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Indicar cópia de filmes americanos "ofende inteligência" no Oscar, diz produtor

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Rodrigo Teixeira fala ao microfone em coletiva do filme "O Animal Cordial" Imagem: Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

2018-08-07T04:00:00

07/08/2018 04h00

Por mais que o cinema brasileiro tenha seus avanços em qualidade de conteúdo, as produções nacionais não têm conseguido, de forma geral, impressionar os estrangeiros, a ponto de voltar a disputar com força prêmios como o Oscar. Rodrigo Teixeira, produtor carioca que se divide entre trabalhos por aqui e projetos internacionais com nomes como Martin Scorsese e Brad  Pitt, explica que, na opinião dele, o país vem sendo mal representado lá fora, com escolhas que muitas vezes são vistas pelos próprios estrangeiros como uma “ofensa à inteligência” deles.

Rodrigo está lançando nesta semana “O Animal Cordial”, filme de terror que estreia na quinta-feira e que explora muitas relações da sociedade brasileira em suas subcamadas, como machismo, racismo, homofobia e desigualdade social. Segundo ele, o que já foi cobrado por estrangeiros foi justamente esse tipo de retrato do Brasil, uma produção de filmes políticos, que mostrem a realidade e que não sejam mera cópia do que já existe no cinema norte-americano.

“O pessoal espera do Brasil filmes políticos, espera filmes que tenham vínculo com a realidade do país naquele momento. Mesmo que seja com o terror, mas que conte a realidade. O pessoal não quer uma cópia do filme americano. Não quer, não vai ver, não vai dar certo. Uma cópia do filme americano não é bem-vinda lá fora. Não precisa. Eles acham que isso ofende a inteligência deles quando a gente faz isso”, explicou Rodrigo, ao UOL.

Durante coletiva de imprensa para o lançamento de “O Animal Cordial”, o produtor foi questionado sobre chances de Oscar e riu, dizendo que não pensa nisso, até pelo fato de filmes de gênero não terem uma tradição de conseguirem indicações e estatuetas. Mas explicou que o tema é mais profundo, e criticou as escolhas de representantes brasileiros para o Oscar.

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Cena do filme "O Animal Cordial", com Murilo Benício Imagem: Divulgação

“Eu adoraria que nosso filme fosse indicado, mas há uma comissão que aprova o filme brasileiro que vai para o Oscar. Não estou aqui fazendo juízo crítico dos filmes, mas acho que em alguns anos recentes a gente teve chance de ver filmes mais fortes, com alguma possibilidade real de saírem de lá com vitória”, afirmou ele.

Rodrigo relatou uma conversa com o presidente da Academia, John Bailey. “Ele disse: ‘Vocês desafiam a minha inteligência, quando recebo filmes, eles são filmes que vejo todos os dias no cinema norte-americano, eu não vejo uma diferença entre o cinema norte-americano e o brasileiro'.”

O Brasil foi indicado pela última vez ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999, com Central do Brasil, quando Fernanda Montenegro foi indicada a melhor atriz. Em 2004, “Cidade de Deus” concorreu a quatro estatuetas (diretor, roteiro adaptado, fotografia e edição). A produção nacional mais recente a entrar entre os indicados foi “O Menino e o Mundo”, concorrendo como melhor animação.

Entre os filmes que entraram na lista para disputar o prêmio de melhor filme estrangeiro, o Brasil selecionou nos últimos anos: “Bingo: O Rei das Manhãs” (2018), "Pequeno Segredo" (2017), "Que Horas Ela Volta?" (2016) e "Hoje eu Quero Voltar Sozinho" (2015). As seleções frequentemente causam debates, como na de “Pequeno Segredo”, que venceu “Aquarius”, ou “O Ano Em Que Meus Pais…”, que competiu internamente com “Tropa de Elite”.

Outros projetos

Rodrigo Teixeira ficou conhecido pela produção de filmes como "A Bruxa", "Me Chame Pelo Seu Nome" - indicado ao Oscar -, entre outros, além de ter um projeto com Martin Scorsese, em que criou um fundo para financiar filmes de novos diretores.

E há muito trabalho pela frente. O brasileiro está na produção de filmes como "The Lighthouse", do diretor de "A Bruxa", e "Sweet Vengeance", com direção de Brian de Palma e Wagner Moura no elenco. Ele ainda vem trabalhando com Brad Pitt em "Ad Astra", uma ficção científica. 

Ele apenas lamenta que segue complicado se manter na ativa no cenário nacional. "Dos últimos 12 meses, passei 10 fora. É uma pena. Para produzir filmes, você precisa de uma frequência, eu consegui encontrar isso lá. Lá paga minhas contas, me dá estabilidade, retorno, reconhecimento. O que recebo lá, não recebi aqui. Eu amo fazer cinema no meu país. É algo por amor, porque a recompensa financeira é irrisória. Minha alternativa foi buscar a carreira internacional", explicou ele.

Veja o trailer de "O Animal Cordial":