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"Queermuseu" abre no Rio blindada contra ataque e espera recorde de público

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

17/08/2018 04h00

A exposição "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", fechada após protestos de conservadores em Porto Alegre, será inaugurada no Rio de Janeiro, no Parque Lage, zona sul da cidade, neste sábado (18). Para evitar ataques nas redes sociais os organizadores contrataram uma "blindagem" profissional e também distribuíram sinalização com indicação de faixa etária, recomendação do Ministério Público.

Em setembro do ano passado, a exibição sobre representatividade LGBT foi realizada no Santander Cultural de Porto Alegre e, um mês depois da abertura, foi cancelada após protestos de grupos conservadores que atacaram o conteúdo como imoral, ofensivo a crenças e favorável à zoofilia e pedofilia. 

"Para nos proteger, contratamos uma empresa para trabalhar nessa resposta rápida aos ataques nas redes sociais porque é algo que precisa de profissionais especializados. Nos preparamos para algum problema que poderia ocorrer e, por incrível que pareça, recebemos só dez e-mails", explicou Fabio Szwarcwald, diretor-presidente da EAV (Escola de Artes Visuais) do Parque Lage.

Além do que ocorreu na capital gaúcha, o diretor da escola também lembrou do que aconteceu quando o MAR (Museu de Arte do Rio) se prontificou no fim do passado a abrigar a "Queermuseu". Além de ser rechaçada pelo bispo e prefeito do Rio Marcelo Crivella (PRB), que disse que a exposição aconteceria "só se fosse no fundo do mar", funcionários do museu foram atacados.

"Eles receberam mais de 10 mil e-mails. A assessora de imprensa foi ameaçada de morte", contou Szwarcwald para explicar as precauções tomadas pelo Parque Laje. 

Depois de o MAR "desistir" da exposição, a EAV se dispôs a abrigar a mostra, que também foi alvo de tentativas de censura. O Ministério Público do Rio recebeu centenas de representações contra a mostra e determinou que fossem afixados cartazes na entrada informando que a mostra "não é recomendada a menores de 14 anos desacompanhados dos pais ou responsáveis".

A sinalização da classificação indicativa e um alerta sobre o conteúdo com "representações de nudez, sexo e simbologia religiosa" são as únicas diferenças entre a exposição censurada e a que abre agora no Rio.

Para chegar à cidade, a "Queermuseu" conseguiu arrecadar R$ 1,082 milhão via financiamento coletiva. Segundo os organizadores, é o maior valor já alcançado dessa forma no Brasil. O dinheiro foi usado na montagem, produção de ciclo de debates, além da adaptação museológica das cavalariças, espaço onde ocorre a mostra.

O Parque Lage fica no Jardim Botânico, em meio a muitas árvores e aos pés do Cristo Redentor. Além de abrigar a tradicional escola de arte, é um ponto turístico frequentado por apreciadores de arte e costuma receber festas que reúne esse público.

"Fiz mais de 40 palestras sobre a exposição depois que ela fechou. Dei mais de 200 entrevistas", afirmou o curador da "Queermuseu", Gaudêncio Fidelis, que tem as melhores expectativas com a mostra em solo carioca.

"Vai ser um sucesso estrondoso, não tenho dúvida. Me perguntam se era por causa da polêmica. Acho que sim, mas principalmente porque nesse processo houve uma mobilização nacional em favor da exposição muito bem refletida na campanha de financiamento. As pessoas entenderam que querem usufruir desse direito de ter acesso à exposição que lhes foi roubado", disse Fidelis.

Com entrada gratuita, a mostra fica no Parque Lage até dia 16 de setembro, um prazo curto, mas simbólico, como explicou o diretor-presidente da EAV.

Trans, gays e héteros

"A ideia é ficar exatamente aberta pelo período que ela foi censurada pelo Santander. As obras continuaram lá por um mês fechadas, sem acesso ao público e sem devolução a quem emprestou. [A mostra no Rio] é um ato político também para exatamente trazer à sociedade todo esse histórico e conceito por trás da exposição. A EAV não fecha, vai ficar aberta de segunda a segunda", explicou Szwarcwald.

Para estimular a participação de estudantes, a EAV abrirá para escolas durante a semana uma hora antes do horário convencional, das 12h às 20h.

"É fundamental trazer esse público para a exposição, para desmistificar tudo o que foi falado. Foi muito atacada por grupos radicais falando de pedofilia, zoofilia ou vilipêndio religioso. Vamos ter monitores trans, gays e héteros explicando, o que é fundamental para adensar a discussão", disse o diretor.

Segundo Szwarcwald, a EAV recebe em média 35 mil pessoas por mês. A estimativa com a exposição é dobrar esse público.

"Nosso objetivo é que a pessoa venha várias vezes para digerir. Uma vez é pouco. Entro quatro vezes aqui por dia e ainda percebo coisas novas a cada vez", afirmou.

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