Topo

Geek


Açougueiro da arte: Como criações de brasileiro foram parar dentro de "Black Mirror"

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

10/08/2018 04h00

Butcher Billy. O nome é ameaçador e, definitivamente, não passa a impressão de que estamos falando de um brasileiro. Mas este é o apelido pelo qual o curitibano Bily Mariano ficou famoso, fazendo ilustrações que tem como marca misturar referências, usando como pano de fundo assuntos atuais e muita cultura pop. Os trabalhos chamaram tanta atenção na web, que ele foi parar nas telas de episódios de “Black Mirror” e em itens de merchandising de “Stranger Things”.

Bily é um cara que desde a infância curtia desenhar, mas que não via muito futuro em ser artista e se sustentar deste trabalho. Hoje, o jogo virou. Muito por conta de sua vontade de “meter as caras”. Ele é daqueles que não sossega se não tira uma ideia da cabeça e põe em prática. Foi assim que fez, por exemplo, uma série de pôsteres de episódios de “Black Mirror”, que se tornaria uma parceria com a Netflix.

“Isso começou quando eu decidi fazer um projeto por conta, assistindo a 'Black Mirror', até meio atrasado. A galera já estava usando meme e comecei a ir atrás. A série explodiu minha cabeça e me inspirou pra fazer algo, desenhar. Esse é um diferencial meu, eu faço para ver o que acontece, sem pensar em dinheiro. Então, comecei a desenhar os episódios. Cada um eu pegava e fazia uma arte como se fosse uma capa de quadrinho vintage”, explicou ele.

Esperto, ele usou as redes sociais para que a mensagem chegasse longe. “Comecei a jogar no Twitter e - como não sou bobo – marcava o criador, o Charlie Brooker. Mas não imaginava que ele fosse ver mesmo. Um dia ele me mandou um tuite, público, dizendo que queria comprar as artes para colocar no escritório dele. A gente começou a se falar e uma semana depois ele escreveu: ‘Tem um projeto pra você, você está livre nas próximas duas semanas?'.”

Brooker já tinha começado a escrever a quarta temporada de “Black Mirror” e precisava de ilustrações em dois episódios. Butcher aceitou. “Não tem nada mais 'Black Mirror' do que o próprio seriado inspirar um artistas, este artista jogar um trabalho na internet e ser chamado para trabalhar na mesma série”, brinca o brasileiro, hoje com 40 anos.

Divulgação
Butcher Billy foi chamado pela Netflix para fazer ilustrações de itens de merchandising de "Stranger Things" Imagem: Divulgação

As ilustrações apareceram nos episódios “USS Calister” e “Black Museum”. No primeiro, há uma série “prima” de Star Trek, que precisava aparecer como desenho animado, em painéis e quadros que comporiam o cenário. No segundo, um personagem vê uma história em quadrinhos, desenhado por ele e baseado em outro episódio do seriado, “Fifteen Million Merits”.

Como um projeto grande como esse, mas tratado diretamente com a produção de “Black Mirror” – que ainda teve criação de pôsteres dos episódios e capas dos álbuns de trilha sonora da série -, o brasileiro chamou atenção da Netflix, que o escalou para desenhar material de merchandising de “Stranger Things”.

Butcher fez camisetas e outros produtos vendidos com os personagens da série estilizados.

Ame ou odeie

O artista curitibano diz que desde o começo sua arte trouxe ou fãs ou haters. Ainda que ele próprio não acreditasse em uma carreira em que pudesse fazer ilustrações usando suas paixões e trabalhasse em empregos mais regulares de design, em dado momento ele resolveu trocar sua cidade por Londres. Por lá, tentou absorver tudo que aquela cultura que o fascinava tinha e, na volta, ainda trabalhando em agência, teve a ideia de fazer um projeto de mashup, algo que já existia na internet, mas que tinha espaço para crescer.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Em 2012, fez a primeira série de ilustrações que geraram controvérsia. Ele misturava tecnologia e ídolos da música, colocando, por exemplo, Kurt Cobain com um tablet jogando “Songpop” no Facebook e Johnny Cash tirando uma selfie. As imagens viralizaram e renderam uma parcela de elogios e outra de críticas dos fãs mais ferrenhos. “Quando as pessoas amavam, compartilhavam. Quando odiavam, compartilhavam para que outros também odiassem”, ri ele.

Este trabalho e outros, como quando ele colocou artistas aleatórios com a máscara do Batman, chamaram a atenção da imprensa e começaram a fazer o nome do curitibano. Um de seus projetos mais conhecidos foi à época da morte de David Bowie, em janeiro de 2016. “Ele sempre foi uma das referências, antes mesmo de eu escutar a música do cara já era fascinado pela sua imagem meio alienígena, meio vilão, meio herói.”

Por um mês, ele usou um rosto de Bowie em diversas artes e trouxe nas novas criações elementos da cultura pop, misturando o cantor com Coringa, Laranja Mecânica, Michael Jackson e até Jesus Cristo.

O apelido

“Eu não queria misturar trabalho com agência, então comecei a assinar como Butcher Billy. Eu achava uma coisa bem vilão de quadrinhos. E, naquela época, não tinha minha foto na internet, então eu não tinha uma cara e as pessoas ficavam curiosas para saber quem era o cara que a galera tanto amava ou odiava”, conta ele.

Butcher diz que um de seus segredos é nunca dormir com uma ideia na cabeça. “Sempre desenhei na mão mesmo, mas depois comecei a tentar achar uma maneira de fazer as coisas rápido. A velocidade da internet é muito alta. Não dá para esperar uma semana ou duas para botar em prática. Se esperar, outras cinco pessoas vão fazer. As ideias estão no ar, se você não pegar e formatar de maneira palpável, alguém vai ter a mesma ideia. Sou meio obsessivo com isso, se tenho a ideia, escrevo, não sossego, não durmo enquanto não formatar em uma coisa artística”, afirmou ele, que cria 100% digitalmente, mas gosta de manter as coisas o mais artesanal possível, sem esconder falhas.

Isso surgiu já na infância, quando ele conheceu os Caça-Fantasmas e ficou fascinado com as cores e efeitos usados. Desde os desenhos do personagem Geleia, no caderno, muito rolou, e agora fica a curiosidade para as próximas criações do "açougueiro".