PUBLICIDADE
Topo

Pigossi sobre viver pistoleiro que matou 492 pessoas: "Tentei entender esse cara"

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

01/08/2018 04h00

O pistoleiro brasileiro Júlio Santana diz ter matado 492 pessoas por dinheiro ao longo de 35 anos de carreira. Foi preso apenas uma vez, mas saiu da cadeia no dia seguinte após subornar um policial. Ele está vivo e solto, escondido em algum rincão do país.

A história de um dos maiores matadores do Brasil, que foi contada no livro "O Nome da Morte", do jornalista Klester Cavalcanti, foi adaptada para um filme e estreia nesta quinta-feira (2) nos cinemas.

Marco Pigossi é quem encarna o matador que não se vê como um assassino e, sim, como uma ferramenta. Após cometer os crimes, reza com medo de ir para o inferno. "Se eu não matar, outra pessoa vai receber para fazer o serviço. Então, por que não eu?", diz o personagem em certo momento do filme.

"Não conheci o Júlio Santana, mas tentei entender esse cara", contou Pigossi ao UOL. "Meu trabalho neste filme foi de desconstrução, de me livrar de conceitos morais e sociais. Júlio não teve nenhum acesso a cultura nem educação. Ele é uma pessoa manipulável. Ele tem culpa pelos crimes, é claro, mas nunca foi levado a pensar por si próprio".

No filme Júlio é retratado como um jovem que vive com a família no interior do Brasil. Por lealdade ao seu tio Cícero (André Mattos), ele mata pela primeira vez. Descobre então uma perturbadora vocação, que irá se transformar em ofício. Religioso, é atormentado por sua consciência a cada disparo, mas segue adiante, tornando-se um matador de aluguel.

Ali ele é retratado como um homem carinhoso. Ele se casa com Maria (Fabiula Nascimento) e demonstra ser um bom pai de família, enquanto vive um mergulho num país sem lei, onde cada vida tem seu preço.

O diretor Henrique Goldman, que também fez a cinebiografia "Jean Charles", ressalta que a indústria da morte é imensa. "Fabricamos armas. Compramos armas. Vendemos armas. Não acredito que o Júlio Santana é o maior culpado. Até onde vão as responsabilidades da sociedade e começam as do indivíduo? O livro foi, e o filme também vai ser, acusado de ser simpatizante de assassinos. Longe disso. Mas, como sociedade, não podemos nos permitir não nos questionar".

Ao lado de Goldman, o filme tem Fernando Meirelles, indicado em 2004 ao Oscar de melhor diretor por "Cidade de Deus", como produtor executivo. 

Klester Cavalcanti alerta que a profissão de pistoleiro continua em alta e não só interior do país, onde Júlio Santana atuava. "A pistolagem nas capitais também é imensa. Os casos do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel [assassinado em 2002], e da ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco [assassinada em março deste ano] são exemplos claros de pistolagem", afirma o autor do livro.

"Entrevistei parentes das pessoas que ele matou. É muito claro para essas pessoas que, se Júlio não existisse, seus parentes teriam sido mortos do mesmo jeito. O maior culpado é o mandante", conclui Klester.