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"Favela Vive 3": Quem são DK e Lord, a dupla por trás do hit

Matias Maxx

Colaboração para o UOL, do Rio

17/08/2018 14h00

Canções de amor em arranjos acústicos ou hedonismo e luxúria numa base de trap ajudaram a firmar o rap nacional no topo das paradas por um bom tempo, até o "Favela Vive 3" colar na grade lembrando o papel de denúncia e mensagens transformadoras que são o fundamento do hip  hop.

Organizado pelo duo de Teresópolis ADL (formado por DK e Lord), participam da cypher o mineiro Djonga, os cariocas Menor do Chapa e Choice e a paulistana Negra Li. O talento e papo reto dos MCs, os beats de Índio e Mortão e a impecável direção de Guilherme Brehm levaram o clipe a marca de 5 milhões de views no YouTube, na semana de estreia.

"A gente compôs o 'Favela Vive 3' pensando em realmente tocar na ferida, falar as coisas que não estão sendo ditas no hip  hop. Falar do racismo, da violência contra a mulher, do descaso da polícia com a favela, do cara que é estigmatizado porque é da favela." Lord, do duo ADL

ADL é a sigla para Além da Loucura, pichadores do Beco da Mina, comunidade de Teresópolis que sofre constantemente com enchentes e deslizamentos. Dentro do grupo, DK e Lord se conheceram e montaram a dupla de MCs. Para DK, a pichação (xarpi, para os entendedores) era uma forma de protesto contra o sistema.

"Quando a gente conheceu o rap, viu um meio de botar nossa arte de uma forma também agressiva, mas mais fácil de ser entendida e de se expandir para além desse meio. Quando a gente começou a usar o rap, começou a usar a raiva com inteligência. Não que com o xarpi a gente estivesse sendo burro, só estávamos perdendo tempo e desperdiçando nosso talento em outro lugar."

Marcelo Martins
Imagem: Marcelo Martins

Parceria social

Logo nas primeiras estrofes de "Favela Vive 3", o rapper DK levanta a bola da triste história de Marcos Vinicius, menino de 14 anos alvejado por um tiro vindo de um blindado da PM enquanto ia para a escola trajando uniforme. Também é lembrado o racismo do youtuber Cocielo, a greve dos caminhoneiros, a intervenção federal militar no Rio e o "helicoca", tudo nas primeiras estrofes. Nove minutos e seis intérpretes depois, a canção ainda cita a exploração de Sérgio Cabral e de Pedro Alvares Cabral, grita Marielle Presente e finaliza esperando que o jovem no Brasil seja levado a sério.

Indo para além do discurso, esta terceira edição foi lançada em parceria com a marca Rexpeita, uma linha de vestuário do Favela Vive, com lucro destinado ao Centro Cultural Favela Cria, uma iniciativa do ADL para fomentar ações culturais nas comunidades de Teresópolis.

Lançado há dois anos, o primeiro "Favela Vive" tinha como ideia inicial uma música do ADL com o Sant, mas um post do Facebook mudou os rumos dessa história. "O DK postou perguntando com quem a galera gostaria que rolasse uma cypher. Muitos lembraram do Froid e do Raillow. O Raillow já era nosso parceiro e o cara que na época era empresário do Froid fez o contato. O objetivo era só fazer uma música maneira entre amigos, que chegasse no ouvido da galera da favela e fizesse alguma mudança”, conta Lord.

Já a segunda edição do Favela Vive trouxe BK, Funkeiro e MV Bill numa reunião inédita de duas gerações do rap brasileiro, que fez a coisa ganhar mais proporção e o público cobrar por um time e mensagem ainda mais pesada nesta edição.

Felizmente os manos conseguiram, cercaram a favela de ponta a ponta, combinando o sangue novo de Choice, com o máximo respeito e representatividade do hip hop engajado de Negra Li e o funk proibidão consciente do Menor do Chapa.

Marcelo Martins
DK Imagem: Marcelo Martins

Vida no crime

A transição da pichação até a vida de MC teve seus percalços, incluindo um breve envolvimento na vida do crime. Tudo mudou no dia que DK quase foi preso quando buscava sua filha na creche. "Fiz uma promessa a Deus que, se eu saísse daquela situação, só me dedicaria ao rap e ao hip hop. Prometi que nunca mais ia voltar a fazer nada disso e faria músicas falando para molecada não entrar no caminho que eu tava entrando", lembra.

"Larguei o crime, voltei a trabalhar, passei muita dificuldade, fiquei quatro anos tendo o dinheiro mínimo para viver. Foi só depois que eu passei a levar uma vida honesta e tudo começou a mudar no rap pra gente. Várias vezes saí de show pra trabalhar virado, várias vezes fui trabalhar e saí do trabalho pra fazer show. Graças a Deus, hoje eu vivo da música e valeu muito a pena."

DK

Igualmente satisfeito por ter deixado o crime, sem se vangloriar de nada, Lord admite que essa vivência foi importante. "Pra gente conhecer as pessoas no olhar, às vezes até ter o que falar na música, o que plantar na música, dar uma ideia de um veneno de algo que a gente passou pro cara ver aquela situação e, se um dia ele se encontrar nessa situação, ele sair fora. Então, apesar de ter sido triste foi importante, foi conhecimento.”

"O artista pode fazer música de amor ou um trap muito louco. Independente disso, tem que ter uma seriedade, tem que ter um trabalho social por trás, seja o que for que o cara fale, se o cara tá se beneficiando, ganhando dinheiro, se veio da favela ou não, tem que ter um compromisso social."

"Isso que falta, a galera pensar mais no que vai falar. Vários artistas vão querer me bater se eu falar isso, pois a galera quer falar o que pensa e foda-se, mas falta um pouco mais de seriedade, falar de política, fazer a nossa política do favelado, do pobre, do hip hop", vaticina Lord.

DK completa que o hip  hop "sempre foi muito engajado com causas sociais". "Tem muito MC falando sobre isso nas favelas, o que tá faltando mesmo é espaço pra esse tipo de rap."

"Espero que depois do 'Favela Vive', esses MCs favelados que nem nós, que escrevem de dentro de um barraco, que escrevem enquanto a polícia está invadindo ou enquanto alguém está morrendo, ganhem mais destaque, essa é a proposta do Favela Vive."

DK

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