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Projota lança "Sr. Presidente" e diz que ouviu quase 10 mil batidas para faixa

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/08/2018 12h02

"E aí vem vocês pegar o que é nosso direito/Crime não é mais crime quando é um crime bem feito/Viver dessa maneira é algo que eu não aceito". "Sr. Presidente", lançada nesta quinta-feira (16) por Projota, tem um destinatário no título, mas deve ser recebida em milhares de casas do país nos próximos dias. Com um ataque claro ao momento político, o rapper disponibilizou o clipe no YouTube e a música nas plataformas digitais.

Projota conversou com o UOL para falar sobre o nascimento desta carta aberta. "Anos atrás me surgiu essa ideia e esse nome de música, como se fosse uma carta. Nesse ano me surgiu um refrão do nada. Escrevi sem base e sem nada. Nunca faço isso, é muito raro", explicou.

Com a ideia na cabeça, o próximo passo era buscar uma batida. Aproveitando que o processo embrionário da música já estava diferente do habitual, Projota improvisou mais uma vez. "Eu acordei um dia e falei: 'Preciso escrever'. Estava totalmente inspirado", contou.

Projota em cena do clipe "Sr. Presidente" - Haruo Kaneko/Divulgação - Haruo Kaneko/Divulgação
Projota em cena do clipe "Sr. Presidente"
Imagem: Haruo Kaneko/Divulgação

Em vez de esperar que um dos produtores lhe enviasse ideia de batidas, algo que poderia tomar até três dias, o rapper foi ao Instagram: "Fiz um vídeo pra galera me mandar batida. Qualquer pessoa".

O post feito em vídeo foi junto com um endereço de e-mail. Nos dias seguintes, Projota recebeu quase dez mil batidas na sua caixa de entrada. "E eu ouvi todas. E o Tom Leite, que assina a música comigo, me mandou um violão. Tipo 'deixa eu tentar a sorte e mandar um violão pro Projota'. O violão mexeu comigo e aquele refrão encaixou perfeitamente", explicou. Inspirado, o rapper diz que "vomitou a letra" em 10 ou 15 minutos.

De olho no trap

Projota é fã confesso dos novos rappers que têm ganhado espaço na cena, principalmente dos expoentes do trap. A estratégia de buscar as batidas do Instagram serviu como estímulo para sair de uma zona de conforto com os produtores com quem já trabalha há muito tempo.

"Assim como tem uma geração nova de MCs, tem uma geração nova de beatmakers. E aí eu percebo que não conheço todos os beatmakers. Ali eu percebi que era limitado meu conhecimento. Fiz esse vídeo pra ver o que tem por aí na rua".

Projota foto posada - Pedro Dimitrow/Divulgação - Pedro Dimitrow/Divulgação
Imagem: Pedro Dimitrow/Divulgação

Tom menos agressivo

"Sr. Presidente", uma carta aberta para criticar o momento político do país pediria uma dose extra de agressividade e ataques incisivos, mas Projota escolheu um caminho mais abrangente para levar sua mensagem às massas.

"Eu dosei na agressividade porque eu queria que ela abrangesse mais gente. Quero que o filho e a mãe recebam a música e se sintam representados. E a música vai tocar no rádio. Eu fiz o possível para não ter uma rejeição e que se possa falar de algo assim no rádio", explicou. 

Com 32 anos de idade, o rapper não quis ser específico em uma temática para escrever esta letra. O que define como um "clichê necessário".

Algumas músicas surgem de algum episódio político que me fazem pensar, mas "Sr. Presidente" era exatamente a música para trazer a bagagem de 32 anos. Falar sobre o que precisa ser falado sem apontar um fato, uma data...é tudo. A gente precisa de saúde, educação e segurança. É uma música que clama por isso, clama pelo básico. Que eles não levem nosso dinheiro".

Veja a letra de Sr. Presidente:

A gente paga pra nascer paga pra morar
Paga pra perder a gente paga pra ganhar
Paga pra viver paga pra sonhar
A gente paga pra morrer e o filho paga pra enterrar
Vontade a gente tem mas não tem onde trabalhar
Justiça a gente tem mas só pra quem pode pagar
Coragem a gente tem mas não tem forças pra lutar
Então a gente sai de casa sem saber se vai voltar

E aí vem vocês pegar o que é nosso direito
Crime não é mais crime quando é um crime bem feito
Viver dessa maneira é algo que eu não aceito
Enquanto isso o povo chora sem ter onde morar
Mas existe uma chama acesa dentro do peito
Porque já não dá mais pra se viver desse jeito
Quando o povo explodir vai ser só causa e efeito
Efeito que abastece meu pulmão e me dá forças pra cantar

Sr. Presidente, esse país tá doente
Nosso povo já não aguenta mais
Sr. Presidente, como você se sente
Ao ver a fila dos nossos hospitais?
Sr. Presidente, até queria que a gente
Se entendesse mas não sei como faz
Porque essa noite se foi mais um menino ali na rua de trás

Esse é o meu país tão lindo que não tem furacão
De um povo que ainda segue órfão do seu pai da nação
De uma pátria mãe solteira da sua população
Onde o salário vale menos do que o preço do pão
Dorme um menino de rua descansando seus pés
Viajando pra lua num papelote de 10
Oh pátria amada e mal amada por filhos infiéis
Digas quem te comandas que eu te digo quem és

E aí vem vocês pegar o que é nosso direito
Crime não é mais crime quando é um crime bem feito
Viver dessa maneira é algo que eu não aceito
Enquanto isso o povo chora sem ter onde morar
Mas existe uma chama acesa dentro do peito
Porque já não dá mais pra se viver desse jeito
Quando o povo explodir vai ser só causa e efeito
Efeito que abastece meu pulmão e me dá forças pra cantar

Sr. Presidente, esse país tá doente
Nosso povo já não aguenta mais
Sr. Presidente, como você se sente
Ao ver a fila dos nossos hospitais?
Sr. Presidente, até queria que a gente
Se entendesse mas não sei como faz
Porque essa noite se foi mais um menino ali na rua de trás.