batuque ao Bass”. Dona de rimas provocativas e mensagens fortes, ela está num novo mundo, depois de ter sido atriz mirim e figurar com cara de anjinho em algumas novelas da Globo e até em um filme da Xuxa.

Gabz tem uma história de vida que parecia a levar para uma carreira estável de atriz. Mas suas origens e seu futuro tinham um ruído. Ela acordava em Irajá, bairro humilde do Rio, e trabalhava no Projac, complexo luxuoso de estúdios da Globo. Nisso, lhe faltava conexão com suas origens, o que a fez dar um passo atrás. Foi aí que encontrou as rimas, o rap e o hip hop e um novo caminho para fazer sucesso, sob cuidados do empresário Bruno Costa, que trabalhou com Iza.

“Chegando que nem praga / No rap nós se propaga”, canta Gabz, no começo de “Do Batuque ao Bass”, que mistura influências rap, trap e tem um refrão mais pegajoso. Em duas semanas, ela já havia chegado a 100 mil views no Youtube e agora totaliza 440 mil. O segundo single, “Bota a Cara”, tem uma pegada mais pop e foi lançado no fim de julho.

Apesar da infância simples, Gabz diz que um diferencial foi o encorajamento dos seus pais para que ela tivesse uma criação com muito foco na arte. Seu pai sempre tocou baixo e a família é muito musical. Por isso, desde os 6 anos ela já fazia teatro e também aprendeu balé. Isso a levou a ter chance de participações em novelas e filmes.

Em 2007, trabalhou em "Xuxa em Sonho de Menina", vivendo Thayane. Em 2008, foi a Gracinha de "Ciranda de Pedra". E em 2009, fez participações em "Viver a Vida". Era como um sonho.

“Era incrível, eu gostava de atuar. Era um ambiente muito gostoso”, elogia ela, que emenda uma crítica. “Eu reclamo e digo que me afastei por que mais pessoas deviam poder fazer isso. Devia ter uma diversidade maior num lugar desses, mais pessoas deviam poder contar sua verdade.”

Gabrielly - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Gabrielly Nunes, que virou a Gabz, em "Ciranda de Pedra"
Imagem: Reprodução/TV Globo

E, por falar em Xuxa, ela é citada em "Bota a Cara": "É que elas são Xuxa / Flow só pra baixinho / Por isso eu já mandei pisar no chão devagarinho"

Dois mundos

Foi o pensamento de que tinha de se conectar com sua comunidade e fazer arte mais ligada às suas origens que a fez se afastar. “Sempre vivi em dois mundos. Ia de manhã pro Projac, naquele glamour superdoido e voltava pra casa no Irajá. Tanto que, no ensino médio, senti necessidade de parar com tudo isso, de voltar ao meu lugar e pertencer àquilo. ‘Sou desse lugar, pertenço a esse lugar’. Meus pais sempre me esforçaram para eu subir na vida, mas eu não me sentia localizada. Muitas vezes eu era a única pessoa negra, as pessoas nem sabiam onde ficava onde eu morava”, conta ela, sobre essa epifania da adolescência. Hoje em dia ela voltou a fazer alguns trabalhos de atriz, mas o foco é nos palcos.

Adolescente, Gabz passou a curtir a cultura do skate e da pichação. O que a movia ainda era a vontade de falar o que tinha na cabeça, então ela começou a rimar. Amigos a incentivavam a entrar nas batalhas, mas ela percebeu que seu lance era escrever e acabou direcionando sua arte para o slam poetry – disputa em que poetas leem ou recitam seus trabalhos.

A cantora carrega consigo referências musicais variadas, de Racionais MC’s a Nação Zumbi, passando também por uma adoração a Rihanna. Em sua trajetória, ela percebeu que o rap era o caminho mais acessível para passar sua mensagem, “para colocar o que sinto, escrevo, canto. Ele é próxima da nossa realidade”, afirma ela, que versa muito sobre sua luta como uma mulher negra e tem preocupação de que sua arte tenha apelo para quem cresceu como ela.

Rap com pop

Gabz não quer delimitar seu som. Ela está tateando nos singles que lançou para achar sua linha e ter um álbum completo para lançar em breve. O alcance de “Do Batuque ao Bass” a fez ter também seus primeiros haters, prontamente respondidos.

Gabz - Andre Rola/Vira Comunicação/Divulgalção - Andre Rola/Vira Comunicação/Divulgalção
Imagem: Andre Rola/Vira Comunicação/Divulgalção

“Sou mais rap que vocês até fazendo pop”, provoca ela em "Bota a Cara". “Eu quero elementos musicais que o grande público sinta a vibe, mas sem perder o conceito”. A ideia é produzir as músicas que gosta, flertando livremente com o pop, mas manter as letras de personalidade que ela fez nos dois primeiros singles.

Gabz explica que se vê mais como uma cantora de um movimento maior, o hip hop, do que simplesmente como uma happer. “Um movimento é uma filosofia, então sempre vou carregar as influências do rap e do hip hop pra minha arte”.

Sobre a parceria com o empresário Bruno Costa, ela exalta a experiência dele. “Ele trabalhou com muita gente, Jade, D2, Emicida. Então, é bom porque sou a novinha acelerada fazendo as coisas e ele vem com a experiência, rola uma troca”. A ideia agora é fazer shows e preparar o primeiro álbum, sendo que dois novos singles devem pintar no mês de setembro.