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Clássico do VHS, "A Encruzilhada" é um épico que ganha uma casa na Netflix

Ralph Macchio e Joe Seneca em cena de "A Encruzilhada" - Reprodução
Ralph Macchio e Joe Seneca em cena de "A Encruzilhada" Imagem: Reprodução

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

21/08/2018 04h00

Atenção! O texto abaixo contém alguns spoilers de "A Encruzilhada"

Desde a época de ouro das locadoras, quando o VHS ainda era algo relevante no mundo, "A Encruzilhada" vaga pela memória daqueles que, por sorte, conseguiram assistir ao filme alguma vez. Lançado em 1986, a produção estrelada por Ralph Macchio, que ainda colhia os frutos do sucesso de "Karatê  Kid" (1984), versava sobre a lenda de Robert Johnson e explorava o melhor do blues sulista tradicional.

O longa ficou por muitos anos sendo cultuados pelos amantes da música, e ganhou fama de ser difícil de encontrar, tanto em mídia física quanto na grade televisa. Por isso, é motivo para comemoração que a Netflix tenha se empenhado em colocar o filme em seu catálogo, disponível no popular serviço de streaming desde o começo de agosto.

Conheça um pouco mais sobre esse épico da música e do cinema.

Enredo

Eugene  Martone (Ralph) é um garoto fanático pela música negra norte-americana, e ostenta com orgulho pôsteres, livros e discos de seus heróis da guitarra. Fascinado principalmente por Robert Johnson -- e por uma canção "secreta" do blueseiro --, o menino descobre entre suas pesquisas que um amigo do músico, Willie Brown (Joe Seneca), vive em um asilo perto de sua casa. Ele vai lá para tentar descobrir mais informações sobre a faixa, e recebe um ultimato. Willie vai ajudá-lo, desde que ele o acompanhe em uma viagem para o Mississippi.

Willie é um mestre da gaita, mas não fica emocionado quando vê Eugene tocando seu violão. Inclusive, admite que o garoto tem habilidade, "mas não há alma" quando ele toca o instrumento. Durante o filme, o jovem tenta provar ao idoso que ele é digno de estudar e tentar se equiparar aos mestres do blues que tanto admira, tendo que entrar em muitas aventuras diabólicas para isso. Quando finalmente consegue, ganha o apelido carinhoso de "Lightning" (raio) do novo amigo.

Seguindo a jornada, Eugene arranja uma Fender Telecaster bege e um amplificador Pignose para tocar com o parceiro criativo, mas demora para perceber que o verdadeiro motivo que o trouxe até aquela região não poderia ser mais perigoso. Willie admite que não conseguiu seu talento na música de forma natural, e que precisa se livrar de uma dívida feita com forças ocultas para viver em paz.

Lenda de Robert Johnson

O blueseiro Robert Johnson - Reprodução - Reprodução
O blueseiro Robert Johnson
Imagem: Reprodução

Robert Johnson (1911 - 1938) foi um dos mais importantes músicos da história, influenciando desde Son  House e B.B. King a Muddy Waters e Eric Clapton -- além de, claro, "A Encruzilhada". Suas gravações datam de 1936 e 1937, sendo compiladas no disco "King of the Delta Blues Singers" (1961), quando sua obra foi amplamente difundida. Conhecido pela técnica de slide (em que usava o pescoço de uma garrafa para passear entre as cordas), Johnson também ficou famoso pelas lendas sobre seu talento.

Diziam as más-línguas que, quando vivia em uma plantação no Mississippi, ele fez um pacto com o Diabo para virar um mestre do blues. Johnson estava na Dockery  Plantation, à meia-noite, em uma encruzilhada, quando um homem negro apareceu andando na estrada, pegou sua guitarra e a afinou. O Diabo, então, tocou algumas canções e devolveu o instrumento ao rapaz. Johnson vendeu sua alma ao Tinhoso para alcançar a glória do talento musical.

A música "Cross Roads Blues" virou objeto de estudo por amantes da música e até sociólogos, na busca por tentar entender o que Johnson quis dizer com a composição. Apesar de não citar nenhum encontro sobrenatural, ele dialoga diretamente com alguma força maior e pede "piedade" pela sua alma, citando também seu amigo Willie Brown, aquele mesmo que virou personagem para o filme que está na Netflix.

Johnson era uma pessoa muito tímida, falam até que ele gravava suas canções voltado para a parede, assim ninguém poderia ver o que estava fazendo. O mistério sobre a pessoa do blueseiro também está relacionado com a sua morte. Ele foi primeiro a figurar na famosa lista dos artistas que morreram aos 27 anos, de causa desconhecida. Uns falam que ele foi assassinado por um marido ciumento, outros que ele foi envenenado no bar. Mas ninguém sabe realmente o que aconteceu com o jovem músico.

Trilha sonora espetacular

Não, Ralph Macchio não virou um mestre da guitarra para o filme, mas o ator conseguiu "enganar" bem. O responsável por supervisionar e gravar a maior parte elétrica foi o brilhante guitarrista Ry Cooder, enquanto a gaita ficou por responsabilidade de Sonny Terry. A trilha sonora, que não é rara de se encontrar em CD e LP nos sebos espalhados pelo Brasil, teve produção de Tom Whalley.

A participação mais do que especial é de Steve Vai, um dos mais conhecidos guitarristas das últimas décadas e cujo tema "For the Love of God" ganhou fama por ser idolatrado por alunos do instrumento de seis cordas. Além de gravar algumas faixas da trilha, Vai também participa do filme no momento mais emocionante e, talvez, marcante de "A Encruzilhada", uma disputa impressionante com o jovem Eugene para saber quem é o melhor na guitarra.

Ouça abaixo a trilha sonora do filme: