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Ficção mostra cidade abandonada no Pará que é dominada até hoje pela ditadura

Kakofonia/Divulgação
Arte da capa do livro "Tupinilândia", do escritor Samir Machado de Machado Imagem: Kakofonia/Divulgação

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

2018-07-31T09:17:57

31/07/2018 09h17

O parque de diversões que todo brasileiro sempre sonhou em visitar, mas nunca teve a oportunidade de conhecer, está nas páginas de “Tupinilândia”, o novo livro do escritor gaúcho Samir Machado de Machado, lançado recentemente pela editora Todavia (452 páginas, R$ 69,90).

Dividido em duas partes, sendo metade nos anos 80 e metade nos dias atuais, o livro conta como um excêntrico ricaço brasileiro construiu, no estado do Pará, no meio da floresta Amazônica, um parque só com atrações nacionais, quando a ditadura militar estava prestes a acabar, como uma maneira de celebrar a chegada da democracia.

Kakofonia/Divulgação
Capa do livro "Tupinilândia" Imagem: Kakofonia/Divulgação
É uma delícia ler e imaginar a descrição daquele lugar. Por exemplo, todos os brinquedos fazem referência à cultura pop oitentista brasileira. Imagine um Autorama da Copersucar, ou um Teleférico do Balão Mágico? Há ainda a Casa do Futuro Prosdócimo e shows com o Vigilante Rodoviário, além de passeios de carrinhos Gurgel.

Quando Samir descreve o lugar, o sentimento de deslumbramento para um brasileiro poderia facilmente ser comparado com o que o Dr. Alan Grant (Sam Neill) e Dra. Ellie Sattler (Laura Dern) sentiram ao visitar o Parque dos Dinossauros pela primeira vez.

Mas o problema (sempre tem um problema) é que o parque é inaugurado às vésperas do fim da ditadura militar e integralistas acham que a nova democracia significa entregar o país aos comunistas. Pouco antes do parque abrir, eles sabotam o empreendimento, isolam as pessoas que estão lá e criam uma nova ditadura no meio da floresta, isolada de qualquer comunicação com o mundo exterior. Quem ficou, não soube que o regime caiu e que a democracia chegou.

“É engraçado como, recentemente, estamos vendo surgir outra vez no Brasil uma paranoia contra os comunistas”, analisa Samir. “De certa forma, o Brasil nunca saiu dos anos 80. Ainda somos governados pela mesma casta política que estava no poder há 30 anos”, disse o autor ao UOL.

Renato Parada/Divulgação
O escritor Samir Machado de Machado, autor de "Tupinilândia" Imagem: Renato Parada/Divulgação

A segunda parte do livro começa trinta anos depois, quando um arqueólogo, apaixonado por cidades perdidas, decide investigar o que aconteceu com Tupinilândia e porque aquele empreendimento visionário não deu certo, até descobrir que o parque não está tão abandonado assim.

Junte-se a isso diversas curiosidades que Samir reuniu daquela época. Em sua obra, ele incluiu na narrativa alguns fatos políticos reais, como os atentados à bomba no Riocentro, a construção da cidade de Fordlândia, no Pará, por Henry Ford, e a visita de Walt Disney ao Rio de Janeiro e o seu encontro com Getúlio Vargas.

O resultado é uma mistura de Parque dos Dinossauros com Indiana Jones e um montão de referências oitentistas para fazer suspirar até que não sente saudade nenhuma daquele período de repressão.

Ficção brasileira

A maior crítica que o escritor gaúcho Samir Machado de Machado tem contra a atual literatura nacional é a de que nossos escritores querem ser Balzac, mas se esquecem de ser também Júlio Verne. “Sempre quis escrever uma história que envolvesse cidades perdidas e dinossauros. Sinto falta da ficção na literatura nacional”, disse Samir.

"Há no Brasil uma ótima e crescente produção literária voltada ao leitor 'young adult', e uma nova cena de autores de fantasia e ficção científica, sem ganhar a devida atenção de revistas literárias que só tem olhos para o realismo. É bom lembrar que os clássicos de hoje eram os autores populares de ontem. Shakespeare trabalhava com entretenimento popular, disputando público com rinha de cachorro do outro lado da rua".

Samir, que também é autor de “Quatro Soldados” (Não Editora, 2013), ambientado nas Missões Jesuíticas do século 18, e “Homens Elegantes” (Rocco, 2016), na Londres de 1760, deixa um alerta final.  “A década de 80 foi de muito consumismo. Um consumo infantil, enlouquecido. Olhando de longe, aqueles anos pareceram incríveis, mas não foram. Nossa economia era fechada e estava em frangalhos. Vivíamos uma ditadura. Tudo era improvisado”, disse.

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